
"Ouse, ouse... ouse tudo!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!" Lou Salomé
Confesso: a desejo e me calo. Não dou conta desta relação, sou fraca.
Duas meninas. Juntas. Tanto contra. Externas, internas, históricas, naturais. Posso vencer um urso, mas não posso vencer aqueles demônios que foram plantados em mim por tantas gerações. Nasci morta. Penso que menos de 1% dos humanos nascem vivos. A maioria, como eu, nasce e cresce sem saber o valor da vida e do que seja uma mente livre. Eu não sei viver, talvez não nesta sociedade, nestes moldes, nestas ideias padronizadas, nestas relações confusas, nesta linguagem quebrada, nesta falta de condições de expressar o que sentimos, e de saber, principalmente: o quê são esses sentimentos? O que é ser mulher?
O amor é apenas um nome para diversas emoções unidas. Mas, tal amor existe em nós para os outros? Não estaria esse amor para os outros, condicionado a diversas outras emoções unidas que o objeto amado nos causa? Para que serve pensar tanto assim? Talvez desejo sair dos trilhos e assim, poder encontrar um sentido à vida no não-sentido. Tantos sistemas filosóficos, tantos filósofos falando ao mesmo tento na minha cabeça. Essa massa que só quer pão e circo. Essa servidão voluntária em todas as nossas misérias. E ela, salva na brisa da tarde de outono, dentro do lilás me chama e eu não vou. Não quero ir. Oscilo entre minha loucura em persistir e acreditar na vida e o desejo de correr. Oscilo entre entregar os pontos e pelejar até o fim. Mas que é esse fim? Não me permito viver aquele querer, porquê?
Questiono a possibilidade do amor ser a segunda maior mentira da humanidade – a primeira é Deus – eu questiono essa bizarra situação de descobrir quem sou, para que sou. E repito a pergunta de A. L. Thomas: “O que é uma Mulher?” Especulando sem rigor, a concepção materialista do século XVIII francês na perspectiva de Denis Diderot diz que a mulher é governada por seu útero. eu acredito que sim, no entanto, acrescento: nascemos e crescemos bombardeadas por hormônios, padrões religiosos, políticos, condições sócias, econômicas, culturais e tudo isso sob o olhar severo do masculino. É um peso responder adequadamente a todas essas coisas, não dá! simplesmente.
Qual é a voz da mulher? Qual seu desejo, sua possibilidade de: ser, criar, inovar quando ela é Mulher sem essa montanha de vozes ditadoras?
Não existe resposta universal. Está tudo em cada uma, cada ser é um universo tentando coexistir com outros universos dentro de um sistema bastante complexo e quase incompreensível. Como diz Pascal: Não é possível conhecer nem o infinitamente pequeno, nem o infinitamente grande. Acrescento que talvez também não seja possível conhecer as relações e as consequências entre todos os universos. É confuso pensar que eu sou um universo, eu para mim mesma já sou um enigma, meu corpo é desobediente, intransigente. Todo esse organismo e a forma como ele é afetado por todas as coisas externas e emocionais também é complicadíssimo definir, dentre isso que sou e que nem sei que sou, tem os outros seres, entre nós existe tanta biodiversidade que tampouco damos conta, e este planeta singular chamado por nós de Terra, pertence a um outro sistema que se liga a outros. Nem ficção científica pode imaginar o que seja. Por isso fico aqui, atormentada por muitas perguntas... não dou conta de responder uma: como posso ser feliz? Como ignorar tais questões?
Tais respostas, mesmo quando dadas por mulheres estão em tom grave, moldadas pela voz masculina. Na educação da mulher, sua força física foi substituída grosseiramente por ideias do tipo: mulher tem que ser delicada, fofinha, falar baixinho, saber se portar adequadamente em ambientes sociais, não pode se masturbar, tem que adorar crianças e querer tê-las, assim como um marido e cuidar do lar de forma exemplar. Tal é a condição feminina - como diz Kant: a mulher tem por objetivo desempenhar o papel de enfeite da casa e tornar a vida do homem mais agradável - muitas mulheres acreditam nisso. Muitas mulheres são contra outras mulheres que ousam sair fora deste rito casar-procriar-ter-casa-marido-filhos-e-novela-das-oito ou sonhar com o príncipe que lhe dará tudo isso. Existe algo além dessa sentença de morte em vida? Será que elas estão certas? Eu não sei o que digo, não hoje, não agora que sinto a falta dos cabelos dela na minha cara.