DEDOS NÃO BROCHAM

confissões e pensamentos sobre o feminino

04 Julho, 2009

O que é uma mulher?


"Ouse, ouse... ouse tudo!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!" Lou Salomé




Confesso: a desejo e me calo. Não dou conta desta relação, sou fraca.
Duas meninas. Juntas. Tanto contra. Externas, internas, históricas, naturais. Posso vencer um urso, mas não posso vencer aqueles demônios que foram plantados em mim por tantas gerações. Nasci morta. Penso que menos de 1% dos humanos nascem vivos. A maioria, como eu, nasce e cresce sem saber o valor da vida e do que seja uma mente livre. Eu não sei viver, talvez não nesta sociedade, nestes moldes, nestas ideias padronizadas, nestas relações confusas, nesta linguagem quebrada, nesta falta de condições de expressar o que sentimos, e de saber, principalmente: o quê são esses sentimentos? O que é minha natureza humana? O que é ser uma mulher?
O amor é apenas um nome para diversas emoções unidas. Mas, tal amor existe em nós para os outros? Não estaria esse amor para os outros, condicionado a diversas outras emoções unidas que o objeto amado nos causa? Para que serve pensar tanto assim? Talvez desejo sair dos trilhos e assim, poder encontrar um sentido à vida no não-sentido. Tantos sistemas filosóficos, tantos filósofos falando ao mesmo tento. Essa massa que só quer pão e circo. Essa servidão voluntária em todas as nossas misérias. E ela, salva na brisa da tarde de outono, dentro do lilás me chama e eu não vou. Não quero ir. Oscilo entre minha loucura em persistir e acreditar na vida e o desejo de correr. Oscilo entre entregar os pontos e pelejar até o fim. Mas que é esse fim? Não me permito viver aquele “amor”, porquê?
Questiono a possibilidade do amor ser a segunda maior mentira da humanidade – a primeira é Deus – eu questiono essa bizarra situação de descobrir quem sou, para que sou. E repito a pergunta de A. L. Thomas: “O que é uma Mulher?” Especulando sem rigor, a concepção materialista do século XVIII francês na perspectiva de Denis Diderot diz que a mulher é governada por seu útero. eu acredito que sim, no entanto, acrescento: nascemos e crescemos bombardeadas por hormônios, padrões religiosos, políticos, condições sócias, econômicas, culturais e tudo isso sob o olhar severo do masculino. È um peso responder adequadamente a todas essas coisas, não dá!
Qual é a voz da mulher? Qual seu desejo, sua possibilidade de: ser, criar, inovar quando ela é Mulher sem essa montanha de vozes ditadoras? Não existe resposta universal. Está tudo em cada uma, cada ser é um universo tentando coexistir com outros universos dentro de um sistema bastante complexo e quase incompreensível. Como diz Pascal: Não é possível conhecer nem o infinitamente pequeno, nem o infinitamente grande. Acrescento que talvez também não seja possível conhecer a relação e as consequências entre todos os universos. É confuso pensar que eu sou um universo, eu para mim mesma já sou um enigma, meu organismo e a forma como ele é afetado por todas as coisas externas e emocionais também é complicadíssimo definir, dentre isso que sou e que nem sei que sou, tem os outros seres, entre nós existe tanta biodiversidade que tampouco damos conta, e este planeta singular chamado por nós de Terra, pertence a um outro sistema que se liga a outros. Nem ficção científica pode imaginar o que seja. Por isso fico aqui, atormentada por muitas perguntas... não dou conta de responder uma: como posso ser feliz? Como ignorar tais questões?
Tais respostas, mesmo quando dadas por mulheres estão em tom grave, moldadas pela voz masculina. Na educação da mulher, sua força física foi substituída grosseiramente por ideias do tipo: mulher tem que ser delicada, fofinha, falar baixinho, saber se portar adequadamente em ambientes sociais, não pode se masturbar, tem que adorar crianças e querer tê-las, assim como um marido e cuidar do lar de forma exemplar. Tal condição feminina - como diz Kant: a mulher tem por objetivo desempenhar o papel de enfeite da casa e tornar a vida do homem mais agradável - muitas mulheres acreditam nisso. Muitas mulheres são contra outras mulheres que ousam sair fora deste rito casar-procriar-ter-casa-marido-filhos-e-novela-das-oito ou sonhar com o príncipe que lhe dará tudo isso. Existe algo além dessa sentença de morte em vida? Será que elas estão certas? Eu não sei o que digo, não hoje, não agora que sento a falta dos cabelos dela na minha cara.

01 Julho, 2009

"navaia" - na - "vurva" - II

A coisificação da mulher e...
... a humanização da coisa.
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exploração? da jovem beleza feminina? da parte de quem? mídia? consumistas? empresários? pais mercenários? criação da bunda? leva a bunda pra revista e fica rica? sociedade? capitalista? incentiva a pornografia? maldita? qual verdade será dita? viva a mentira? filho bom de bola? filha com bunda bonita? escola onde fica? na utopia? na puta da esquina? nas revistas mais rica? na punhetaria da oficina? na menina que da vida a bunda mais querida? A Mulher o que quer? ser desejada pelo príncipe? ficar rica? pra comprar o quê? de volta a vida? que a bunda roubou? que a família se esperançou? que saiu na revista? que dançou na televisão? isso enriqueceu a nação? trouxe acréscimo ao progresso? que progresso? No acréscimo da conta? De quem? Da menina? Da família? Da vizinha? Do neném? Do príncipe? Da lavanderia? Do mercado da cidade? Sociedade?
O homem é o lobo do homem? Devemos preservar a espécie: para a vida da bunda?

28 Junho, 2009

ao mal que me quis

Se você chegasse daquele jeito
vestido de meias mentiras em fitas
eu ainda fingira acreditar sorridente

só pra ter na minha boca
a sua língua afiada
seu beiço macio avermelhado

Sentir as espetadas da barba
O gosto de bala de cereja
E ouvir suas fantasias

Mas quem é que te quer?
Eu?
Uma entre eus, só pra dizer um alívio:

ainda
afio
nas minhas coxas
as unhas para a carne sua.

27 Junho, 2009

N a v a l h a _ n a _ “v u R v a”

dos ditos populares da parte de quem, hã?

“mulher no volante: perigo constante.”

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"Mulher não é amiga de mulher"


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26 Junho, 2009

Pérolas - curta belíssimo de Gustavo Vinagre



Para assistir o Genial Pérolas, do genial Gustavo Vinagre


BELÍSSIMO.

09 Junho, 2009

E como fica a mãe do chimpanzé, anda, me responda, hein?



Falar contra a ideia estabelecida pela sociedade do que a "Mãe", é um tabu. A mães, santificadas pela glória do santo lar e pela sociedade, deificadas com o estigma do amor incondicional, da autonegação em prol da cria, do sacrifício, do perdão, do carinho e sensibilidade, do acolhimento, etc... elas são figuras adoradas e respeitadas pela grande maioria dos rebentinhos e falar algo contra elas é uma "grande pecado" - cometido apenas por ingratos repulsivos.

Por gerar e prover, as mães são o máximo que a humanidade pode chegar, próximo a ideia do que seja Deus - para quem acredita em milagres. Uma mãe encarna as “virtudes divinas”, elas possuem fé, força além dos limites do suportável para prover e defender sua prole, uma mãe tem, sentidos aguçados e complexos quando se trata daquele que ela gerou ou adotou em seu coração. Já ouvi, vi e senti coisas extraordinárias quando se trata de mãe. E definitivamente, eu não as odeio. Nem mesmo a minha.
Para a pergunta que fiz, adianto, não tenho respostas, só mais perguntas.
Eu não sei o que é ser mãe, eu não sei o que é ser mulher, não sei o que é ser humana. Tampouco procuro um padrão, ideia, conceito, modelos, etc. Gostaria apenas de saber algumas coisas.
Por que uma mulher deseja ser mãe? Ver sua barriga crescer, seus seios incharem de leite, seu bebe no colo, depois ele fazendo um, cinco, quinze, cinquenta anos?
Ter um filho é realizar um sonho? O que significa sonhar com o futuro desta criança?
A mãe ao realizar seu sonho materno, não está sendo egoísta em relação ao meio ambiente tão saturado, sendo desaconselhável derrubar mais florestas para se plantar mais comida? E em relação às outras espécies de mães? A vaca, por exemplo? Tendo um filho, certamente comerá mais carne; demandará mais recursos para prover está nova vida humana.
Quanto custa ao meio ambiente uma vida humana?
Quantas árvores são necessárias? Quanto leite, carne, ovos, couro; quanto espaço de terra é necessário para o plantio dos alimentos que estava vida necessita? Quanto de água para ele tomar banho, beber, preparar alimentos; fora as indústrias que na fabricação das “coisas” que este cidadão ira consumir também além de precisar da matéria prima vinda da natureza, também demanda mais água. Sem questionar tantas outras coisas que não tenho nem mesmo noção do que seja para se promover a vida de um cidadão comum.
Não seria o momento de conversar sobre a responsabilidade, a ética destas mulheres que desejam filhos? Nem estou discutindo a educação que elas vão dar, ainda.

Todo seu corpo feminino, instintos, química, emoções correm para este a maternidade. Isto é uma prova irrefutável àqueles que colocam a nossa digníssima raça fora do reino animal. Somos animais, e que tipo de razão é esta que nos gabamos tanto e nos diferencia eu questiono, ponho a prova todos os dias. Uma razão que mais destrói que constrói? Porquê o “lado predador da força” ganha daqueles que querem viver sem destruir o meio ambiente respeitando e coexistindo com outras vidas? Uma árvore além de sua vida, promove a vida de inúmeros organismos que vivem nela ou dela.
Os corpos femininos ficam febris e sedentos para conceber. Nada mais de acordo com todo o sistema natural do nosso planeta. No entanto, esse instinto nos faz dar continuidade à espécie, mas veja bem, continuar passa por um desejo particular. Neste desejo particular qual mulher, de fato, encontra-se preparada para criar uma criança para o mundo de forma a coexistir com tudo que ele abriga e provem? E o que é “estar preparada para educar”? Para tornar esta criança um ser saudável emocional e fisicamente? Para que ela seja útil para si no sentido de ser feliz e também à sociedade?
Questiono: o desejo de continuar a si mesma é o mesmo que continuar a humanidade? Talvez tudo seja uma coisa só ou não! Mas o fato é: quando elas vão ao mercado comprar a carne que desmata florestas, comprar o leite cheio de hormônios, os embutidos, enlatados que entopem as veias do marido, causa obesidade infantil, depressão e varias outras doenças cuja causa esta no tipo da alimentação, depois de envenenar a família-feliz e compactuar com o consumo destrutivo; depois de desperdiçar porcentagens significativas da compra do mês, vão jogar no lixo juntamente com a sacola plástica do mercado, será que ela esta pensando no futuro da humanidade?
Que raça extraordinariamente contraditória, não? Quer preservar e dar continuidade a raça humana, mas destrói o meio que vive, além de maltratar e matar seus semelhantes...

Estou generalizando, existem exceções adoráveis, no entanto, baseio-me na classe média que lê a Veja, assiste a Globo, discute as notícias do jornal Folha de São Paulo e vão ao shopping usar o cartão de crédito para suas necessidades superficiais enquanto tantas pessoas precisam de muito pouco, afinal, a raça humana não pode entrar em extinção, não é?
Sem mencionar mães pobres que tem filhos para a rua criar e a sorte lhes abençoar, além das ricas que criam predadores sociais e ecológicos. Mas aviso, em qualquer classe, existe exceção, mas o que movimenta, é regra.
Por que ser mãe? Talvez uma aposta de companheirismo e previdência na velhice?
Apostas altamente arriscadas. É possível falar em uma ética ou moral para a maternidade que englobe coexistir de forma sustentável no planeta?

06 Maio, 2009

ASCO

Quando estou de passagem pelas ruas poluídas de São Paulo – embora não seja condição apenas desta cidade - quando sou obrigada por circunstâncias a entrar em um Shopping Center, fico deprimida ao perceber tantos olhos e corpos saudáveis a procurar apenas o que consumir. E falo do consumo predatório, desnecessário. O consumo da ilusão, o consumo de coisas fúteis que esgota o meio ambiente, a saúde mental individual e coletiva.
Pior fico ao ver mulheres neste frenesi inconsciente, e pior ainda quando vejo as mães criando seus filhos nesta cultura massificada, antiecológica e de degradação social.

Exemplificando: veja se é um programa tolerável levar filhos (as) para consumir os lanches do McDonald's, brincar naquele parquinho débil e levar pra casa uns brinquedinhos “legais”. É parte do novo ritual de convivência familiar?

Sabe quanto ganha um funcionário desta cadeia de lanches impróprio para nosso corpo? Miséria! E pior, que ganhar pouco e trabalha muito, soma-se a isso o ambiente desgastante de pressão para um resultado “perfeito” na política do “consumidor exigente” que os deixa emocionalmente abalados. Ou seja: A rede criminosa se instala no Brasil (sabe se lá em que tipo de acordo com nossos órgãos “competentes”), nos fornece um alimento que só prejudica nossos corpos, embute pela publicidade e pelo ambiente um conceito de vida feliz, de classe média letárgica e eu só me pergunto: qual retardado pode amar tudo isso?

Mas o pior, e retomando o supra dito, é que os pais levam seus filhos para o Mc, como se isso fosse lhes trazer um beneficio emocional que somaria a sua relação com a criança, educando assim, mais um idiota social. Não sei se é arriscado demais dizer que a classe média (se é que ainda existe) e as outras de menor poder aquisitivo são as freqüentadoras assíduas deste “sonho vermelho e amarelo”, eu vou a muitas destas lanchonetes para observar esta dinâmica e criar meus “achismos”. Não que a classe social dominante pela força do dinheiro esteja isenta de ser uma classe idiota, muito pelo contrário, sabem muito bem criar mentes para o consumo do luxo, dos recursos humanos e são exímios dilapidadores dos recursos naturais do meio ambiente. E suas mulheres estão no SPA na ditadura do corpo jovem e incrível, cujas conversas são apenas voltadas a quem esta com quem e quem não tem mais grana. Os homens consomem as mulheres com prazo de validade óbvio. as mulheres se perturbam para manter isso, fazem de seus filhos previdências sociais e suas vidas só fazem sentido quando um bisturi as remodelam. Por outro lado mulheres que levam seus filhos ao Mc dão o “golpe da barriga” no intuito de manter aquele homem “preso” a ela.

Verdade que nada disso é regra, felizmente, mas vamos combinar que isso reflete uma grande parte da sociedade. Que grande absurdo, não! Sinto asco social.
Então me pergunto: será esta a treva obscurantista que tanto os iluministas franceses lutaram para modificar e tornar o conhecimento acessível a todos?
Mas hoje, parece fica provado que acesso ao conhecimento não é capaz por si, de muda o mundo.
Todos temos acesso ao conhecimento, sejamos realistas, pois basta querer e pronto. Temos bibliotecas universitárias e públicas, Internet, consultar professores e profissionais, livros, artigos, dicionários, revistas, enciclopédias, documentários enfim, uma série de recursos para adquirir conhecimento e que esta ao alcance, basta: querer!

Mas vejo constantemente mães criando filhos como se estes fossem incapazes de refletir, decidir, desejar. Tudo lhes é mastigado e enlatado, televisão virou baba e escolinhas e creches quem educam para o coletivo.
Em suas casas cheias de coisas eletroeletrônicas, criou-se um mundo paralelo a realidade social e ambiental. Promovem para as crianças apenas ilusão do bicho papão, da bruxa, da princesa, do super herói, dos desenhos infantis, dos brinquedos que elas consomem e destroem em segundos gerando assim a idéia do consumismo e do descartável.
Eu não concordo com nada disso. E retruco qualquer psicólogo que venha me dizer que este mundo de faz de conta seja importante.
Creio que pensar na possibilidade da greve do ventre seja uma alternativa razoável para nossa espécie.

27 Abril, 2009

DEDOS NÃO BROCHAM




O nome deste blogue já rendeu discussões, caras e bocas. Alguns homens se ofendem; as meninas riem travessas e embora eu tente divagar sobre o tema, tudo acaba na questão sexual.

Eu poderia ficar discorrendo sobre a singularidade do sexo com menina e com menino. Ambos são fabulosos. Sempre digo que o que me atrai são pessoas, o sexo é conseqüência. E rótulos são desagradáveis e inconvenientes.

Mas quero dizer:
1) O pênis é insubstituível e os homens quando sabem usar todo seu corpo para o prazer e não apenas o pênis, nossa, são incríveis.
2) O corpo feminino é um campo minado de prazeres.
Eu não posso dizer que um é melhor que o outro, adoro os dois.

Numa dessas querelas fiquei com a impressão que alguns homens heterossexuais não gostam de mulheres que gostam apenas de mulheres. Me pareceu que não gostam da ideia que o pênis não seja o único a dar prazer a um corpo feminino. Que todo sexo lésbico precisa de objeto fálico e por isso, não passa de uma masturbação entre amigas. Eu dei muita risada, confesso.

O sexo entre mulheres não precisa de apetrechos fálicos, é uma questão de escolha das parceiras, mas me pergunto em voz alta: dedos não acabam sendo algo fálico nesta hora? Eu só estou divagando. Sei também que os dedos não são os únicos a dar prazer no sexo entre meninas, o tribadisto é grande fonte de gozo, entre outras práticas que não envolve dedos, mas sim língua. E não apenas a língua no óbvio, a língua em outras partes do corpo. Em uns posts atrás disse que uma vez gozei apenas beijando, chupando os seios de uma garota, sem ela me tocar ou sem eu tocar a "bonitinha" em nada. Apenas chupando seus belos e incríveis seios macios e perfumados. (risos) Foi fabuloso e sei que isso é relativamente comum entre as meninas.

Alguns homens se aproximam de mim desejosos do “ménage a trois” ou simplesmente desejam ser “voyeur” do sexo lésbico. As meninas não se aproximam desejosas de um homem.
Em se tratando “ménage a trois” aprtindo de uma guria, uma me acenou a possibilidade de sexo entre três mulheres.

Tento explicar que comigo as coisas não rolam assim. Tudo é circunstância, atração, sedução e que odeio coisas combinadas, armadas ou feitas apenas para agradar um. Já disse que não suporto motel? É tão óbvio que brocha. São tão ardilosos na sua retórica de prazer, mas eu sou mais ferrenha que suas supostas razões enlevadas.

Uma amiga me contou que as baladas GLS estão cheias de garotinhas querendo experimentar outras garotinhas. Eu não vou a baladas e fiquei chocada por um tipo de comportamento sexual se tornar moda. Sim, é moda menina ficar com menina, não sei se o contrário também. E os garotos acham isso fabuloso e incentivam. Onde está a liberdade sexual delas? O desejo sexual delas é pelas meninas ou para agradar os meninos? Ou para ficar na moda? Eu sinceramente, confesso que fiquei passadinha-por-um-mastodonte com a novidade que alias, não é mais tão novidade assim, de que bissexualidade está na moda.

Realmente preciso tirar a cara dos livros e do século XVIII para me situar nos fatos atuais.
Ainda não sei exatamente o que pensar a respeito do modismo sexual. Não gosto dos motivos do comportamento bissexual deste grupo de adolescentes, e não compreendo como isso afetará suas vidas e a sociedade, assim como não vejo como progresso sexual o comportamento de muitas mulheres praticantes de trocas-de-casais, pois sei, que muitas vão a pedido dos companheiros e que entram na farra por motivos que não são delas. Ou seja... o uso da mulher tomou ares de moda num discurso "liberal"? Ela sabe o que está fazendo consigo? Sei que algumas mulheres são quem levam os companheiros, mas por enquanto, me ocupo das que não vão por iniciativa própria, e sim, para agradar o parceiro.
Tudo isso me levou a pensar numa ética bissexual. E me pergundo por que as pessoas se ocupam tanto em discutir a sexualidade. É tão simples o sexo, tão belo e tão leve. O conceito carregado de culpa religiosa criada em torno de algo tão natural é perturbador.

GREVE DO VENTRE



Frases, piadas e achismos sobre as mulheres estão em baciadas de papeis escritos por pessoas que supostamente consideramos ao longo da história da razão humana.

Nas rodinhas de conversas ouvimos vez ou outra: “mulher não é amiga de mulher”, “todas as mulheres são falsas, dissimuladas, perigosas...”

No livro sagrado dos cristãos, segundo o Gênesis, lemos: "multiplicarei seus trabalhos e misérias em tua gravidez, com dor parirás os filhos e estará sob a lei de teu marido e ele te dominará." E segundo o apostolo Paulo: "a mulher deve aprender em silêncio, com plena submissão. Que a mulher não ensine, nem domine o marido. Apenas se mantenha em silêncio”. Aristóteles disse: “A mulher é por natureza inferior ao homem. Deve, pois, Obedecer-lhe. O escravo não tem vontade. A criança a tem, mas incompleta. A mulher também a tem, mas impotente”. Não pára por ai, veja o que diz Tomás de Aquino: “O pai tem que ser mais amado que a mãe e merece maior respeito que ela porque sua participação na concepção do menino é ativa e espiritual, enquanto que a da mãe é passiva e material”. E só mais um pouquinho, Pierre Proudhon: “A mulher é uma espécie de meio termo entre o homem e o resto do reino animal. Deve fugir dela quem deseja conservar suas energias corporais e espirituais”. Rousseau: “A educação da mulher será organizada em função do homem. Ela deve tornar agradável a sua vista, deve cuidar dele, aconselhá-lo, consolá-lo, tornar-lhe a vida agradável e feliz. Tais são os deveres da mulher em todo momento”. Segundo Hegel: "a mulher pode naturalmente receber educação, porém não é adequada às ciências mais elevadas, à filosofia e algumas artes."

A lista do achismo sobre as mulheres é interminável, passa de um livro “sagrado” a outro e de um “filósofo” a outro. Além de poetas, artistas e homens comuns. São toneladas de séculos e mais séculos deste achismo pedante e castrador. Mas o que me assusta é o silencio feminino: caladas na faca, no fogo, nas rodas de torturas, na humilhação pública, no veneno, nas mãos de seus maridos. Ridicularizadas, criadas como bibelôs cujo objetivo deve ser atrair o melhor partido que puder, mimadas, infantilizadas, educadas para a menoridade. Torturadas dentro de um corpo que peleja vida, enquanto ela é obrigada aparentar meiguice, delicadeza, gestos curtos, sutileza, leveza e mais um amontoado de tolices que são praticadas para evitar o julgamento social e o julgamento inadequado do suposto marido.

O desagradável deste achismo de tempos, é que mulheres foram educadas contra as mulheres. Brigando entre si por quem consegue o melhor marido, trabalho, quem é mais bonita, mais magra. Qual filho é mais inteligente e especial, qual casa é mais perfeita, qual é mais, mais e mais... em tudo.

Esse comportamento é regra? Hoje pode não ser tanto. Mas rasteja pelo subterrâneo de cada uma de nós, a espreita.

É lastimável que muitas mulheres acreditem nisso e pior, reproduzem isso como se fosse uma verdade universal. Elas não apenas acreditam nestes absurdos como também praticam essa indiferença com a falta de solidariedade e união entre mulheres.

Devemos entender que a base deste equivoco é uma educação que promove a menoridade feminina. Educação para dirimir a unidade feminina e assim, fazer com que elas jamais tomem conhecimento da força que possuem unidas em nome de uma mudança social real.

Já pensou se todas as mulheres de uma nação se unissem para exigir reforma no ensino público, vagas para todos em universidades públicas; saúde digna e de qualidade com todos os recursos; trabalho com salários compatíveis e jornada de trabalho menor; leis e educação efetiva para minimizar a invasão predatória ao ecossistema e a destruição dos vários tipos de vida? Entre tantas outras coisas necessárias! Caso não fossem acatadas estas solicitações justas, simplesmente faríamos todas, uma greve do ventre. Sim greve de ventre, nada de bebes, nada de cidadão, nada de parir gado para esta nação onde floresta vira pasto e poucos comem filet mignon.

Duvido que não acatassem tudo e até mais se fosse solicitado. Seria possível fazer um mundo realmente melhor, mais humanitário se mulher parasse de acreditar que sua vida deve ser sonhar com o tal príncipe encantado, o castelinho feliz e criancinhas fofinhas, num corpo eternamente jovem ao estilo das top models e atrizes globais ou se ao invés de lerem como perder 5 kg em uma semana, lessem o livro Guerras por água, de Vandana Chiva, por exemplo.

O que de fato é ser uma mulher e criar/educar uma menina? O que é ser uma mulher?

Certamente não é educar a menina para ser “modelo-atriz-apresentadora-esposa-de jogador-de-futebol.” Muito menos usar o útero como a um cofre.
É óbvio que homens gostam de “bonecas”, principalmente se jovens e monossilábicas: sim! Claro, existem homens e mulheres que estão fora desta rotina deteriorante para a possibilidade de uma sociedade melhor, mas...

E por que eu me ocupo desta discussão? Porque me atinge, porque prejudica todo o planeta e as futuras gerações. E tais conceitos presente em contos de fadas, na moral cristã, em executivos “perfeitos” ao molde bizarro de Justus e cia. são ditadores cruéis deste nosso adorável país abrasador, onde vivemos e que definem modelos de quem ganha dinheiro e quem não ganha. Em outras palavras, quem pode e quem não pode ter o direito de viver, sobrevive sendo explorado, mão de obra barata.

E então, vamos continuar a fingir "que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes?"
Que carro vamos compar no final do ano?
Se o dinhero sobrar vamos fazer aquela cirurgia plástica?
A crise não é apenas financeira, ela é moral, social, ética... Compromete o sobrevivencia de todo o planeta.
Quero dizer também, para ficar claro, que os homens atuais são também educados para a menoridade. São tão dignos de ajuda quanto qualquer mulher. Eles se aproveiam da herança, muitos deles, sem dúvida. Mas, são nossos companheiros e de forma alguma levanto bandeira contra eles. Caso eu fizesse isso, estaria cometendo o mesmo grosseiro erro. Sou contra o obscurantismo tão bem denunciado pelos iluministas franceses. Portanto, ilustração à todos.


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Dica de leitura:
GUERRAS POR ÁGUA
VANDANA SHIVA
ED. Radical livros

A LIBERDADE SEXUAL FEMININA EXISTE? ONDE?


Ouço vez ou outra alguem dizer que a "SUPOSTA" “liberdade sexual” que existe hoje é promiscua, libertina, suja, amoral, imoral, doente. Sem respeito pelo corpo ou pelo próximo. Que esta liberdade sexual que "ACHAMOS" que temos no ocidente, é um horror e causa de nossa desgraça social. Eu não compreendo ainda este amontoado relinches.

Primeiro: não vejo toda esta liberdade. Tendemos a generalizar tudo. Esta dita liberdade, se é que existe, existe apenas em grandes metrópoles e apenas par aum grupo de mulheres, não se aplica em muitas cidades do interior do Brasil ou em outros países onde o sexo é fortemente reprimido, principalmente em relação ao sexo feminino, como no caso de nações como o Afeganistão e outros islâmicas. Portanto, meia dúzia não é regra. Mas linha de frente, talvez.
Segundo: Falando apenas de mulheres metropolitanas ocidentais sem práticas religiosas, libertinas praticantes de swing, ou bissexuais com outros tipos de preferências, noto que muitas vão a pedido de um homem, e que muitas tem um comportamento de sedução para o homem, ou seja, não é regra, mas muitas gurias fazem isso sem saber porquê.

Cada sociedade tem uma moral sexual. Eu não tenho uma linha de pretensão para discorrer sobre isso. Só quero dizer que a moral é o conjunto de regras normativas voltado para o bem estar comum, ou seja, um código de convívio entre os membros que define o que é permitido e o que não é. Ética é o que cada sujeito faz com sua sexualidade. A ética de um sujeito não pode interferir neste acordo moral social.

Acho desprezível e inaceitável sexo entre adulto e criança ou animal. Pois a meu ver, sexo só pode ser praticado entre pessoas em iguais condições de consentimento mental, moral, ético e intelectual. Ou seja, impossível ser entre um adulto e criança ou animal, portanto, o desejo e a prática sexual tem limites morais e éticos.

Definido isso, posso discorrer sobre o tema sexualidade feminina.

Desde pequeninas as meninas ouvem dos mais velhos: “Fecha as pernas e senta direito”. Esta frase não é tão simplista quanto parece. Ela trás em si um peso que não corresponde àquela infância, uma vigilância não apenas da pequena vagina, mas com os membros da própria família. Muitas histórias de horror caladas com mecanismos sádicos.

No entanto, antes desta primeira infância, na infância da humanidade, as mulheres sempre sofreram por conta do sexo e da moral social. Antes, em sociedades antigas era-lhes negado até ao status de cidadã, de humana. Eram usadas para procriar, usadas para limpeza, costura, alimentação, ou seja, bem estar do homem e das crianças nascidas homens.

Com o passar dos séculos nestas sociedades patriarcais, quando a mulher começou a existir para os homens, só podiam viver na função de esposa-e-mãe, no entanto, sua sexualidade, sempre a serviço da procriação e do homem, continuou reprimida.

Pergunto-me se estas mulheres sentiam prazer sexual de outras formas. Será que praticavam sexo com outras mulheres? O que elas conversavam quando esquecidas pelos beligerantes senhores? Só de uma coisa eu tenho certeza: sentiam MEDO!
Medo, medo de morrem, de matarem quem amavam, da violência física, da fome, da violência emocional. Que insuportável imaginá-las tão abusadas e sofridas.

Quando a era cristã se instalou, vieram mais sofrimentos: além da negação do desejo e da prática sexual pelo prazer, a culpa, a vergonha, a penitência, a fogueira, a ideia do inferno e a servidão a um único homem por toda vida atrelou-se como uma aliança que até hoje ainda não rompemos. Algumas mulheres de grandes centros sim, mas a maioria das mulheres do mundo, não.

Os ditos livros sagrados como a bíblia, o alcorão e a torá ainda são lidos e vistos como códigos morais fundamentalistas seguidos por humanos de todo o mundo. Isso significa que o obscurantismo desumano e antiecológico destes três amontoados de papel e tinta, ainda negam o corpo humano e a vida na Terra em nome do além-da-imaginação. Mulheres ainda se ajoelham e beijam estes livros antinaturais e criam seus filhos para crerem e respeitarem estes livros.

Para os homens sempre foi muito fácil e aceitável o sexo fora deste contesto do casamento, e mesmo sob estes três livros-santos eles caem em tentação. Mas onde esta a tentação? Esta onde os livros dizem que esta, mas para a natureza não existe isso.

Para as mulheres, trair é crime gravíssimo - que até a pouco tempo atrás, aqui no Brasil, era punido pelas mãos do cônjuge que a julgava e a sentencia a morte. E este homem nada sofria das autoridades e nem da sociedade. Andava feito herói com honra lavada pelo sangue dela.

Não temos liberdade sexual. Nem sabemos o que é liberdade. Mas já sabemos o que é gozar e o que nos da prazer. E muitas não sentem mais culpa, embora o processo apenas começou. As mulheres compreenderam sua história e se dispuseram a levantaram a voz contra este massacre de tempos. Todas estas mulheres antes de mim, que morreram para defender seu direito ao prazer, direito de falar, de estudar, votar, ler, escrever, pensar, criar, etc... muitas foram e ainda são julgadas como feministas loucas e lésbicas mal amadas ou “mal-comidas”. Quantas ofensas mais? Mais quantas tentativas de manter a mulher na menoridade, no obscurantismo conveniente?

À todas as mulheres que lutaram e lutam pela emancipação feminina, minha gratidão máxima!

15 Abril, 2009

QUAL A UTILIDADE EM EXISTIR?

Simone de Beauvoir; Sartre; Fidel e Che Guevara.
(humanos de ideias + ação)


Qual nossa utilidade no planeta?

Existimos para quê? Sempre me perguntei isso. É diferente do porquê existimos: quero saber para quê?

Para leituras filosóficas, amantes complexos, amores desconexos, alimentos e abrigos sofisticados, entre tantas outras "coisinhas" de nossa gentil espécie? além do que causamos ao planeta?

Alguma causa merece o suor da peleja? Algum filósofo vale “pestanas queimadas”?

Para quê essa febre da eficiência máxima, da perfeição em tudo?

É possível definir o que é perfeição num contexto prático?

A suposta perfeição que almejamos nos é pertinente? Ou é mais uma ideia que nos apegamos para causar mais sofrimento? Como as ideias da transcendência?
Vejo, leio, ouço e ainda não compreendo!

Acho que ainda não sei viver.

26 Março, 2009

SOU MULHER QUE CORRE COM LOBOS



Não sei como algumas mulheres suportam o casamento. Vou à casa de algumas amigas e fico observando a “dinâmica” marido-filhos-casa-carreira. E me pergunto como elas aguentam?
São mulheres saudáveis, com observações interessantes sobre várias coisas, jovens e inteligentes. Mas compraram a ilusão encalacrada no discurso social de tempos: fede mofo o portaretrato da família feliz mamãe-papai-e-filhinhos.

Uma de 30 anos me confidenciou que se fosse possível voltar no tempo, não teria filhos, tampouco se casaria. Pergunto a razão disso. O comentário dela é comum, porém muitas mulheres apesar de sentirem e pensarem exatamente isso, sentimentos que levam a culpa não as deixam verbalizar abertamente.

Ela vive num lar classe média, com dois filhos, pequenos tiranos, mimados e manipuladores. E que ninguém me taque pedras, crianças sabem como ninguém manipular um adulto - eu percebo o jogo, estou de fora - ela não.

É coisa do tal amor materno tido como incondicional cegar as mulheres que vivem na função de mãe, a suposta culpa por ficar fora o dia todo, são as armas utilizadas por estas criaturinhas fofas e engraçadinhas. Acho um absurdo a mulher ser tão imbecilizada com seus filhos, deixar de ser o centro de si mesmas para adorarem as crias. Não vejo nisso nenhum louvor digno de se alcançar as glórias dos céus-amém que eu quero é ir pro inferno.

As mães fazem tudo com um preço bem definido. Observem, pois a conta está embutida em tudo: nem mesmo as mães fazem nada de graça.
Enfim, mulheres-mães não são vítimas de seus filhos, haja visto que pariram e "tábulas rasas" e escreveram para serem seus “donos”. Mães são responsáveis pela sociedade medíocre que vivemos, pois constantemente criam idiotas para rebanho e não humanos auto suficientes. Bom, eu teria que definir etimologicamente o que penso ser um idiota, além de humanos alto suficientes. E não estou paciente para fazer isso.

Um exemplo, só para mostrar como vivem uma ilusão maternal egoísta é que, além de repetirem um modelo gasto de séculos, elas não se unem para mudar o ensino público, exigir que deem a seus filhos condições de escrever e ler com inteligência, associando, criticando, etc... As mães não se unem para salvar o que podem mudar, só para chorar a perda do instrumento de sua adoração, da sua “razão de viver”.

Francamente, abrir mão de si mesma para gerar tiranos, sustentar os mimos, caprichos e loucuras de um marido, sim, para mim, marido é o homem que deixa a mãe para pegar uma “mãe” com mais funções e mais jovem, capaz de lhe prover a infantilidade por mais tempo. Um “marido” é o filho que uma doida cata de outra. E vejo como eles são terríveis e dependentes.
Sempre vou a noite até a casa delas (maldade pura) é mãe e amor que nem se pode contar. Mãe quero isso... amor onde está... manheeeeeeeee.... amorrrrrrrr...

Nunca consigo ficar para o jantar.

Vou a casa delas como terapia contraceptiva marido-e-filho.

E para validar tudo que eu penso sobre “maridos” e como NÃO reproduzir um idiota-tirano-mimado-dependente-passivo-social.

Pobres garotas, era só ouvir as avós e as entrelinhas das mães e tias para perceber a teia ardilosa do casamento e dos filhos.
As mulheres são vítimas e algozes no jogo ardiloso de tempos da educação manipuladora e castradora que receberam. No entanto, estes sopros novos anunciam que os homens – além de algozes – são vítimas. É hora de trabalharmos juntos para uma humanidade mais saudável com a finalidade de libertarmos homens e mulheres do equívoco da dominação ideológica.

***
Que os deuses me ajudem a viver com tão poderosa liberdade.


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Dica para leitura:


"MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS"

de Clarissa Pinkola Estés

ed. Rocco


Ótima leitura.

17 Março, 2009

O corpo sempre diz a verdade - Confissão I: O Olhar



Ela me deixou assim quando sustentou meu olhou: sem vontade de correr; vontade de deitar em seu colo e entregar minha vida; rir de lembranças velhas; pegar na mão e segurar o tranco da vida; ver no 1825 dias ininterruptos o espetáculo do sol iluminar seu caminho até o banheiro enquanto puxa a calcinha e reclama por acordar cedo; gostar de querer mais 1825 dias começados assim; desejar vencer na vida só para ter de volta o direito legítimo do tempo e ficar com ela.
Sua voz me toca como zilhões de pontas de dedos, tudo em mim torce pelo som daquele sim; riso com lágrima - eu sinto nojinho de lágrima - não terei das lágrimas dela; um ar novo para uma vida de tédio; uma coisa doce pra se olhar e desejar.
Gritar pra todo mundo que ela disse SIM. Bem ali, num café de Paris.

16 Março, 2009

AMBIGUIDADE EM ANÁLISE


essa mulher me espreita e gargalha da minha cara é perversa até na hora de comprar o pão ela só não chuta gato! sem comiseração viu ela vive no meu estômago na azia na dor da raiva nossa mais parece um bolo de sapo que não desce nunca afê não digere nem sei mais o perfume do sol entende falta o ar pesa no passeio da praça sei lá deve ser essa coisa cíclica esse lance complicado de ser mulher O quê?

(um gole d’água, um trago no cigarro)

quando era pequena lá no inferno sabe já disse minha casa meu pai minha mãe meus irmãos tudo sanguesugadaminhavida eu não tinha vida era mortaviva era um troço um lance bizarro entenda eu já disse outra vez eu aprendi a ser uma e a ser outra e agora que sou duas uma briga com a outra lembra que falei da prima aquela que eu transava então meu pai trepou com ela no dia dos catorze anos dela sim ela quis foi sim o cão foi vistoriar a criação ela foi atrás vestidinho sem calcinha e sabia o que queria verdade tô falando ela disse que a rola dele é assim mesmo óh a rola do seu pai e gostosa eu fiquei enjoada mas depois morri de rir eu e ela nossa viajamos da Bahia até o parque do Beto Carrero World era só eu falar pra ela prima diz que quer que eu vá junto se não você conta pra todo mundo que ele estuprou você Sim idéia minha tudo idéia minha eu sei manipular e assim ela fazia e a gente conseguia tudo mas o que eu queria com isso era que ele nunca mais me batesse então eu fiz isso e ela disse a ele que a pinta do pinto que ninguém sabia que o diabo tinha ficaria sabendo se ele não parece de me bater eu coloquei a idéia lá na cabecinha dela e ela fez tudo achando que era idéia dela mas ela gostava de mim e ai sabe com é tudo você entende naquela época era a outra mas bom verdade éramos nós duas interesse comum entende

(mais um trago no cigarro, desvia os olhos para os livros de psiquiatria, a mesa arrumada. Vai até lá e desarruma tudo, só preserva os livros que olha sem saber o que pensar deles)

eu sei você deve estar pensando se me interna ou não mas eu digo que não sou perigo nem pra mim nem pra ninguém ave não mesmo e digo que já vi gente mais perigosa por aí na escola na faculdade depois de pai e mãe sempre digo presta atenção é fato internacional gente pior são os professores bando de filhosdaputa sim odeiam o ofício e o que fazem dos sonhos deles como riem deles essa miséria escraxada viciada tem vergonha quando vão dizer sou professor dizem para dentro descontam tudo nos alunos com um risinho sarcástico eu sei tive os meus odeio todos salvo a prô do pré uma graça de mulher lembro que ela cheirava suor de criança na hora do recreio sonhava ela ser minha mãe coisa estranha eu já disse não gosto nem do meu pai nem da minha mãe coisa mais sem sentido humanos assim terem filhos que diabo de natureza mais doida que deus que nem existe doutor deveria esterilizar tudo acabar com tudo um acordo mundial para o fim da humanidade raça sem propósito nenhum uma grande peste na natureza praga dos infernos viu a foto do urubu na África esperando aquela cagadinha de gente morrer para comer pois é e aqui nesse continente americano a gente inventa tanto para resolver esse vazio esse abismo do peito que direito doutor esse vazio no peito que a gente têm heim O quê? Eu sei não estão na pauta da sessão

(apaga o cigarro, arruma os objetos sobre a mesa e continua ainda sem saber o que pensar claramente daqueles livros de psiquiatria)

Já não tenho mais forças alguma para segurá-la, estou fraca, cansada. É mais fácil entregar a vida. Você não pode garantir que ela seja pior que eu. Ela só quer correr, mandar uns aí tomar no cu. Só quer ser o que sei que somos, é isso. Eu quero matar nós duas. Dispenso todos os remédios, dispenso, obrigada. Não quero dizer mais nada.

10 Março, 2009

Domingo de clássico


Ontem seus dedos correram pelo meu ombro, brincaram com minhas orelhas, entraram na minha boca enquanto eu, sentada na cadeira da cozinha, fingia a paz que não tinha.

Nossos namorados na sala perderam de ver onde estava o verdadeiro fenômeno .
Sentada na minha frente; vestido creme com florzinhas. Olhos que refletiam o fogo dos meus.

Nos separava xícaras, bolo de laranja, queijo, frutas, cinzeiro e jarro de suco.
Falamos de livros. Apresentei e li Marcelino Freire. Ela adorou.
Tive trabalho para ler, seus dedos driblavam as palavras.

Aos outros objetos entre nós, soma-se o livro.

Suas mãos dizem o que a palavra não pode.
Levanta o vestido, mostra a calcinha. Pede meus dedos entre suas pernas.

Da sala, gritavam a cada lance do jogo. Ela suspirava a cada invasão de meus dedos. Ainda bem que cozinha é lugar de mulher.
A mesa treme levemente, o guardanapo abafava sua vontade de gritar como eles.
Coisas de mulher sempre foram sussurradas, ditas ao pé do ouvido, discretas. Eu avanço, mudo de dedos, armo nova tática, beijo um seio que se oferece depois de dois botões abertos, ela faz barulho, aperto o pano em sua boca, esfrego no biquinho do seu peito, o meu. Pouco tempo para acabar tudo. Ambas avançamos na grande área. Tensão. Tesão. Hummm!
Eles gritam... Vai! Vai! Vai...

É gol.

CamaDeCasal


Deveríamos dar a cama de casal uma função mais nobre que a de servir de abrigo para unir - noite após noite - pombinhos que desejam dormir de conchinha felizes para sempre.
Não existe em todo o mundo nada mais potente para minar uma relação.
A caminha onde os apaixonados se estranham revela vagarosamente, além de crueldades íntimas, a morte do amor sexual.

Não é possível cochilar no circo de quatro pés com dois palhaços deitados.
Hábito nauseabundo herdado com o pacote de obrigações social-familiares. Cabeça-mastodonte. Crimes e mentiras que ninguém quer assumir.
A cama de casal é uma desgraceira só. Não discrimina se de palha ou de linhos egípcios. O óbvio mata a imaginação.

Um inconveniente séptico.
Mau agouro escolhido e comemorado com selinho.
Cochilo de barnabé depois de comer feijoada no verão.
Eu detesto a alcova onde o melhor de nós morre, cochavelha com asco de toque.
Excesso de intimidade que me irrita. Não gosto de intimidade neste nível, é cruel.

Prefiro cada um seu quarto, melhor cada um sua casa. É mais limpo, mais saudável.
Não posso mais com essa mentira, não me diverte mais.
Por um tempo, por algumas noites é bom, não nego. Mas a constância, a obrigação que irrita.

Quem disse: quem se casa tem que dormir em cama de casal? Diga para a viúva, 40 anos de casada. Não quer mais saber de ninguém.
Quem disse que temos que conviver com os parentes dos nossos parceiros?
Por que submetemos nossos amores a tantos diabos de pequenas coisas? Assim, quando damos conta, o inferno está instaurado e ninguém sabe onde foi que tudo começou a minar.
Eu tô dizendo que muitos homens e mulheres; mulheres e mulheres ou o contrário, não suportam a vida “matrimonial” pelo cheiro do peito sob as cobertas pesar com lembranças de roupas jogadas, parentes desagradáveis, sexo mal feito, cobranças cretinas, birras-de-mimo, falta de assunto, falta de dinheiro, etc.
A rotina começa na hora de dormir.
A morte se anuncia com as alianças. Repetição, repetição, repetição...

04 Março, 2009

Pitanguinha



“Entupia-se do gosto de goiaba, romã, cajamanga, fazendo de seu corpo parte do pomar, embora fosse mais íntima das frutinhas pequenas que a ensinaram a explodir na boca do amante e deixar um azedinho no fundo.
Era somente uma menina naquela época mas sabia escolher seus homens, preferindo os famintos, aqueles que não pudessem se conter em meio a profusão de cheiros numa tarde quente. Conduzia-os com calma, fazendo-se de menininha distraída que trepava sem calcinha nos galhos mais altos da jabuticabeira. Até os mais santos davam vez ao tarado observando aquela bucetinha madura que voava de galho em galho. Depois se esparramava pela terra, lambuzando-se no caldo das mangas e ensinando como devorá-las até o bagaço. Nesse ponto eles já pouco pensavam, confundindo o que seria fome, ou calor e se deixavam também ser maliciosamente ingênuos... perdendo assim suas roupas ao caminho da pitangueira, onde colhiam o primeiro mamilo que se revelava numa confusão de cores similares. Já tão sedentos davam vez ao ritual, e era isso que a menina queria, para ela só existia amor na brutalidade da urgência: era enfim chupada, espremida, pisada e abocanhada até o último sumo para ser libertada.
Seus amantes, pobres meninos e homens rústicos, fugiam em carreira louca, atormentados por culpas e pudores enquanto ela permanecia já sem lembrar deles.
Deixava seu sangue decompor na terra, germinando a próxima estação".
***
escrito por Celso Amancio - para mim - lá na oficina.

02 Março, 2009

PELE GEOGRÁFICA



foi assim: no chão

mal dito escarrado em mim
risco estreando na pele
escarro-sarcástico
escarro-idiossincrático-sádico

minhas pernas abertas
marcadas, molhadas, desatinadas

arrotou meu coração
bafo de desdém-azedo com ironia

mal que consenti.
risinhos que lhes dei.

assim foi: um dia todo escarro desce.

21 Fevereiro, 2009

A CRISE DA MENTIRA


Deus sabe o quanto aprecio uma mentira perfeitamente arrematada. E o diabo o quanto acho graça e encanto nas hipocrisias dos meus semelhantes.
Explico:

Na revista Piauí_29 saiu uma matéria sobre Laurita Mourão, escritora de mais de 70 anos, entre outras coisas, diz: “só não faço mais sexo por falta de mão de obra”. É um bom texto, a entrevistada ajuda muito. Adorei. Confesso que não a conhecia. Faz a velha Dercy parecer uma beata casta. Alias, sempre achei Dercy raivosa demais para falar sobre sexo. Ao contrário, Laurita fala com paixão, prazer e diz que o melhor amante é o francês: “na cama o francês dedica as mulheres os mesmo direitos” sem pudor. O premio de pior fica para os americanos, pudicos e cheios de culpas.

Eu nunca transei com um francês ou francesa, mas transarei. Não esta nos meus planos dar atenção a um americano, como não DOU atenção a brasileiros “militares-empresários-de-extrema-direita-cristã”. Minha experiência internacional limita-se a um argentino e a uma espanhola.

No meu tcc, trabalho o feminino no século XVIII na perspectiva de Denis Diderot, a partir de uma discussão levantada pelo acadêmico francês A. L. Thomas, respondido com fervor por Madame D’Epinay e Diderot, que discorrem sobre o tema “O Que é uma mulher?”. Além deste, coloco na briga o nobre materialista Marques de Sade.
Madame D’Epinay defenderá uma influencia social-cultural sobre a formação das mulheres e Diderot, materialista, dirá que a mulher é governada pelo seu útero. Já o Marques, sodomiza qualquer um.

Mas a questão que pretendo discutir com meus dedinhos mal dando conta de digitar, é que ambos (Diderot e D’Epinay) dizem que ao envelhecer a mulher deixa de ter seus atrativos frescos para o deleite do sexo, assim como seu útero, de ser útil. Tornando-se uma mulher - na minha interpretação, totalmente desprovida de rigor e responsabilidade - um ser sem graça e sem utilidade para a sociedade.

Quer dizer, a mulher é um ser de utilidade? para dar prazer e gerar descendentes? Isso mudou do XVIII para os dias de hoje? Acho que - especulando - muito pouco.

Este é o amontoado de idéias grosseiras que tive enquanto conversava com um cliente na livraria que trabalho. Falávamos sobre a revista e a matéria de Laurita Mourão. Ele um quase cinquentão muito atraente, por isso dei tanta atenção. Dizia que a mãe dele de 70 anos é “muito ativa”. Eu quis saber se sexualmente ativa. Ele respondeu um “Tomara” sem olhar nos olhos; creio que ele nunca pensou nisso. Mas continuou a defender sua postura sobre as mulheres velhas.

Nunca entendi essa frase-pronta para falar de velhos: “ah, fulana(o) é bem ativa(o) e lúcida(o)”. Tipo, aquele trapo de gente ainda é capaz de colocar comida na sua boca e levar sua bunda até o banheiro. Até o vocabulário para se referir a "terceira-melhor-idade" é um chute na boca do bucho. Quanta hipocrisia.
Valha deus-pai-ausente, envelhecer é uma desgraça! é insustentável o siêlncio do tempo enquanto nos mastiga. Mal que chega pelo olhar dos outros.
A graça da mentira mal costura é quando vejo o tal cinquentão atraente no café com sua “esposa”, usando aliança de casal abençoado pelo santo-matrimonio-de-merda-amém, e rio gostoso: ela não tem mais que 25 anos de idade.
Sem problemas, óbvio. Se o sexo é consentido, tanto faz um de 70 outro de 25.

Quer dizer: tudo que ele me disse não passou de um discurso politicamente correto? Defendemos nosso direito futuro de trepar, mas enquanto ainda somos relativamente jovens, vamos comer jovenzinhos, depois nem mais velho quer velho?

É inquestionável o sabor e o cheiro de um corpo fresco, uma mente sem vícios de joguinhos bestas e um coração ainda leve em relação as “danurinhas” da vida. A companhia é agradável embora, tediosa muitas vezes.

Aos 70 anos, cheia de vida Laurita quer trepar.

13 Fevereiro, 2009

PORTAS ADJETIVAS


Portas vermelhas
Negras portas
Portas brancas
Amarelas portas
Mestiças
Portas

Todas Vigiadas!

Portas escancaradas
o que entra e sai é comentado
o que sente é confiscado, roubado, negado.
Portas atormentadas, subjugadas
Ignoradas, fechadas, dissimuladas
Cadelas marginalizadas caladas
Filhos(as) da puta a beira da porta
Filhos(as) da puta dentro da porta
Na beira das portas
moscas e urubus, abelhas e quem beija a flor.
soleiras cheias, outras capinadas
“Cuidado com as portas”
“des-bastar de ervas daninhas!”
ecoa pelo tempo a carnificina metafísica: A morte é na Mente!
carne dormente, porta selada, alfabetizada, doutrinada, machificada*
Acaso são portas do mal, do amoral, do imoral, dos vícios?
Pecado! Pecado! Pecado!
Onde carrega a sua culpa?
Odeio ouvir pecado; sentido que nem existe: não mesmo!

(Das portas para dentro: quentinho
Para fora: Ilustração!

Não divinize nem faça oferenda às portas: COEXISTA)

Portas arrombadas pintadas de vermelho.
Enclausuradas ressecadas, acinzentadas, amaldiçoadas, veneradas, coisificadas, comercializadas, consumidas, consumistas...com..com...sem!
Constantemente.
Ecos! Cheiro de porta queimada.
Melancolicamente servil.
Grosseiramente mirada.
Maldosamente ASSASSINADA.
E tudo porque é uma porta. Que nada sabe o que se passa dentro.
O que cada porta guarda em segredo?


DO QUE VOCÊ TEM M-E-D-O?
HÃ! DO QUÊ? HEM? CA-RA-LHO!

_____________________________________

*machificada: ter ideia e comportamento machista.

06 Fevereiro, 2009

Assédio Sexual



Minha língua doida.
Paranóica.

Tua pele.
Tropa de dedos à nos defender.
Invasão? Direitos?
Dentro, a língua torturada.
Na saliva. Seu gosto.
Imaginário.
Você. Dissimula o tom
Qualquer dia, eu anarquista.
Seu território.

Direito meu.

26 Janeiro, 2009

Karenina

Yoshiya Takaoka (1909-1978) “Cavalos” (1974) Aquarela33 x 48 cm.

Viajar é ver puríssima leveza no cheiro do canto dos sapos enquanto quero-quero ensaia novo repertório.

O distanciamento do local e das coisas que faço diariamente me permite ver melhor em que águas me abandono e quais desejos fantasiados de ursinho fofinhos me passam a mão na bunda. Depois deste, ops! comigo não! afoguei muitos deles.

Os desejos que sobrevivem e aquilo que vejo que sou, angustiam-me na paz que me dão.


Do que preciso para viver de maneira tolerável? Quem preciso ser para sentir-me bem? As cobranças que faço a mim: quais são suas vergonhas? Tem dias que depois de me sentenciar pelo crime de auto-tirania, fico sem falar comigo pelo tempo que dura o funeral dos ursinhos fofinhos, esses desejos tão sem gracinhas.

Nestas férias fui até a casa de meus pais no interior de São Paulo. Tudo na casa me parece pequeno, passado! Como sempre, fico mais fora que dentro da casa. Mais longe que perto da família.
Cheguei com saudades de Karenina. Hora do almoço. Fui procurá-la. Ela estava deitada sob o pé de caja-manga, seu lugar favorito. Corri para ela. Chamei! Ajoelhei abracei e beijei.

_ Karenina! Venha, vamos dar uma volta? E quando percebi sua dificuldade em se levantar, percebi o tempo em mim. Há vinte anos me vejo dentro de seus olhos gigantes. Caminhamos para as sombras de um pequeno bosque (quando pequena eu chamava de bosque das “Amigas em pé”. Aquelas árvores me protegeram das “malcriações” dos adultos. Foram comparsas por não delatarem meus segredos e aventuras. Nunca espalharam que dei meu primeiro beijo “apaixonadinho” aos sete anos de idade, na boca de uma colega de escola dois anos mais velha enquanto brincávamos de esconde-esconde e como ela gostou daquilo; como eu, aos treze anos, seduzi e “fiz homem” meu primo-jacu-da-cidade-grande. E tantas outras histórias; mas são lembranças, sinto muito, me perco nelas e penso que já vivi feito uma anciã africana.
Caminhei a seu lado desta vez, Karenina achou estranho, queria que eu a montasse, mas disse a ela que estava tudo bem. Minhas queridas “Amigas em pé”, minha melhor amiga daquele lugar abrasador e nenhum outro semelhante meu para me forçar a vigília, finalmente, a distância que tanto queria. Passamos a tarde conversando; quando Karenina não gostava do que contava a ela, balança a cabeça eu perguntava porque, ela olhava nos meus olhos e eu entendia tudo. Neste ano que passou senti náuseas existenciais e percebi claramente o que me estraga o estomago metafísico.

O que me leva pensar que mais tentei me desfazer de coisas, que o contrário. Pouco desejo, não crio expectativas em nada e tento coexisto com muitas situações e pessoas.


Mas não tenho fôlego para esse bando-de-gente-besta que adorara enfiar o dedo sujo na cara dos outros. Karenina não compreende quando falo destas coisas de humanos. Pra dizer bem a verdade, nem eu! O melhor é quando paro de falar para ouvir esta égua que é mais esclarecida que muitos "obscurantistas-que-vagam-ditando-ordens" por qualquer cidade do mundo. Olho em suas birocas lustradas e os deixo me fazer sentir tudo que ela pensa. Nos encontramos quando eu tinha seis ou sete anos, ela já era uma bela adolescente. Meus olhos devem ter engolido Karenina feito bolha de sabão. Mamãe não deixou seu marido se desfazer dela. Soube que a amei e a deseje como unhas para coçar minha catapora.
E solta entre árvores e Karenina, vi que viver é leve quando não nos fazemos de carriolas para lixo alheio, entre outras coisas...

06 Janeiro, 2009

A burguesa sem graça

Quando pequena pensava que o inferno era minha casa e o demônio meu pai. Não se aborreçam comigo, mamãe é judia e dizia que o inferno não existe, mas o demônio temente a “Nossa Senhora Aparecida” (para mim, Nossa-Nunca-Deu-O-Ar-Da-Graça) dizia que eu iria queimar em garras satânicas.
Escondia-me das surras atrás das minhas fantasias. Na época em questão eu andava encantada com a história de Sansão e Dalila e ocultada em cantos, suava desejando os poderes de Sansão para surrar o dementado católico. Depois, quando me tornei mais espertinha, descobri que os poderes de Dalila eram mais coerentes e que papai era um sádico e deveria ficar distante dele em todos os sentidos.
Quando cresci, eu estava enganada, mas nunca em relação aos poderes de Dalila, nem sobre a inexistência do inferno, estava enganada em pensar que a demência era privilegio do meu “doce lar.”
Hoje vejo qanto o mundo é composto por dementados que se diferenciam apenas em graus. E quando apurei um pouco mais as reflexoes, além de descobrir que toda mulher tem um pouco de Dalila em si, descobri que entre tantas mulheres que sou para mim, além de terem muito de Dalila, também são dementadas tanto quanto outros humanos. Mas o que quero dizer com este amontoado de palavras e vai e vem?
Quero dizer que descobri em mim, mais uma das tantas patas das ratazanas religiosas e vociferei num assombro cômico: que diabos de santos espertos! Eu passei um longo tempo infeliz por não corresponder ao ideal de humano “legal e saudável”, do tipo que trabalha num bom emprego com todos os benefícios; do tipo que entra na graduação, faz mestrado e doutorado antes dos trinta anos; do tipo que, orgulhoso de si diz aos outros pagar suas contas exatamente em dia e que se sente realizado por voltar para casa depois de um dia de trabalho "honesto", tomar um “bom banho” e senta-se para ver televisão junto com a adorável família constituída seguindo todos os ritos e crê, arfando o peito de satisfação e certeza que o mundo é um lugar bom e que Deus ajuda a todos que cedo madrugam e, portanto, o dinheiro da prestação do carro e da casa própria estará garantido no final do mês, assim como o colégio particular das crianças, os cursos de inglês, a empregada, os passeios ao shopping, a pizza sábado à noite, o restaurante domingo após as obrigações religiosas, e tantas outras “patiugadinhas” que são “necessárias” para o bem-estar desta nobre e adorável classe social. Entrementes, não posso dizer que eu era uma burguesa cujo orgulho estava ferido e por isso eu sofria. Não! Primeiro porque eu nem sabia o que significava ser uma burguesa, segundo porque ser burguesa é como ser católico: estes amontoados de idéias, comportamentos e conceitos imundos estão encalacrados nos costumes sociais e você os absorve juntamente com o leite materno. Você cresce e se descobre católica e burguesa, olha-se no espelho e decide se está “roupagem” combina ou não com o que você é! No entanto, é recomendável que você saiba que o que você É distingui-se categoricamente do que você Têm, ou seja, Ser é definitivamente diferente de Ter (mas concordo que se pode ser e ter ao mesmo tempo - seria como ver vaga-lume com asas de cachorro). Definindo Ser: não ser nem ter conceitos burgueses-católicos, mesmo em outras culturas as roupagens religiosas ou políticas cujo cerne seja patriarcal, vejo que só a fantasia-das-religiões mudam, mas o conceito "burguês-católico" continua em série com outros nomes tão feios quanto.
resumo do caos: estamos num só mar de bosta.
Todos somos mentiros, criamos fantasias ideológicas para crer nelas, portanto, mentimos. E cruelmente arrastamos crianças para essa demencia.
Entende?

11 Dezembro, 2008

FALÁCIA MATERNA

Quem pode sustentar algo que seja verdadeiro?
Ou seja, o que é a verdade? A verdade existe no particular ou no universal?
Quem pode possuir, sustentar, nos indicar alguma coisa que possamos apontar e dizer: eis enfim, uma verdade universal?
“Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas” - Nietzsche.
Não posso dizer qual era o contexto utilizado por Nietzsche quando elaborou esta frase, mas aqui tomo a liberdade de usá-la num sentido particular; meu apelo a autoridade, ou suposta.
O fato é que as mães não são mães eternamente. Ao menos deveriam não ser. É abominável uma pessoa adulta depender de seus pais financeira ou emocionalmente. Que tipo de civilização dependente os humanos criaram? Que invenção de mau gosto foi a criação do “santo lar da sagrada família”.
Não basta a criação das mulheres à servidão voluntária - está barganha monstruosa na troca da liberdade por segurança, elas, ao longo dos séculos, passivas e ignorantes vem criando seus filhos para vê-las e adorá-las como santas no altar: mamãezinhas veneradas cuja bondade e amor são inquestionáveis. Como sou atéia, vejo este fato de adoração como uma anti-sala dos problemas. Vejam bem, não estou afirmando categoricamente que Deus não existe (eu não sei se ele não existe, não posso provar que não existe, como não podem provar que existe) só quero abordar as questões além da anti-sala do questionamento humano, pois como aposto (e me refiro à aposta de Pascal) que ele não existe, não tenho o medo de pensar e escancarar a porta da anti-sala.
Lá estão as questões que quero trazer à luz para questionarmos. As mães não a ultrapassam, pois temem pela paz da cria e pela sua segurança.
Então, o fato é que as mães não são “santas do lar”, são seres humanos do sexo feminino que geram corpos e os nutrem para que se desenvolvam em outros seres humanos. Acontece que neste processo elas enlouquecem de um suposto “amor materno” e querem se apossar da vida daqueles seres, os violentam sem piedade com crenças morais e religiosas, supostas verdades sobre a vida e as pessoas, sistemas educacionais, normas, etiquetas sociais, orientação sexual para o oposto, preconceitos embutidos à hora do jantar em piadas sobre a vida do vizinho, de um parente distante ou dos empregados.
Espinafrar com amor!
Minha segunda falácia refere-se ao psiquiatra Gaiarsa: “Criança de três anos, em testes compatíveis com a idade, são quase todas geniais; aos vinte, o rendimento intelectual cai a 15%, mostrando que a educação é primariamente um processo restritivo que limita, que fecha a cabeça, o corpo, prende.” Ora, se todas as mães amam demasiadamente suas crias e por elas cometem toda sorte de sacrifícios, por que não cometer o mais simples deles?
Questionar constantemente: o que é a maternidade? O que é esta sociedade onde minha cria ira coexistir? O que sou independe da minha função materna? Qual é a função e quanto tempo a maternidade prevalece e para quê? Como não criar um inútil social? O processo de humanização do animal humano é desastroso e anula varias possibilidades de contarmos outras histórias. A humanização sempre esteve em crise, mas agora estamos em colapso.
Porém, o que acho pertinente ressaltar no que tange a educação e o trato materno com suas crias, é a distinção que fazem com as meninas. As meninas precisam de uma vigilância maior (por alguns motivos óbvios e compreensíveis) no entanto o que quero tratar aqui são outros motivos. As meninas se tocam, abrem as pernas e olham para outras pessoas de forma diferente dos garotos.
Cabe minha confissão: quando eu tinha cinco anos de idade, eu tocava em minha vagina e sentia prazer, disse a uma prima e ambas nos tocamos, e nos esfregamos, porém, o curioso é que nunca nos beijamos na boca. O contato era das vaginas. Lembro-me que fazíamos escondidas, pois os adultos brigavam conosco quando nos viam tocando na vagina. Minha mãe sempre me separa dos garotos da mesma idade, me mandava fechar as pernas, dizia que eu era menina e tinha que me comportar como tal, ora, então existe algum tipo de “perigo” em ser garota? Então não posso tocar na minha vagina porque Deus não gosta e vai ficar triste comigo? Ora, se ele não gosta eu gostava e ainda gosto. As mães castram as meninas psicologicamente para que elas não sintam prazer? Esse é um método utilizado pela igreja católica, que se apropriou da idéia de que tocar no corpo e sentir prazer priva o humano da quimera transcendental. Eu não quero transcender a lugar algum. Quero meu direito de gozar sem culpa, quero minha sanidade mental perdida, talvez um dia, se eu mudar de idéias, pois me reservo o direito de mudar de idéias, poder reproduzir-me sem passar adiante a miserável condição humana(quase impossível).
Mas para tal, preciso da resposta. Enfim... o que é a mulher?

07 Dezembro, 2008

Maria dos meus pecados

Avisei:
“não se apaixone por mim”
(Ela me tira o vestido)

serpenteamos sobre o suor uma no corpo da outra
nos encaixamos em curvas e blasfêmia
puxei seu cabelo
lambi suas axilas
“não se apaixone por mim”
(Ela esta com tesão para me ouvir)
em seus braços, oferece feito mãe generosa
o alimento libidinoso, tomei.
sem nada me tocar, gozei
quantas possibilidades de prazer: o que ainda não sei?

“não se apaixone por mim”
(Ela me chama de ridícula).
Pequena, disléxica, voluptuosa
bafo com bafo
sua voz rouca me faz querer
a vontade é do estômago
suas mãos me enganaram.
são fortes. tapas fortes!
Maria me põem de quatro, me morde, arranha as costas.

“Não”! protesto sem chance.
e manda usar a imaginação, para em casa, eu esconder sua violência.

“Não se apaixone por mim”
(Ela olha para minhas botas)
tardes de cabelos emaranhados.
lençóis amassados
sofás gozados
Quando ela goza, ri.
e aparecem covinhas no rosto!
perturbadoramente maliciosa e articulada.

“Não se apaixone por mim”
mas que tola insensível que sou.

“Não se apaixone por mim”.
sou ridícula!
(Ela indica a porta).

“Não se apaixone por mim”
em seu favor a posse começa no meu ouvido.

“Não se apaixone por mim”.
(Escolhe!).

calço as botas.
Alinho no corpo o vestido amassado.


É noite: lançamento de livro, bar, beijos roubados num corredor na frente do banheiro...

E já é outra história.

29 Novembro, 2008

Que os poetas me perdoem, mas amor é questionável

Não sei exatamente quando se deu minha desconfiança com esta palavra “amor”. Sei que desde muito pequena descobri que amor é mais uma palavra sem sustentação. Meu pai deveria ensinar-me o que é o amor, porém, mostrou-me o contrário disso. Mamãe mostrou-me o que é o amor, entretanto, um amor exagerado, judeu e pesado demais! Em meus primeiros contatos com a coisa amor, deu-se um “amor na ausência” e um “amor no excesso”. Sem linguagem esclarecedora, apenas uma verbosidade inútil. Desde criança percebi que havia algo errado com a palavra amor e aquele emaranhado de tentativas de descrever o sentimento, assim como à palavra esperança, ou às palavras de fé transcendental. Logo depois, na adolescência descobri que o que eu sentia por meninos e meninas não era amor, era vontade de sexo, vontade de companhia, vontade de compartilhar coisas, mas que eu poderia encontrar isso em muitas pessoas, isto é, sem ter aquele único ser de adoração, ora, se eu poderia encontrar estes sentimentos em todas as minhas relações, algumas com sexo, outras sem sexo sendo apenas amizade, eu fatalmente me questionava: onde está o amor romântico ou o amor dos poetas? O amor que nos tira do ar, que causa as tais borboletas no estômago, o amor que nos faz desejar apenas uma cabana e a coisa amada e esquecer todas as implicações práticas e inviáveis de se viver numa cabana sem energia, sem água encanada, sem alimentos... Viver apenas na rede e da coisa amada nos braços a nos dizer juras de amor eterno. Impossível para não dizer ridículo.
Todas as vezes que pensei que amava alguém, descobria que na realidade sentia algo como paixão e que depois de duas ou três vezes de sexo, aquele frisson se acalmava e mais uma vez eu concluía que não passava de pele ou companhia. Já fui acusada de ser alguém “sem alma” (isso é verdade, pois sou feita de carne, ossos, sangue e um emaranhado de nervos entre outras coisas de caráter orgânico) de fato eu não tenho uma “alma”, tenho uma razão. Outras vezes disseram que eu não tenho coração (mentira, eu tenho e a função dele é bombear o sangue no eu corpo). Essas acusações querem dizer que eu não sinto o tal amor, mas como posso sentir algo que não compreendo? Mesmo que se dê sem compreensão, eu nunca o senti neste contexto dos poetas. E o que achava que era, com o tempo percebia o emaranhado de ilusão que no distanciamento se tornava claro e desprovido de poesia. Questiono-me demasiadamente sobre o amor e já escrevi neste blogue, que penso sobre a questão do amor como um conjunto de sentimentos que o outro ou o próximo nos inspira, um jogo de reflexos entre “o que eu sou” e o que o próximo é, que encontra ressonância em mim, em toda história que me constitui, que propriamente ao próximo. Então nos amamos no outro? Ou seja, o amor é o fato de eu me reconhecer no próximo? Ou me complementar nele? Essa idéia de complemento me deixa de cabelos eriçados, eu não gosto desta coisa de me fundir no outro, de que o casal se torna um. Abomino! Eu sou eu, o outro é o outro, não somos um, não quero ser metade no outro, quero ser apenas o que sou e dou conta de ser e sentir. Como ficaria minhas idiossincrasias? E as do meu próximo? Não, definitivamente não é uma questão de “metades da laranja”, é um tipo de reconhecimento de um conjunto de histórias pessoais, emocionais, gostos, cheiros, pele que fantasiamos, não damos conta de explicar e chamamos de amor, como os antigos pensavam que o trovão era um tipo de fúria dos deuses. Não que eu nada sinta, eu gosto de algumas pessoas, aprecio a companhia, sinto falta, tenho carinho, saudades, querer bem, choro quando entes ou amigos queridos falecem. Não sou desprovida de sentimentos, eu apenas os questiono. Talvez eu seja um certo tipo de “meio” entre o “amor na ausência” e um “amor no excesso”. Mas uma coisa eu sei, posso dizer que o amor em mim é algo temporal e orgânico.

23 Novembro, 2008

Parte II: Ensaio sobre o sentimento de culpa; o nome dos três inimigos da mulher selvagem

Percebo que divago a procura das causas, mas sinceramente, às favas com as causas do sentimento de culpa, pois a procura por causa é coisa para metafísicos, portanto, um pasto imaginário por onde me recuso a comportar-me como tal.
O que me interessa são os efeitos causados nas relações humanas, principalmente às mulheres, advindo pela crença no sentimento de culpa.

Quando uma mulher sente-se culpada, ela está dominada!
Suas emoções estão subjugadas, sua inteligências mutilada.
Devemos esclarecer que Mulheres existem poucas pelo mundo, pois o que vemos constantemente dobrando esquinas, movimentando todos os tipos de mercados, tentando provar sua capacidade e produtividade no trabalho, todas estas mulheres que movimentam a sociedade, elas não são Mulheres, são humanas do sexo reprodutor feminino que vive, não à mulher selvagem, mas à mulher na função de esposa e mãe. A mulher na função de esposa e mãe!
Vemos ao longo da história o ódio contra as mulheres, essas pecadoras filhas de satanás, essas ardilosas criaturas amigas de cobras semeadores do mal que gerou a expulsão do paraíso, essa criatura tão perigosa quanto a inteligência. Maldita mulher que só presta na função de mãe e esposa. Como dominá-la? Imputando-lhe culpa! Eis o veneno da dominação!
Ardilosos consumidores com caras de anjos são os filhos a lhes sugar os nutrientes do corpo, depois os seios, o tempo, a vida. (depois voltaremos a esta questão)
Ardilosos maridos, confortáveis na sua situação validada pelas idéias do cristianismo, do islamismo e do judaísmo. Estes homens foram educados a odiar e a mutilar a mulher selvagem QUANDO NÃO ESTÃO NA FUNÇÃOD E MÃE OU ESPOSA, única situação válida para a mulher. Eis os três maiores inimigos da mulher selvagem! Estes três inimigos da humanidade!
Com seu King Kong morto, ela não tem forças, entretanto ela PENSA que não tem força. Mais eis que num momento apropriado lhes apresentarei o antídoto, o contraveneno, a forma para reanimar sua Fera. Antídoto este, já percebido pelos três maiores inimigos da mulher selvagem e tão vilmente encalacrado em nossas almas tal como o veneno da culpa. Por hora, o que desejo é ainda divagar mais sobre a culpa, mas atenção, basta pensar sobre o que é a mulher para chegarmos perto de uma resposta-antídoto.
por hora, são divagações de uma mente sem estabilidade! e de um corpo exaurido pela paixão carnal de um argentino generoso.

Parte I: Ensaio sobre o sentimento de culpa; divagações livres e gerais

O sentimento de culpa é natural em nós, ou seja, faz parte do “pacote dos instintos humanos" ou é mais uma pesada herança cultural passada por nossos pais e pela sociedade?
De onde procede o sentimento de culpa? Para que e para quem serve o sentimento de culpa? Quem falou primeiro sobre culpa e em qual livro? Se descobrirem a autoria e o livro, ao fogo com ambos!
Entretanto, não um fogo ordinário, mas sim, um fogo heraclitiano onde nada permanece imóvel e fixo, tudo muda e se transmuta, sem exceção!
Um dos males de nossos tempos me parece, e ouso apontar, ser o desejo pelo estável, por “moeda estável”, por “mercado estável”, por “política estável”, e finalmente, não menos grave, “relação estável”. Quem criou o mito do estável? Porque o humano deseja tanto o estável? Seria medo da inconstância? A idéia de que a vida não estaria garantida no instável? Seria delicioso divagar sobre isso, mas a questão, por hora, é o sentimento de culpa pelo prisma da feminilidade.

Vejamos o clássico filme “king Kong”. Acredito que todos já o viram, pois bem, vamos agora “revalorar” os papéis.
A natureza da mulher selvagem (ou mulher natural, ou mulher antes da colonização social) é o king Kong. Forte, natural e incompreensível. O gigante entrega-se ao amor que sente pela bela mulher, porém, percebamos que não é um amor carnal, nem mesmo um amor romântico, acredito que é mais um sentimento de proteção, de cuidado e despedida. Um olhar lânguido à coisa prateada em sua mão que parece lhe dizer sem o uso das palavras: “Sou seu Daímon, sua alma, sua natureza, estão nos separando.” A mulher prateada, inserida nas formas sociais de beleza, em formas luxuosas, nem mesmo perde suas sandálias de salto alto, nem se despenteia ou amassa seu belo vestido puro. Ela não tem força, não compreende o que o macaco gigante lhe diz, não compreende o assassinato a que é submetida, afônica pouca coisa diz, não luta pelo seu King Kong. O pobre macaco então, cai de seu lugar natural e deixa o resto de si, ou seja, a mulherzinha enfeitada para ser resgata pela velha e trágica idéia do príncipe. A fera é gigante, forte e solitária, mas seus inimigos o atacam em bando. E novamente a estabilidade é mantida por homens bélicos e covardes.

Devido a este assassinato, está mutilação da mulher e seu Daímon, não perdeu apenas a mulher, os homens também perderam muito, a humanidade perdeu e pouco chance existe para revertermos a situação nauseante e doentia do mundo, pois qual mulher ou homem hoje no mundo tem vivo seu Daímon?

Não quero dizer que os homens são vilões, eles foram quando causaram esta cisão na mulher, mas agora, tantos milhares de anos depois, são tão vítimas quanto as mulheres, somos os restos de nossa própria loucura. O humano é sua pior invenção. A humanidade hoje vive uma semi-vida, uma vida de rebanho tosca e desprovida de King Kong.

Observamos que, pela posse da mulher selvagem, historicamente os homens e as sociedades fizeram grandes esforços num sentido de garantir a paternidade, a herança genética e de bens entre outras coisas.
Continuando a especular, estas necessidades primeiras criaram outras mais supérfluas e os costumes se degeneraram na posse não apenas do corpo, mas do emocional e do intelectual feminino. O King Kong está morto, pois ele é muito feio.

Antes de falarmos sobre culpa, se faz necessário divagarmos desprovidos de rigor, em outras questões.
Uma dessas questões é a imbecilização da mulher-coisa, o comércio medíocre do sexo e das informações sobre o sexo, tais quais: “como não deixar que seu casamento caia na rotina,” “como ressuscitar o sexo depois da maternidade,” “como deixar seu marido doido na cama em cinco passos” e outra infinidade de manchetes absurdamente ridículas compradas por mulheres ávidas em manter a pose da mulher-coisa perfeita, enquanto nutrem e promovem suas crias usando sua mantinha de maternidade sagrada.
Só para não mencionarmos uma série de graus de distúrbio, violência e submissão sexuais!
São tantos os absurdos passados pela educação, pelos costumes para mulheres e também para os homens, que seria necessário mais um doutorado que um reles ensaio desprovido de rigor analítico.
Um velho mito, ainda vivo em regiões distantes dos grandes centros ou em famílias retrogradas e ferrenhamente religiosas sob o manto sagrado da família e da tradição, é o mito da virgindade.
A mulher-coisa não é dona da sua vagina, e além desta catástrofe de não poder usufruir as deliciosas possibilidades de prazer advindas da sua vagina, seu direito natural, pois é seu corpo, contam com o olhar de censura e o indicador riste e severo do poder público que a vigia do alto de sua hipocrisia.
Temos também os mitos da mulher solitária, a misantropa cascuda, da louca por conta da abstinência sexual, da mulher seca, da vítima, da lésbica traumatizada e uma infinidade de rótulos perturbadores.
Diz a língua da tradição da sagrada família, que se uma mulher não se casa, ela fica louca. Claro, a infeliz da mulher-coisa cresceu sabendo apenas que seu papel e função social eram ter um marido, uma casa, e filhos. E ilusão quem pensa que isto mudou, continua sendo o sonho de muita mulher que se dizem “moderninhas” e mesmo para as que são, elas viram que neste conto, apenas aumentaram mais um ponto, como a jornada tripla de trabalho. E não nos esqueçamos das que se casam, e são infelizes, mas o medo da solidão, da miséria, do trabalho, da condenação da família e da sociedade as mutilam para a possibilidade de uma vida plena. Também pudera, seu king Kong está morto.

10 Novembro, 2008

Do meu lado da cama


Ao lado, do meu lado da cama eu “queimava” de desejo em silêncio, confusa e só, mesmo ele estando na cama comigo, do lado dele. Chorava baixinho, angustiada, triste, crente de seu amor, de seu desejo por mim, mas sabia que, embora ele estivesse ali, do meu lado na cama, ele estava ausente há mais de dois meses. Eu caminhava pelo parque e pensava na situação dele, nada poderia fazer além do que já estava fazendo. Outro dia, na cama enquanto acariciava seu rosto eu sussurrei para ele que eu não tinha a cura para o seu mal estar, que ele deveria procurar alguém para lhe ajudar, pois eu não sabia mais como. “Sabe o que é desejo dolorido?” Lhe perguntei outro dia e respondi gritando e chorando: “É chorar de dor por desejar muito você dentro de mim, saber que você pode, mas que está perdido no seu mundo. Eu me masturbo pensando em você, e você está ao meu lado na cama, dormindo. Por favor, procure ajuda” Ele baixava os olhos, me abraçava, dizia que me amava, que eu era linda, que eu era tudo para ele. Mas, eu não queria ouvir aquelas palavras, eu não queria saber de culpados, o que eu queria ele não me dava. Meu corpo não agüentava mais a falta de sexo, estava ficando confusa, abalada emocionalmente, distraída, não conseguia me concentrar em nada. Estava comendo tanto. Outro dia, todos os dias comendo chocolates, mas outro dia comi tanto que meu organismo expulsou de forma violenta o excesso. Não pude ser fiel enquanto ele "cultivava" sua dor. Fui leal no meu apoio e compreensão, mas caso eu sufocasse os meus sentimentos e desejos, eu trairia a mim mesma. Então, não foi possível ser fiel.
Penso que numa relação sempre haverá a suposta traição (num contexto onde este termo faça sentido), pois se não for trair o próximo, trairá a si mesmo, portanto sempre haverá traição. Uma cama e dois mundos. Dois mundos e muitas dores, umas físicas outras existências.
Enquanto ele dormia, eu velava seu sono, agasalhava seu corpo, diminuía a luz do abajour para não lhe iluminar os sonhos. Deixava o quarto, feito felina de vida noturna, e descia as escadas, tomava água gelada, banhos frios, afiava nas minhas coxas as unhas para a carne dele, gozava e chorava por desejar ainda mais o corpo alheio! Outro dia fiquei parada em frente a uma gôndola de mercado e me esqueci do que iria comprar. Outro dia um homem veio me pedir informações e eu não entendi o que ele queria. Muitos dias os carros buzinaram atrás de mim para me avisar do sinal aberto, outro dia, outro dia... Eu sei o que acontece em meu corpo com a ausência de sexo, sei o que acontece na minha mente e sei que não era responsável pelo que acontecia com ele. Não caço bruxas, jamais!Eu não me maltrato e não me traio, não me nego os outros, me sensibilizava com a situação dele, mas não me ocupava do problema dele, muito menos o transformava de forma subserviente em meu.. Tampouco o acusava, o ameaçava, o amedrontava. Eu tentava entender seu silêncio, sua ausência, seu desejo de estar só e fiquei com ele. Mas nos braços de outras e de outros eu me curava dos meus males físico, e voltava para ele, insustentavelmente leve.

05 Novembro, 2008

meu “vir-a-ser”...argentino II



No e-mail, entre outras coisas, ele diz: “Marque logo nosso encontro, pois meu coração você já marcou...”
Eu respondi entre coisas outras: “Mais que marcar seu coração, quero marcar sua pele”.

Eu digo isso, pois não busco nem amor, nem fugir de nada nos braços destes amantes, tampouco pretendo resolver algum problema psicológico destes bem complexos que psicanalistas adoram e relacionam com a infância e o pai. Não!
Eu não busco nada além do sabor da carne e das sensações causadas na pele.
Portanto, não me fale de coração, destino, anjos, predestinações ou quaisquer outras coisas de "fundilho" metafísico.
Sexo é pele, amor é novela.
Eu não creio em novelas, só me distraem a mente para nada me darem de concreto.

30 Outubro, 2008

E depois de um banho, todos passam... ele sempre fica!

Apesar de tudo, das minhas loucuras e desejos irrefreáveis e de tudo isso que eu sou para mim, apesar de minha vontade louca de estar só, à vontade de estar com aquele que me vê como uma “rainha do lar” é maior, por enquanto.
Eu desejo a suavidade da companhia dele e sou viciada na mentira que me conto por meio dele. O mundo dele é repleto de certeza, de tranqüilidade, de linearidade, de ausência de questões profundas que buscam as essências dos conceitos; ele me ausenta da realidade em que me vejo, voltar para ele me da a sensação aconchegante de acolhimento, de abraço fraterno e protetor que me diz “shiiiiiii, calma que logo passa...” Eu gosto quando volto para casa, arranhada, lambuzada de amantes enlouquecidos, cansada da cidade e de seus cidadãos moribundos. De professores e professoras sádicos, gosto de voltar para seu, meu, “doce lar”. Gosto de voltar para seus braços quentinhos, seu olhar de amor e fé em mim. E depois de um banho, todos passam... ele sempre fica!

18 Outubro, 2008

meu hemano


Recebi o poema abaixo de um argentino:

¡Qué risueño contacto el de tus ojos,

ligeros como palomas asustadas a la orilla del agua!

!Qué rápido contacto el de tus ojos con mi mirada!

¿Quién eres tú? !Qué importa! A pesar de ti misma, hay en tus ojos una breve palabra enigmática.

No quiero saberla. Me gustas mirándome de lado, escondida, asustada.

Así puedo pensar que huyes de algo, de mí o de ti, de nada, de esas tentaciones que dicen que persiguen a la mujer casada.

Jaime Sabines

16 Outubro, 2008

Ele gosta do Marquês de Sade, SOU ANTI-JUSTINE.


Corri do seu interesse, da retórica alucinante em seus discursos filosóficos! Dos desejos trágicos a riscar a pele do meu coração já marcado por outras mãos iguais. Desta vez, não! Não seria eu a “presenteá-lo” com meu suicídio. Não aconteceria novamente. E eu só quis provar isso.

Adoro o primeiro encontro sexual com um amante. As expectativas tão excitantes. Foi assim com ele, estava “apaixonadinha” descobrindo palavra-a-palavra um caráter singular e interessante.

Que discurso envolvente. Foi gostoso mesmo sabendo que não chegaria a ser uma relação. Tinha interesses com ele, mas o primeiro foi o sexo.


A causa do meu interesse neste homem era ele me lembrar o primeiro homem que gostei e nunca tive. Tudo nele me lembrava aquele garoto de 17 anos de uns tempos antes - como diz em psicologia - eu transferi de um para outro minhas vontades. Por isso notei o garoto no professor. E do professor o pai.

O primeiro toque de prazer que o professor me deu foi com palavras. Homens inteligentes me deixam quentes e fácil como uma puta ao ver notas de cem dólares. Ele nem precisava criar situações para me envolver, mas deixei, queria ver seu “modus operandi”.

Foi uma tarde ordinária aquela do nosso único encontro. Almoçamos e conversamos coisas que nem lembro e não estava afim. Depois do café, em sua casa, recitou Roberto Piva. Não me sensibilizo com Roberto Piva. Em se tratando de poesia precedente, prefiro as escritas com útero e volúpia, cheias de dor existencial e ditas de forma menos intelectualizadas, mais intuitivas. Nada efetivamente contra Roberto, a questão é a ocasião. Melhorou quando ele terminou de ler e colocou um CD de Los Hermanos. Poesia que me toca, enfim.
Nos beijamos, ele tirou minha blusa calça sutiã e calcinha e quando dei por mim, estava me contorcendo de prazer mordendo os cantos de seu travesseiro. Ele sabia chupar como uma mulher. Puta que pariu, melhor que muitas gurias até.

Nossas mãos possuíram o corpo um do outro e entre abraçar chupar arranhar torturar ele entrou sem religiosidade. Falava enquanto trepava, falava obscenidades, de outros homens que eu poderia querer e de outras mulheres, trocava meu nome, puxava meus cabelos, e me invadia adentro voluptuosamente.

Ele brochou por conta dos antidepressivos, então conversávamos sobre coisas, bebíamos algo e ele se recuperava. Os homens não devem temer nem se envergonhar das suas brochadas e as mulheres não devem ficar melindrosinhas por isso.

Quando ele gozou, percebi uma nota em seu olhar, causou-me angustia, algo que não se encaixou no discurso, nem nos movimentos do corpo, nem em absolutamente nada da nossa brevíssima história. Mas encontro a resposta em meu "banco de dados de refencia interno". Algo que ele não me disse e não fez. Mas seus olhos disseram e eu entendi depois.

Este olhar me assustou, me fez recuar, me deu forças para dizer a ele palavras duras, atitudes tolas e ridículas, só para ele desistir de mim enquanto eu lutava para que meu cérebro vencesse meu corpo que pedia mais.

Ele é atraente como um precipício. Paralisante como uma serpente. Estava na berlinda olhando para o fundo do penhasco e ele para mim. Pronta para me jogar e morrer. Fui salva pela minha perspicácia e experiência de saber que tal homem exige muita sagacidade e equilíbrio de uma mulher. Eu sou forte para saber que homens assim não me destroem, mas ainda me arranham. Não quero este tipo de relação que é queda. Seu jogo é demasiadamente consativo e perigoso. Eu só quero prazer.

Fui criada por meu pai, ele foi o maior exemplo de como devo ficar longe de homens com olhos doces e favos de mel na boca.

Amo o que eles acrescentaram em mim, mas eles gostam do Marquês de Sade, EU SOU ANTI-JUSTINE!

12 Outubro, 2008

tribadismo ao entardecer

Sem dúvida, o entardecer é o momento dos amantes, dos infiéis e pecadores, dos gulosos e sem vergonha, dos malditos apaixonados sem compromissos, dos gemidos mais sinceros, dos gozos mais intensos, dos cuidados mais extremos e dos nem tanto. É o meu horário, minhas verdades, meus pecados, meus gemidos mais altos, meus gozos mais suados, meus risos mais safados, meus olhos mais brilhantes, minha pele mais arrepiada. E tudo isso para falar sobre ontem à tarde, minha primeira vez com a Bela. Que mulher! Que delícia! Nos conhecemos em meio aos livros, logo que a vi, senti uma necessidade extrema de saber qual era o cheiro entre seus seios. Aqueles cabelos longos me enlouqueceram, sua pele fresca e branca com pelinhos dourados me arrepiaram, sem falar do olhar, da boca, da promessa dos seios oferecidos e do segredo entre as pernas. Eu não sabia que ela gostava de transar com meninas, pois tão feminina , delicada e suave não pude perceber de imediato. Mas ela falava sobre livros, e livros me cativam e quanto mais ela falava, mais eu me envolvia. Quando olhei suas mãos, suas unhas tão curtas, seu gosto por literatura tão peculiar, eu resolvi descobrir mais, e como sou rápida para desvendar tais coisas, logo a dúvida sanada, a questão se passou para outro nível, encantá-la como ela me encantou e criar condições de nos conhecermos melhor e finalmente, o deleite do sexo. Depois de algumas semanas entre mensagens de texto por celular, e-mails, cafés, ontem à tarde, enfim, foi nossa primeira vez. Fui até sua casa, conversamos um pouco, bebemos vinho e nos beijamos. Eu estava trémula e febril de tesão. Ela usava um vestido lindo um pouco abaixo dos joelhos, Adoro mulher de vestido e descalça. Depois dos beijos, dos toques mais ousados, das atitudes mais urgentes, ela tirou minha blusa e eu comemorei o sinal verde. (risos) E fiz algo que só faço com as mulheres, pois somente as mulheres me remetem as delícias de um parque de diversões, seus cheiros de algodão doce, seus sabores de maçã do amor e suas roupas como embrulhos dos presentes de natal. Só quando dispo uma mulher sinto a empolgação da surpresa. De joelhos de frente para ela, subia seu vestido devagar enquanto eu beijando suas coxas carnudas, passava as mãos entre as pernas, ameaçava um toque mais intimo, deslizava em seus contornos, acariciava-a seguindo os caminhos de seu corpo para finalmente tirar-lhe o vestido e contemplar a beleza livre de qualquer coisa que não sua própria pele e tons. Puxei-a para a ponta do sofá, e depois de ameaças excitantes, finalmente minha boca estava onde ela tanto queria. Passamos uma tarde no sofá, no tapete, na cama e sob a água do chuveiro. O cheiro entre seus seios de bicos rosados e durinhos é algo que me fez perceber a urgência e o delírio dos viciados em heroína. A beleza de sua vulva rosadinha entregue a minha boca e dedos, os sons e as caras de prazer que ela fazia, seu olhar após o gozo...aiii Eu aprecio a luz durante o sexo, pois adoro olhar nos olhos e ver o que as palavras não podem expressar. O olhar de cada um quando goza é um espetáculo a se contemplar. Poder observar os pelos eriçar ao toque, ver a cor do rosto se transformar em tons afogueados, eu sei, nenhuma luz é mais perfeita para se apreciar tal beleza humana, que a luz do entardecer.

07 Outubro, 2008

Inquietações de uma rainha do lar.

Ainda não conto trinta anos de idade, porém hoje, diante do espelho, percebi e senti mais intensamente o descaso que dedico a mim. Percebi camadas sutis dessa armadilha que me coloquei e ainda me prendo.
Estou cansada de conviver com ele, mas ele não me deixa ir e eu não me deixo viver e descobrir a coragem que tenho. Não estou com ele, mas também não estou comigo. Como posso ir? Ele me prende com doces, com sorrisos e conforto. Ele percebe minha aflição e as ignora ao me fazer rir de outras coisas. Sua gentileza me pesa, sua bondade me causa náuseas, sua perfeição me humilha. Eu quero ir embora ele não deixa, e eu fico cada dia mais fraca. Talvez ele saiba dos meus outros amores, mas nada diz e nada questiona. Sua atitude parece ser a de perguntar o mínimo para não se defrontar com esta mulher que sou. Ele nada pergunta! Ele acredita em todas as minhas mentiras repetidas. Sua suposta perfeição e gentileza estão me sufocando.
Tem um dedo que me castiga e tenda me imputar culpa da forma mais sutil e desinteressada quando me acaricia. Mas que culpa posso assumir? Nasci assim, incapaz de amar e de estar com apenas uma pessoa, incapaz de me fixar. Sou desejosa de aventuras, de novidades, de outros sons, de outros corpos e percebo agora, diante do espelho, que desejo além de tudo isso, também os erros e as loucuras de homens e mulheres reais.
Ele não me deixa ir e já me pergunto se quero ir. Prendeu-me num castelo seguro e belo que possui tv "a cabo", internet, geladeira cheia. Ele me deixa sair quando quero, mas sou "obrigada" a voltar e quando volto no caminho vislumbro meus medos e fraqueza ao mesmo tempo em que a dor grita liberdade e coragem quando enfia as garras no estomago. Ele me prendeu com a idéia de segurança e eu barganhei minha liberdade por esta ilusão. A angustia se serve de mim, não posso corresponder a esta vida proposta, a esse uso do tempo e do ser alheio, tampouco posso permitir que me use. Não posso ser sua esposa, não posso ser a mãe de seus filhos, não posso e não quero ser rainha deste castelinho feliz com tv a cabo, internet e geladeira cheia. Quero ir embora e ele não deixa. O que sinto por mim quanto olho no espelho me enoja, pois estar aqui é compactuar em ação com este horror velado que se apresenta com olhar doce e voz suave. É um jogo que eu não dou fim. Já tentei fugir, mas ele foi atrás e mostrou a mim as conseqüências do mundo e como ele é feio, promiscuo, perigoso e como eu teria trabalho em cuidar da minha vida, que eu não conseguiria cuidar de mim... Ele me trás de volta à ele usando minhas fraquezas, usando seu carinho e sua doçura. Ele tenta me convencer disso todos os dias. Viciou-me em aconchego quando prepara e me serve o jantar, viciou-me com elogios e me deifica como a imaculada de seu santo lar. Sou o contrário disso! Ele é sempre tão nobre e correto. Eu sou relapsa, desleixada por não me importar com o castelinho. Mas que fazer se eu odeio o quarto do casal, a cama do casal, as festas do casal, a função do casal, as confraternizações obrigatórias de final de ano em que a família deve estar unida? Odeio, ODEIO a função da rainhazinha do lar, mas odeio mais ainda minha servidão voluntária.

29 Setembro, 2008

Ambigüidade.

Sobre meus afetos digo:

- que gosto do corpo feminino, pois me remete ao deleite dum parque de diversão com seus doces, seus caminhos convidativos e brinquedos delirantes, pelas emoções e sons durante o sexo, pelo riso e o olhar de desejo, pelo afeto e acolhimento quando gozam. Mas que fujo delas quando se transformam loucas.

- que gosto da força do corpo masculino, das mãos que me apertam e levantam pela bunda, da aptidão em mensurar força, fúria e desejo quando me penetram. Da racionalidade e linearidade no convívio. Mas que fujo deles quando se transformam cruéis.

Não posso estar no mundo sem os dois afetos, mas não posso conviver nem com a loucura e nem com a crueldade.
No entanto, será que sou eu a deixar as mulheres loucas e os homens cruéis? Não pude deixar de me observar neste jogo. Posso eu então, fugir deles para que não testemunhem minha crueldade e loucura? Talvez sim, pois sou tão louca e tão cruel quanto meus amantes. E isso não é retórica, é fato! Sou perigo, posto que sou fogo e em quase nada meu coração entrego.

27 Setembro, 2008

venha dançar comigo...



"Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia.
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia.
Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria.
Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia.
Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia e na tarde ficámos, unidos, ardendo na luz que morria.
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia.
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia".
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.
(A autoria do poema e da foto são desconhecidos, pois foram encontrado na internet).

26 Setembro, 2008

Mentira? Verdade! Verdade? Mentira...


Tenho consciência das minhas mentiras como quem sabe onde estão os seus brinquedos.
Para mim, mentiras dizem muito mais sobre alguém que suas supostas verdades envergonhadas.
Tenho uma relação lúdica com minhas mentiras.
Acho um tédio contar ao outros sempre a mesma história.
Quanto às mentiras que me conto, às vezes nem sei...

24 Setembro, 2008

Desejos vãos - I


Desejos Vãos
Florbela Espanca


"Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida

Meus olhos andam cegos de te ver!

Não es sequer razão do meu viver,

Pois que tu es já toda a minha vida!"


É possível, verdadeiramente possível, racionalmente possível alguém amar tanto assim? Pois, lhes digo, duvido até do amor de minha mãe. Afinal, quem mais poderia me amar tanto? O amor vem de onde e se transforma em quê? Por quais motivos dizemos que amamos alguém? Penso na questão do amor como um conjunto de sentimentos – que o próximo nos inspira- e mais se refere a mim, a toda história que me constitui que propriamente ao próximo. Então nos amamos no outro? Mas se é possível amar assim, eu confesso: minha vida não inspira os poetas, pois, andarilha que sou não tenho amado, ou talvez não tenha compreendido o que seja esta coisa chamada amor.
Questão não encerrada.

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