8.2.10

O Panfletário lascivo

Quando cheguei, não sabia que na escada, feito um viciado abstinente, você me esperava fumando cigarros baratos. Era tarde demais, meu bem.

Você e aquela mania de querer saber onde eu estava, com quem e fazendo o quê. Pra quê? Mas não resisto o charme desse discurso lascivo. Não com essa barba, com essa camiseta vermelha, esse jeans rasgado e esse Marx na ponta da tua língua.

O vento soprou teus cabelos desgrenhados e levou até sua loucura meu sexo melado.

Ainda tenho nos braços teus dedos possessivos.

No canto escuro do prédio me senti uma adolescente em suas primeiras experiências prensada contra o muro. Você queria detalhes do meu encontro e quanto mais eu dava, mais você me mordia, cheirava, lambia.

Aquilo foi sexo entre lobos.

7.2.10

caos metroplutânico

Lembra aquele dia na livraria? Você disse que meu olhar estava doce. Mas nem sei qual de nós flagrou com livro em mãos. Acaso quis saber quem olhava para você? Eu sou assim, baby. Já disse. Duas dúzias de mulheres. Um harém em uma. Ainda ouço a música tocada por um anônimo lá na Paulista. Música francesa arrastada, triste como sua paixão. Acho que não há tempo para filosofia. Tempo fechou para piadas prontas televisionadas com humor de cera e clichês homofôbicos. fico muito chateada quando dizem que faço poesia: não sou herege! muitomenosfaçopoesia: só palavrinhadesenhadanadamais. não quero fazer poesia! Não sigo métricas, maestros, mestres, mimesis: não sei poetar. Mas esse olhar doce não era meu. Era ela que vive em mim e assim tenho paz entre livros: foi o que flagrou você naquela tarde ardida. Você que não me sai das entranhas. Eu que te faço letra.

6.2.10

Paris cinza

ando
sem Chico
sem Clarice
sem Matisse
não gosto de doce de leite.

a rosa que joguei no seu jardim
nem tem cheiro de paixão

não olhei e feri nos espinhos
meus olhos verdes de amor

acho que dói não sentir.

31.1.10

hoje não choveu

cena do filme Los abrazoz rotos (2009) Almodóvar

Queria ser forte. Mas forte é apenas minha imaginação. Então você caminha ao meu lado, ri das coisas que vejo e das associações que faço. Dentro da minha insanidade nunca nos deixamos. Quando a lucidez me pega e você não me acompanha, penso que está logo atrás, vendo meus gestos, observando minhas expressões ou lendo essas coisas que escrevo aqui.

Eu morro de saudades. Não é de amor, é saudade de uma situação, de um contexto, de um cheiro de erva doce, de abraços longos quando acordava sem ar.

Hoje fui a Augusta. Era para eu encontrar um amigo, mas não rolou.

Entrei no café do espaço Unibanco e de cara vi meu ex-professor acompanhado, logo sai da sala e sentei lá fora. Eu até poderia cumprimentá-lo não fosse o inconveniente em seu olhar. Nunca me simpatizei com ele, mas depois que me julgou por algo que não fiz eu gostei menos ainda (nunca fui santinha - graças a Deus- mas era inocente), então fui ler jornal, mas logo descartei. A Folha deveria se envergonhar por atentado violento contra a inteligência e a integridade da população. Mas ok, sobrou o caderno Ilustrada e soube ali que a palavra Ego está de certa forma incorreta e o certo seria Eu, assim como a Vontade de Potência na tradução mais acertada seria Vontade de Poder. Virei a página certa de que não é certo afirmar nada, então a vi sentada ao redor da árvore. Vestido verde de bolinhas brancas, uma graça. Observei um tempo e ela estava sozinha, acho que esperava alguém. Tirei meus óculos e um tempinho depois ela sorriu e veio se sentar comigo.

O engraçado disso é que tudo se deu de forma tão sutil e estética, me senti num filme acompanhada da mistura de Amely Polan com bonequinha de luxo de ar blasé em uma tarde que morria luminosamente sem chuva. Mas ela me deixou entediada pelos assuntos tão superficialmente fast food e eu ando na onda slow food.

Usei toda minha arte para evitar pessoas e me desvencilhei dela. Corri para o cinema e fui assistir Abraços Partidos de Almodóvar. Comprei frutas secas e chá verde. Sentei onde quis e amei o filme. Quando sai do cinema um carrinho de pipoca na frente deu o tom interiorano, mas preferi um sorvete e voltar pra casa com você meu querido, pra deitar no seu colo e ver tv.

A rua Augusta estava cheia de possibilidades nos seus mais diversos tipos perambulando pelas calçadas, em grupos ou rindo nos bares. A lua cheia, temperatura agradabilíssima, ciclo hormonal estável me deu, por horas, sentir o mundo perfeito e as pessoas felizes.

Eu me auto engano com lucidez.

É preciso arte para não morrer pela realidade, Nietsche.

30.1.10

Pourquoi pas?

Adoro travesti, eles me encantam, são mitos parados nas esquinas com roupas a iluminar suas curvas perigosas.

Travestis míticos minotauros chapados de hormônios femininos, de cílios longos, silicones, plumas, cabelos armados e maquiagens avassaladoras.

A piscada de um travesti pressupõe uma intimidade desconcertante. Conviver com um é ter em casa ao mesmo tempo: bateria de escola de samba e trio elétrico. Axé. Bagunça nos conceitos, relógios, assessórios. O dia é noite e noite é metamorfose.

De um realismo sans vertus. Uma nota - aquela miada que deixa a garganta – não esconde de mim um ser que não sabe a mítica que tem: perdido no olhar, iludido com brilhos e euros e sotaques tantos quanto sua gana questionável por sexo e amor. Eu vejo homens apaixonados por travestis voltarem para suas esposas. Sem julgamentos, vejo poesia, humanidade, e.

Penso em travesti. Como seria arrancar-lhe o salto, deixar o batom, arrancar roupas e sentir em mim um homem enquanto meus olhos acreditam amar uma mulher?

29.1.10

Ouro de tolo é tijolo

Sou muito curiosa (por tanta curiosidade Santo Agostinho diria que estou em pecado) mas quero mesmo pecar! que a curiosidade me leve para fora da caverna onde tudo parece ser mais claro.

Hoje resolvi acompanhar um grupo de pessoas na saída do trabalho. Não os conhecia, mas me apresentei e fiquei na companhia deles que discutiam formas de comprar a casa própria. Ouvi por uma hora e meia àqueles trabalhadores esperançosos, crentes que Deus e o trabalho proporcionará tudo que sonham. Depois, mais meia hora sozinha no metrô repensando aquelas vozes cheias de expectativas e lamentei nossas misérias.
Somos enganados pela máfia: governo, banco, empresas imobiliárias, construtoras e mídia que corrobora e finaliza essa ideologia com as bênçãos das religiões: e eis implantado em nós o discurso da casa própria! percebem o que isso tudo esconde?
Claro que todos precisam de um refúgio do tempo e do mundo.

Mas a questão é como se aproveitam disso.

Será que esse esquema é mais uma forma de iludir o trabalhador? Ou seja, reforçam essa necessidade e alimentam esse sonho como fundamental e dificultam ao máximo para ocupar a vida desse infeliz e prendê-lo no esquema do trabalho (trinta anos pra pagar a casa); consequentemente não podem perder o trabalho. Isso significa se sujeita à, entre outras coisas.

Sem tempo e disposição esse cidadão cansado e precisando economizar (as parcelas são altas), não procuram instrução, (aliás quando estudam é apenas para ter mão de obra especializada para o trabalho) portanto, - e não tão simplista assim, óbvio -, essa massa não sublevará. No final da feira, tudo é a arte de ocupar, silenciar e lucrar. Casa própria existe? Carro próprio existe? Deixa de pagar os impostos ou as parcelas pra você ver de quem é.
________________
Ouro de Tolo
Raul Seixas
Composição: Raul Seixas

...
Ah!Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...
Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...

Mais-valia uma fogueira as palavras eficiência, rendimento, proatividade entre outros clichês patronais

Tentei estudar hoje, mas cansei de fatos-datados-conceituados. Pensadores mortos não podem ouvir minha voz. E os de agora não falam comigo. Fico assim: quê fazer?
Algumas amigas no exterior vivendo aventuras (Arriscando). Outras tendo filhos, casando, descasando (Arriscando). Amigos fazendo coisas legais do tipo cinema em Cuba, lançando livros, criando esculturas, fotografando, estudando, gerenciando empresas (Arriscando). Eu?
Estou empregada, graças a Deus, trabalho de segunda-feira a sexta-feira das 08:00 às 18:oo, graças a Deus, engordo meu FGTS, graças a Deus, amém meu Pai. Não! Isso não é uma prisão meu querido, você não sabe? Ter emprego é ter dignidade. Adoro sair cedinho de casa, depois voltar. Os finais de semana são mais especiais.
Você heim, com essas ideias subversivas, trabalhos alternativos, nunca se fixa em nada, viaja pelo mundo. Quando vai comprar sua casa própria? heim?

Pedro, amigo meu, deita aqui e me abraça. São tão raros meus amigos de infância. Não, não sinto tanto medo, é só medinho. Acho até que é pior. É não vontade de tudo. Ah meu querido, francamente, é tão insensato o convívio social, as relações de trabalho, a impossibilidade do amor. Nunca fui dada a modismos você bem sabe, nunca me impressionei nem com fortunas ou misérias, não vejo glamour em quase nada. Devo, preciso achar algumas ilusões. Crenças para me adequar e suportar minhas máscaras. Preciso comprar máscaras: é isso! Ah! você me indica a loja da Mulher-seca-de-graça? (risos). Cansei dessa mascarasinha que uso, ela não convence mais nem a mim.
Você entende, pessoas não gostam de quem sai do ritmo das danças estereotipadas. Não gostam de quem não usa clichês durante encontros sociais e tampouco de quem diz que Papai do Céu não existe. Elas não querem por perto ninguém para lembrá-las que já passaram da hora de descer do palco do besteirol humano e assumir que a vida é bastante simples ou talvez, simplesmente impossível?
Você ri? VOCÊ RI?
Eu também: de Marx, de Kant, de Santo Agostinho...

28.1.10

Anticristo - do Lars Von Trier:



A Natureza é a Igreja de Satã

Por isso meu óvulo está doido pra pegar seu espermatozóide de olhos verdes.

Pariria em águas dulcíssimas pra lavar essa criança em correnteza. Depois da bebedeira em seios doloridos; enrolaria numa folha de bananeira e colocaria pra dormir entre raízes da amoreira. Árvore velha acostumada a ver crianças rirem de suas línguas roxas.
mas só se você concordar com nome do bebê.

insustentável leveza do não tempo



Santa Fé: em frente a escola me abracei cheirando a merenda.


tremi como se vela acessa no tempo quanto me vi.


soprei imaginação, então eu sorrio banguela e digo:


um dia tudo será cobertor fofinho com leite quente?


Respondi meu sorriso:


não deixamos de apreciar sabores. Acho que isso é ficar bem.

__________________

Não querer nada de diferente do que é, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade. Não só suportar o que é necessário, mas amá-lo. Nietzsche.

27.1.10

"Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo" - J.P.SARTRE



você bem queria eu deixar o lugar todinho seu,
mas óh, tô encardida nessas paredes, viu?
não te deixo sem saber que pouco vale,
qualquer dessas ideias direitinhas.

20.1.10

não barganho liberdade por segurança

gosto de gente perambuleia mundo
estou pedra na janela onde a vida desfila
há anos suspiro, depois sento no sofá pra ver tv

da janela vejo aviões a levar perambuleios
vibra meu coração uma sede nem sei o que tem lá
há anos

faz um dia, poucos minutos que resolvi ser gente
perambular sabores, cheiros e sons que não existem
na minha memória nunca mais, NUNCA MAIS mais esquecer de viver

Moral da história: nenhuma

Tati,
Teus olhinhos vesgos me renderam à aos desejos nossos. Queria mais com você. Mas aquela chuva afogou vontades. Difícil ter que trabalhar e deixar sua cama, seu cheiro de calda de chocolate.

Dia passou, no metrô lotado tenho na cara uma alegria que contrasta o mau humor dos outros. Sei dos motivos do mau humor deles: depois de mais um dia de trabalho explorado, de tanta chuva e falta de perspectiva; volam amargos, mas isso não deveria ser normal. Você não acha?
Se pudesse, contaria a eles nossas tempestades de prazeres. Mas segredo é bom no pé do ouvido. Chega mais perto.

Olho na cara dessas pessoas do metrô há tempos. Parece que estão mais cansadas. Será que estão prestes a parar a autossabotagem e assumir um pouco mais de política e de luta em suas vidas? Vão parar de correr atrás apenas do pão pra desejar a padaria?

Será - Tati que dorme tão bela -, que agora esse povo aprende a brigar e parar com tanta servidão voluntária? Você sabia que tirando mais ou menos duas horas de trabalho diário, o resto é lucro para o dono da empresa? Não é justo, deixar sua companhia adorável, pra gerar lucros onde um só terá o direito de gozar tanta perspectiva de vida.

Mas o tempo de servidão piora e a crença que Deus ajuda mutila a capacidade de sublevação, e ombros pesados só querem chegar em casa e ver tv.
Acho que entendo porque velhos têm os cantos da boca aborrecidos. Eles não se entregaram ao desfrute dos teus seios, nem da sua pele jambosa ou dos teus cabelos encaracolados. Simplesmente viveram vidas aborrecidas, exploradas sem entender de onde vem o mal estar.

Hoje os cultos lotados de trabalhadores não rezam mais, apenas implorar por saúde e prosperidade e não a Deus, mas ao Jesus executivo personificado nos pastores prósperos.
Antes beijam as mãos daqueles que lhes roubaram coragem pra sublevar, pra adquirir conhecimento e discernir o roubo vil registrado na CLT. Hoje essas igrejas prometem que Jesus executivo está ao seu lado pela bagatela dizimal. Ou seja – fresca pele que me chama -, a servidão tem novas caras e manhas e eu tenho calda de chocolate.

19.1.10

fecha a porta e joga fora ilusões

tijolo-vivido, tijolo-habituado, tijolo-óbvio
não consigo ver onde cê tá.
e fica assim: você dum lado eu d'outro
um dia quis arrancar o cimento mas sei lá,
vai saber o que acontece se demolir?
Tem gente que deixa nossa vida melhor, se do outro lado fica.


Disse a ele - é verdadeiro que tudo passa e terminar uma relação não significa que não deu certo: deu certo, sim! só que tudo se transformou. Nessa minha transformação, você não está comigo. É bastante simples, você está na minha história, todos saberão quem é.
Quero ouvir músicas novas, tremer o primeiro beijo tão cheio de sabores. Não é possível alguém se condenar à rotina insonssa. Não tenho medo de novas cores, de pessoas e outros temperos. Adoro comida bahiana, chinesa, mineira e argentina. Não tenho casa própria, não sei dirigir que é pra não perder de vista os lados da estrada.
Quando as pessoas não se dão conta que mudou e insistem no bolo que não cresce, não cheira bem, não apetece, da indigestão. Comer bolo solado, vestir todo domingo a mesma roupa para ouvir o mesmo sermão é matar em vida os encantos descobrir.
Eu não deixei que matassem meus olhos de criança.
Não fica assim meu bem, não chore! – e continuei, mudando de lado o telefone – tampouco é verdade que te odeio. Não existe isso de odiar, não. Só não gosto de sermões repetidos. Chega, vamos desligar! preciso atender outra ligação.

18.1.10

OS MAIS BEM ESCRITOS BLOGS!!!


Agradeço a delicadeza do querido amigo André Ferrer do blogue
OS MAIS BEM ESCRITOS BLOGS!!!, pela gentileza em me agraciar como um dos blogues mais bem escritos.

Obrigada André.


Seu conto em AVASSALADORAS ficou ótimo.
Ale Safra

12.1.10

Emancipação: 60%

_ Dorme comigo...
_ Ainda medo dos pesadelos?
_ Nenhum

Ele me abraçou. Beijou minha testa e saiu. Dessa vez não chorei. Parabenizei-me por não implorar
Perguntei se era amor o que eu sentia e sussurrei dentro do ouvido daquele outro eu no espelho: não! é hábito. Lembra do Hume?

Então, fiz tudo diferente.
Panta Rei*

11.1.10

niilismo

Essa menina bateu no portão querendo graça
balançando um pedaço levantado de saia
pele riscada de nomes santos
cheiro de capim-gordura

sorriso dengoso
olhar de catar bala
cabelo enrolado de sonhos adormecidos

boca de fala quente
você é verdade nua e sem fé

mas sei lá...
ando sentada na neve e
sem calcinha

9.1.10

A Cova da leoa está vazia

Mulheres iraquianas são obrigadas assistir a execução de seus filhos humilhados.
"Tuaregs" é como se denominam os soldados iraquianos Significa leões.

Mulheres palestinas lamentam a cria assassinada,
E mulheres judias? Comemoram alguma coisa?


De tantos crimes padecem mulheres no mundo. inclusive da omissão e o silêncio de tantos;
inclusive da educação às crenças que as iludem
e elas repassam para seus filhos que cometem crimes contra a humanidade, e para suas filhas que passarão para seus netos.


E isso não depende só de religião, é política e é lucro vermelhosangue.

Participamos de todos os crime contra a humanidade: direta ou indiretamente toda mãe está suja de sangue.

8.1.10

quem contou foi o papel














Escritor e Palavra trepam:
filho é o leitor.

7.1.10

EROS

latente
late-entre
morde
morre
frEUd

quando deixamos de olhar na mesma direção?
qual esquina nos perdemos?
C-A-D-E V-O-C-Ê ?

e vozes amantes perdidas tantas quantas
cantos da carne minha
padecem da tua
sigo,
engano em outros
meu corpo
e com prazer

6.1.10

coisa de menina má








tenho um homem que sua minha pele e enfia orgulhoso
satisfaz manhas, caprichos da minha vaidade
e zela em mim uma fragilidade
que só existe no seu delírio de macho.

5.1.10

Uma noite de verão classe média

Não o reconheci quando pegou meu braço no corredor das verduras no mercado em Santa Fé. Olhou para mim com intimidade ensolarada e disse:
_ Anna? Meu Deus é você, Anna. Quantas saudades, menina. – E me abraçou sem dar chance de dizer que talvez eu fosse aquela Anna só por fora.
Mas seu abraço me fez sentir pertencente a ele, àquela cidade e, pela primeira vez em tempos, um cheiro bom de amigo e de casa deu festa na minha mente. Então parei com reflexões existencialistas e me entreguei todinha àquele abraço guardado, melado de suor.
Contamos nossas histórias, rimos com lembranças e num breve espaço de tempo nos apaixonamos. Bebemos tequila ao ver fotos da sua viagem ao México. Fumamos legítimo charuto cubano durante minha falação apaixonada sobre vida e obra de Pedro Juan Gutiérrez, nadamos pelados e brincamos de pega-pega dentro da água em noite de sol.
Lembrei de como nos encaixávamos bem e o quanto gozar tudo com ele é alegre.
Assim reconheci aquela Anna que ele primeiro reencontrou em mim:
Anna-Leve
Anna-Nua
Anna: li-te-ra-TU-rA.
_________________

-foto de Henri Cartier-Bresson

3.1.10

"Que a graça divina ajude a menina do balanço"



Todo ano ao caminhar de madrugada pelas ruas frescas faço a mesma pergunta: por quê me submeto à tortura de voltar a Santa Fé? Eu não sei a resposta ainda, mas gosto da cidade. É pequena, bonita, larga, cheirosa e bastante verde. Não gosto dos parentes, desses não mesmo. Conviver temporariamente com eles é bizarro. Coisas do tipo ter sapos pulando no meu estômago causando azias monstras e sensação de fadiga constante.

Numa pracinha cheia de encantos uma garota no balanço ignorava os predadores da noite alta.
Chamou-me atenção seus cabelos presos em dois rabos-de-cavalo caídos displicentes atrás das orelhas sobre um pescoço longo e branquinho.
Será que Adelle, minha gêmea morta ainda criança, também iria gostar de meninas? Com essa pergunta minha cabeça rodava enquanto eu ocupava o balanço ao lado.

_ Você não tem medo de ficar nessa praça com o cemitério logo ali atrás? – perguntei sondando seu rosto de no máximo dezoito anos.
_ Você é algum tipo de morta-viva? – retrucou sorrindo e duas covinhas imediatamente me simpatizaram.
Eu pensei na pergunta e disse que talvez eu fosse sim, um tipo vulgar de morta-viva. Ela quis saber por qual motivo e expliquei superficialmente mesclando da forma mais tosca e ridícula filosofia, psicologia, sociologia e ficção literária.

Ela não sorriu. tampouco eu.
Meu olhar correu o muro do cemitério, minha imaginação o pulou e pronto, Adelle ali, tão perto sob a cova que eu ainda sinto como um grito abafado. Depois de tantos anos, seus ossos ainda eram de criança e isso para mim significa que nem em ossos éramos mais gêmeas. Suspiro fundo. A menina no balanço me trás a realidade ao me pergunta se sou filha do diabo. Digo que infelizmente não somos livres nem para escolhermos nossos pais. Nesse momento ela dispara a falar sobre o pai dela. Coisas tristes que gostaria de não saber e não queria mais ouvir.

Balanço entre duas possibilidades.
Primeiro: posso usar tudo isso e engendrar a garota para umas horas de sexo.
Segundo: penso sobre virtudes. Temas cristãos do tipo compaixão. Se me compadecesse poderia até tentar fazer algo por ela, mas fazer nada contra ela também já seria uma boa não-ação? Ajudá-la seria efetivamente trabalhoso, chato e eu não me ocupo da vida alheia, nem de virtudes cristãs. A garota teria que encontrar sozinha uma alternativa. E isso será bom para ela. Lembrei de outra garota, lá da faculdade, na mira de um certo doutor que deseja executar um crime perfeito. Qual dos dois será mais forte?

Então um questionamento recorrente e irritante me assalta: se fosse Adelle?
_ Qual seu nome? – pergunto baixinho sem olhar para ela.
_ Maria das Graças. O seu qual é? – a ela respondo sem perguntar mais nada.

Olho a lua cheia caindo pela madrugada e resolvo que não farei nenhuma das duas coisas. Pessoas carentes são perigosas demais.
Levanto-me, desejo a ela boa sorte e continuo minha caminhada.
Enquanto deixo ao acaso outras possibilidades converso com minha gêmea sobre como sentimentos de virtude são falsos, traiçoeiros tanto para quem pratica, quanto a quem recebe e como aqueles que as perseguem nos bancos das igrejas são mentiros dissimulados e verdadeiramente cultivadores da ignorância.

17.12.09

bolo de fubá com creme na virilha



desceu garganta bolo de fubá com creme de queijo e café
adoro cozinha pequena, mesa com cadeiras juntinhas
assim pude sentir o quanto a prima me queria
a tia nem imaginava o que a filha fazia com os pés entre


um bom leitor veria que o que eu engolia era vontade com delírio
só sobrou lamber os lábios e isso de tanto lamber queimou a tarde inteira
a tia de tanto amar novelas se desliga de si e a casa fica vazia
vai saber em que vale balançava tanta saudade de vida


jeito deprimido esse de viver pela trama da tv
de tentar esvaziar-se de si
gosto que não me apetece, imagens que não me enredam
gosto mesmo é da rua, da prima nua, da carne que sua


tenho sede
vivo com sede
gosto da sede
ter sede e não beber e ver novela
ter sede e beber é
lamber
E-L-A

9.12.09

terra que não se pisa

pra onde você vai?

pra onde você vai!

pra onde ...

... vai

você?

amanhã!?

vou junto. também quero pular

2.12.09

Sobre faróis apagados



Acordei brochada

Nem o calor conseguiu me empurrar pra fora e só não fiz xixi na cama porque não sei

Chamo seu nome e o vazio que ouço queima minha língua

Mensagens no celular sinalizam tempo em tempo o insuportável

Som da campainha. Batida na porta. Alguém me chama no corredor

Arrasto meu corpo de 393kg. Era preciso evitar mais intrusos. Pergunto áspera quem é. Minha tia querendo favor. Não abro a porta. Não posso fazer favores

No banheiro, ligo o chuveiro, sento no chão, nunca antes havia feito xixi assim
Não sinto vontade de chorar. O telefone toca, toca, toca.
Na minha cabeça senta um mastodonte

Meu corpo triplicar de peso e o cérebro gelatina num pesadelo lento e dulcíssimo.Volto pra cama sem me secar. Abro a janela. Tento. E tudo dói demais.

Preciso de café. Três goles quentes num dia quente. Suor. Assim talvez eu derreta mais rápido

Náusea

Mensagens de cadê você? Da operadora. Da tia dizendo que sou louca.

Desligo o telefone. Ligo o computador e já é quase fim do dia

As palavras arranham minhas paredes internas. Querem sair para quê? O que querem dizer? Mas elas vão saindo feito diarréia e me sinto melhor.

Esvazio-me de mim.


_____________________
foto de Janine Niépce

29.11.09

haishá - "a mulher."

haishá, deixa de ser ezer kenegdó*
leia a pedagogia do Marquês, queime-se no fogo
depois cuspa nesse fogo e apague sua fé

ah haishá, preocupa-me tanto sua servidão voluntária
e você não se importa com minhas queixas existênciais
fica nessa conversinhaclichê de mãe religiosa

que eu faço? vou à Paris em breve
não quero saber de você
queria te esquecer, mas haishás pelo mundo não vão permitir

que triste viver para o marido e os filhos, haishá
triste não saber o que você poderia ser
se tudo que é

é um não ser

triste é você querer me modelar para ser haishá
mas a filosofia libertina
salvou-me
_____________

*“E disse o Eterno; far-lhe-ei uma contra-ajudante (EZER KENEGDÓ)" - Gênesis
pois “viu Deus que não era bom para o homem estar só”.

(no entanto para muitas mulheres ao longo da história seria bem melhor ela estar só)

Amoreira em greve

Amoreira em greve e eu querendo tingir minha língua de roxo
Manga espada, roubada! por um caminhão e cinco homens. Contei, cinco
Homens com varas longas roubaram a mangueira todinha, sobrou nada
Vovó levou uns trocos pro almoço dos quatorze filhos

Sempre fugi do convívio social. Nasci desejando silêncio na maternidade
Preferindo sempre as árvores, os gatos, os livros
e páginas em branco expostas a toda sorte de tinta, cor e formas
Olhava com respeito embora ignorasse que respeito havia em papel alvinho
Hoje sei: era licença pra sair do mundo

No pomar já é novembro e as laranjeiras estão em flores
Respiro bem fundo debaixo dela. Apanho levianamente botõezinhos e esfrego em mim
Jeito esse desejar possuir o perfume dela é roubo
Laranjeira em flores é árvore natalina

Minha prima sobre galho forte, vestido branco lascivo: desce
Esfreguei nela outras florzinhas
assim pude possuir toda beleza existente no pomar
quando dávamos conta do mundo, então terra, folhas secas, pequenos galhos estavam em nós
e assim o pomar nos possuía.

28.11.09

masturbação

Helmut Newton

tempo de amar

a começar por si mesmo


QUERO SER SACI PERERÊ


menina da favela quer ser loira, esguia, top
*
*
menina do condomínio quer ser top, esguia, loira
*
*
essas meninas
*
*
que meninas são essas?
*
*
repetição de um modelo
*
foto de Helmut Newton

O espanto do corpo nu

Esconder os sexos: duro e molhado
Cobrir o corpo sempre o desejo de cobrir um corpo
E se mostrar? atentado de um pudor dementedoente
De onde vem essa vergonha do corpo? de esconder o corpo?
Um seio é um seio e um pau é um pau e uma jóia indiscreta se cobre em pêlos
É tudo pele em vários tons. Sexo, língua, suor, encaixes, sons e temores da imaginação?
vergonha do gozo: proibir gera loucuras
normas, regras, moral
desmistificar o cuerpo nu
desmistificar o pau no cu
para salvar as árvores

tudo está
num outro nível
do qual despir
é a chave para penetrar
Helmut Newton, fotografo apelidado de Marquês de Sade da câmera 35 mm

14.11.09

Cortázar e Minha-imaginação-abre-qualquer-segredo-no-mundo



Cortázar me chamou da chuva. Fiz-me desentendida, estava insuportavelmente limpinha.

Ele dizia deitado no sofá enquanto eu coavacafé: você precisa sair dessa zona de conforto que te fode a mente sem consentimento.

Desse dia em diante me sujo com toda sorte de gente pelas esquinas do mundo. Demoli a casa dos meus pais, matei a TV a pauladas, rasguei meu Registro Geral, nem sei qual minha nacionalidade e se me perguntam: natural de onde? respondo: Heráclito. Eu gosto da chuva.

Vivo de reinventar: sapatos, livros, camas, hábitos...

Minha imaginação abre qualquer caixa de segredo.

trago na carteira um bilhete dele que diz assim:

-, ninguém enriquece com a literatura se ao mesmo tempo não for capaz de chupar um pêssego aproveitando a mão livre para levá-lo a boca, se não fizer amor entre duas páginas, se não se debruçar na janela para saber que durante o último mês cinqüenta crianças morreram queimadas na região se Saigon, e que em Biafra os nigerianos ajudados pelo nobilíssimo Reino Unido degolaram todos os pacientes de um hospital; será preciso repetir, professor Papalino Zeta, que a literatura não é um terreno privilegiado no sentido escapista que tanto convém e adorna? Biafra e o erotismo, a chuva de napalm e os Jogos Venezianos de Lutoslawski: a poesia continua sendo a melhor possibilidade humana de realizar um encontro que ninguém descreveu melhor que Lautréamont e que pode fazer do homem o laboratório central de onde algum dia sairá o definitivamente humano, a menos que antes disso todos nós tenhamos ido para a casa do caralho.(NOTÍCIAS DO MÊS DE MAIO)

4.11.09

AS COISAS



_ é assim e deixamos as coisas como estão?
_ as coisas só precisam de um começo.
_ mas no meio é quando sonhamos todas as coisas.
_ e o fim é quando percebemos como somos tolos.

30.10.09

caminhos

ferro passa
hematomas passam
pulo muro passo

não olho atrás do tapaolho

não é onde vou chegar
mas no meio
como ser águia?

foto de HENRI CARTIER-BRESSON

27.10.09

deixa eu dormir balão amarelo


deixa eu dormir balão amarelo
não vê que amanhã acordo às 05:00?
- pra bater o cartão às 08:00?
- da reunião às 11:00?
- do almoço com o cliente às 13:30?
- o relatório às 16 para apresentação às 17?
Num sabe que preciso bater o cartão às 18:00?

Depois exausta voltar pra casa: com-trânsi-tô.
Meu lar não mora mais no sonho.
Saquearam-me quando diziam me dar dignidade.

- Roubaram das crianças o parque, o sorvete, o pai, a mãe
- Cadê meu carinho ao Zé, ao João, a Zefa pra ensinar a lição?
- No copo vazio nem vejo quando a sinta marca neles minha dor.

Você não sabe balão amarelo, mas ser desempregada é crime.
Ser assalariada é outro. Roubam o tempo depois de provar que você não pode fazer nada com ele.
Todo dia você ganha pra aposentadoria:

mas velha pra curar tanto vazio toma remédio caro e sobra nadinha de nada.

Roubam-me de mim, eu não me acho
deixa eu dormir balão amarelo,
que amanhã pego às 08:00 e largo às 18:00
nas segundas, nas terças, nas quartas, nas quintas, nas sextas

dois dias pra dormir, pra lavar, passar, pra fingir que tudo está bem, que um dia será melhor.

balão amarelo, não dá mais para acreditar que:
- quem cedo madruga Deus ajuda
- o trabalho dignifica o homem
- todo trabalho honesto é digno
- as leis são iguais para todos

25.10.09

Para J. P. - 37 - moreno

foto de Imogen Cunningham



na minha boca;
você não cospe mais.

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23.10.09

Para L. 32 - ruiva

Foto de Imogen Cunningham

fita em fita, lacinho em lacinho me amarro na dor da sua ausência: você me rasga.


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Para C. L, 26 - loira

Foto de Imogen Cunningham




o sol acorda pra deitar na sua pele.



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21.10.09

MENINAS NÃO DIZEM PALAVRÃO


Do dia que fugi da cidade do diabo, Adelle me chama do funda da sua cova.
Minha gêmea vive nos meus olhos e em cada suor dos meus pesadelos recorrentes.

Na primeira noite de sua morte, ouvi mamãe chorar e perguntar a Deus em hebraico se Adelle estava com frio. Fazia um frio absoluto e silencioso.
No instante desse choro duas coisas aconteceram comigo: nunca mais falei hebraico, percebi Adelle dentro da cova.

Passei a chamar Adelle em todas as brincadeiras, mas não a chamei quando fugi. Eu tentei me esquecer de todos. Cada pessoa que conheci não conta à mesma história sobre mim. Só tenho unidade com Adelle. É dela minha fidelidade e lealdade.

Uniforme da pré-escola. Primeiro o som dos sapatinhos. Depois Adelle, olhos de lago.
A tia, na pré escola dizia: menina não faz barulho quando anda, se não é velha.- Riamos e faziamos mais barulho.

Cabelos lisos num dourado escuro. Olhos grandes, dois dentinhos da frente faltando. Fomos – eu e Adelle - muito felizes na pré-escola.

Ela não parecia brava como das outras vezes. Eu disse oi. Ela ficou sentada sobre o criado-mudo jogando um pé contra o outro fazendo barulho, olhando para mim sem mais.

Quando éramos menores brincávamos no parque perto de casa. Um dia numa gangorra, bati mais forte o pé no chão e subi, ela se desequilibrou. Bateu a cabeça no arco e seu sangue escorreu pelo nariz e boca. Fiquei tão impressionada que senti sua dor. Meu pai brigou comigo. Minha mãe a pegou no colo e correu para o hospital. Voltaram com pontos e pote de sorvete. Eu fui dormir mais cedo sem direito a sobremesa.

Meu quarto: bolha de sabão com ursinhos e livros da Ruth Rocha mais lápis de cor. Somente ali eu existia. Lá fora tudo era tensão onde rir deve ser bem baixinho. Meninas não riem alto, meninas não gritam, meninas não sentam assim, meninas fazem gestos curtos. Depois ficou pior: se fosse Adelle não seria assim. Cansei de ouvir isso. Cansei de tantas coisas, cansei de escrever esse texto aqui, cansei do meu tcc, cansei de ir trabalhar, cansei de perguntas, cansei por hoje de meninos e meninas.

Essa noite: Alone. Sonho gelado me abraça pelas costas no escuro.

No quarto fui brincar com minha bexiga amarela de estimação. Fiz nela uma bocarra pra que risse bem alto. A guardava dentro do armário. Era um segredo meu e da minha mãe. Eu disse à bexiga que Adelle se machucou na gangorra. Ela sorriu.

Mamãe explicou o ciclo da vida com a bexiga: “tudo nasce, vive, fica velhinho e morre. Mas não se preocupe com a morte, é um momento onde deixamos de ser o que somos, para sermos outras coisas”. Eu a ouvia e tentava imaginar o que eu poderia ser depois que morresse. Queria ser um gato selvagem, depois sereia pra saber o que tinha no fundo mais fundo do fundo do mar. Também quis ser um dinossauro, eu acho. Mas depois que Adelle morreu só quis ser igual ao que ela fosse, para sermos gêmeas novamente.

Naquela época não sabia exatamente o que mamãe dizia, mas compreendi quando ela costurou uma boneca e dentro dela, na altura do coração colocou os restos da bexiga amarela e me deu.

Ela nada pode fazer com os restos de Adelle. Ficava lendo um livro velho e tinha muitas mulheres ao seu redor. Eu queria dizer para ela que Adelle era outra coisa, mas as mulheres velhas não me deixavam chegar perto. Fiquei meses na casa da minha avó paterna. Depois me quiseram de volta.

Aquelas velhas secas falando coisas para minha mãe em hebráico, tão brancas e de olhos claros pareciam mais fantasmas ressecados. Eu sentia medo daquelas mãos secas, então corria para o galho da árvore mais alta e fiquei por lá.
Desce, meninas não sobem em árvores.
Eu gritava para irem embora.
Meninas não gritam e não se comportam como meninos. Eu mostrava a língua, cuspia.
Depois de muitas ameaças, um moço da fazenda me desceu à força.
Eu gritava, acho que cuspi nele, acho que ataquei seus olhos, acho que dormi dias até me perder do tempo.

Meninas devem primar pelo silêncio. Dizia meu avô materno. Eu cantava as músicas da Xuxa o mais alto e desafinado que podia.

Queriam me matar de pouco em pouco: que peso não deixar ninguém esquecer Adelle.

Nesse reencontro na madrugada, enquanto essas imagens corriam dentro de mim, olhei para ela sentada na minha cama e dormi sem pavor.

A psicologia nunca pode me ajudar, já a filosofia ridicularizou os monstros e humanizou fantasmas.
Não gosto quando Adelle vem me ver. Mas já não sinto medo.
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15.10.09

Matisse - Odalisque with Red Culottes


O vermelho do Matisse me comeu
Lá na Pinacoteca

10.10.09

Paixão do grego páthos - patologia - doença

OSTROWER, Fayga

O amor que ele diz sentir por mim é uma mentira. Mentira pra ele, não pra mim. Eu acabei o jogo. Não desisti, nem abandonei. Uma hora tudo acaba. Acabou, eu parti.
Para mim é simples, pra ele é tudo uma tentativa de me forçar a jogar, de me forçar a voltar.
Mas não gosto de me despedaçar. Esse é o intuito desses joguinhos infantis.

Não quero mais jogar minhas pernas ao redor do seu corpo quentinho.

Toda volta tem um preço. Veja bem, quando nos afastamos da relação e depois voltamos pra ela, voltamos pra ceder. Deixar de ser um pouquinho quem somos para agradar quem queremos por perto. Tentamos. O outro tenta. Mas depois de um curtíssimo período tudo volta a ser como antes e simplesmente por que não sustentamos bancar o que não somos.
O cruel disso é que muitas pessoas embarcam nessas relações de tentar mudar o outro. Que peleja mais inútil e descabida.
Como entender tais frases: Eu amo fulano, mas não gosto do jeito dele. Ele tem que mudar pra gente ficar junto; o gênio dela é confuso, ela tem que mudar pra ficar comigo. – O que a pessoa quer com esse outro que não lhe agrada?
Foi assim, ele disse: Te amo, muito, tanto que nem sabia ser possível amar assim, mas esse seu jeito de gostar de ficar e sair sozinha, falar coisas estranhas, essas ideias moderninhas de não gostar das coisas normais, esse seu temperamento que uma hora é uma, depois outra me incomoda, me constrange.
Eu ouço o discurso tentando compreender a intenção daquele ser que diz me amar, mas não gosta de quem sou (de quem ele gosta?) – ele não tem obrigação de compreender quem sou, mas daí a odiar e querer que eu seja outra para mim é bastante sem lógica. Mas a mente passional não é racional. Paixão do grego páthos - patologia - doença. Mente doente, paixão é doença inflamatória que degenera as ideias, a razão.
(doença social aceitável, em excesso torna-se perigoso. Melhor eu encontrar um lugar seguro para morar onde sua mente pacional -patológica ignore o endereço. Até que ele compreenda que não tem esperança e assim, cure-se).

Pergunto-me quais são seus mimos frustrados; o que ele projeta em mim; qual é a fonte da esperança que o nutri na crença de que vou voltar?
Mas confesso: às vezes a saudade dói que nem varada de marmelo. E quando busco saber do que tenho saudades percebo: ilusão. Como é doce e fácil viver na ilusão. Ter alguém cuidando de prover sua vida. Percebi que é fácil deixar levar-se neste castelinho-armadilha. È uma ilusão que alimenta outra, quando desmorona vê-se o rombo vazio e tedioso. É fácil ser esposa-mãe e dona de casa; sabemos desempenhar essa função mesmo sob as mais diversas condições a milénios. Porém, emancipar-se das ilusões um caminho desconhecido que nós mulheres vislumbramos a possibilidade agora. São poucas a nos dar notícias desse caminhar para o ser Mulher.

31.8.09

"La única iglesia que ilumina, es la que arde"



Toda menina tem um prima devassa
a minha, sabia manter o vestido limpo na missa de domingo.
Papai mandava me comportar igual a ela.
obedeci.




2.8.09

APARTAMENTO 22. ELE NÃO ESTÁ LÁ PARA DIZER QUE TUDO FICARÁ BEM


Chegando no prédio onde moro, me deparei com dois carros de resgate estacionados, abertos: sorrisos estuprados.
Ao me aproximar do grupo de homens fardados ouvi trechos soltos, algo sobre quem levaria o corpo. Passei e eles pararam de falar, nada me disseram, só olharam, eu não olhei. Será que sentiam o cheiro de cigarros, álcool e sexo em mim? Assim que a ficha caiu de que alguém morreu, curei um resto de bebedeira que sustentava melancolicamente.
Subi as escadas, tentava manter o respeito em saltos altos. Uma senhora amparada por um homem de terno chorava. Quem usa terno àquela hora da madrugada após uma notícia de falecimento? Olhei para ela e nada pude dizer, seu olhar me repelia. Na recepção, o espelho me mostrou muito branca, talvez eu representasse a morte que veio buscar seu afeto. Quem sabe qual motivo para aquele olhar de asco? Será que me julgava com critérios religiosos de extrema direita?
Vi no espelho meus olhos borrados pelo suor da dança acompanhada. Vestido preto desalinhado combinando com meus cabelos. Passei as mãos em ambos procurando me recompor enquanto esperava o elevador e ignorava aquele olhar.
O elevador abriu e homens habituados traziam na maca o corpo de uma velhinha. Não esconderam a morte, nem em lençóis brancos ou saco preto. Ao lado, o companheiro de vida segurava suas mãos. Será que ainda está quente? pensei. Olhei para ela. Seu rosto não estava borrado. Seus cabelos brancos, curtos e encaracolados não estavam desalinhados. Sua expressão era de alívio, e não de tédio ou dor.
“Ela morreu enquanto dormia”, repetia o marido em ladainha. Velhinhos acordam tão cedo para quê? Senti uma grande inveja daquela morta, era o tipo de morte que desejava. Será que a morte lhe interrompeu algum sonho noturno? O dia começava a clarear. Fico deprimida se durmo com dia claro, no entanto nada é mais claro que a morte.
Eu acabara de chegar de uma festa com música alta, ambiente enfumaçado pelo cigarro, pessoas desejosas de sexo, diversão, companhia, aceitação. A noite toda, ao ver aquelas pessoas risonhas e sensuais eu pensava em Cioran:

Todos os seres são infelizes; mas quantos o sabem?

Então criava histórias tristes para cada risada esfuziante e procurava nesses risos frouxos sinais de compreensão da miserável condição humana: essa consciência tem vários discursos.
Muitos homens me assediaram, fiquei irritada, queria apenas dançar. No final da festa, um me fez mudar de idéia e querer beijos de língua e amassos no meio da pista. Depois, uma rapidinha no banco de trás do carro.

Sons de sinos no instante em que o corpo cruzou a porta rumo à violência do riso anulado. A igreja anunciou seis da manhã. Se fosse minha aquela morta, a levaria em meu colo até o hospital e depois enterraria em um jardim.
Não sei por que, mas segui aquela prévia de cortejo e fiquei parada nas escadas até sumir o som dos carros.

Quando voltei, olhei novamente no espelho da recepção e, atônita, percebi que chorava. Mas por quem chorava?

19.7.09

AUTOSSABOTAGEM

Não entendo por que me sabotei. De novo.
Lá estava eu, dentro daquele avião, embrulhada na bolha de aço.
Depois de três horas percebi o perigo acariciando minha mão. Ela.
Ardilosa, me levou no papo. Enrolada em lençóis eu cedi improvisando passos de tango sobre a cama.
Mas em plena El Ateneo, um show de mulherzinha possessiva. Por que as mulheres que se apaixonam por mim são tão loucas? (eu rio) ela enlouquece, (viro a cara) ela segura meus cabelos e me força a ver o que mais me aborrece: uma mulher enciumada, lúcida e dolorida pela desilusão romantiquinha não correspondida.
Ela me quer em sua claustrofóbica bolha amante pirada.
Morro de tédio. Uma vontade de deixá-la ali e seguir adiante na avenida Santa Fé. Fico enjoadinha pela falta de ar que me provoca. Eu tenho um preço, Buenos Aires. Ela pagou, eu vendi. Nem sempre os negócios são bons nas relações humanas.
Na avenida Santa Fé ela aperta meu braço, cobra! Pergunto-me o que faço comigo. Os argentinos são homens lindos, a tarde tem um tom laranja enevoado, e enquanto penso em mim, me encanto com a arquitetura, ela fala sem parar... caminhamos, eu ouço tudo sem vontade de responder. Penso em passagens do livro Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino, em suas citações de Schianberg Nenhuma vida está completa sem um grande desastre. Penso na beleza do livro: paramos. Ela chora enquanto fala: meu corpo se dobra violentamente para frente e vomito em suas botas estilosas.

El Ateneo, a segunda livraria mais linda do mundo. Queria ficar perdida naquelas estantes, encalacrada no silêncio de um livro fechado.

Mulheres apaixonadas criam muitas expectativas.

Acho que não posso abrir mão de mim. Não com ela. Não hoje, que vivo o sonho de hibernar socialmente para não morrer nestes tempos líquidos.

12.7.09

Intumescido

Soberbo
Urgente
Ensonado

Saboroso
Na promessa
E no paladar da pele

Senhor
de si
Nunca de mim

quando só: fecho os olhos
e ele vem.
A vontade já estava lá

4.7.09

O que é uma mulher?


"Ouse, ouse... ouse tudo!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!" Lou Salomé




Confesso: a desejo e me calo. Não dou conta desta relação, sou fraca.
Duas meninas. Juntas. Tanto contra. Externas, internas, históricas, naturais. Posso vencer um urso, mas não posso vencer aqueles demônios que foram plantados em mim por tantas gerações. Nasci morta. Penso que menos de 1% dos humanos nascem vivos. A maioria, como eu, nasce e cresce sem saber o valor da vida e do que seja uma mente livre. Eu não sei viver, talvez não nesta sociedade, nestes moldes, nestas ideias padronizadas, nestas relações confusas, nesta linguagem quebrada, nesta falta de condições de expressar o que sentimos, e de saber, principalmente: o quê são esses sentimentos? O que é ser mulher?

O amor é apenas um nome para diversas emoções unidas. Mas, tal amor existe em nós para os outros? Não estaria esse amor para os outros, condicionado a diversas outras emoções unidas que o objeto amado nos causa? Para que serve pensar tanto assim? Talvez desejo sair dos trilhos e assim, poder encontrar um sentido à vida no não-sentido. Tantos sistemas filosóficos, tantos filósofos falando ao mesmo tento na minha cabeça. Essa massa que só quer pão e circo. Essa servidão voluntária em todas as nossas misérias. E ela, salva na brisa da tarde de outono, dentro do lilás me chama e eu não vou. Não quero ir. Oscilo entre minha loucura em persistir e acreditar na vida e o desejo de correr. Oscilo entre entregar os pontos e pelejar até o fim. Mas que é esse fim? Não me permito viver aquele querer, porquê?

Questiono a possibilidade do amor ser a segunda maior mentira da humanidade – a primeira é Deus – eu questiono essa bizarra situação de descobrir quem sou, para que sou. E repito a pergunta de A. L. Thomas: “O que é uma Mulher?” Especulando sem rigor, a concepção materialista do século XVIII francês na perspectiva de Denis Diderot diz que a mulher é governada por seu útero. eu acredito que sim, no entanto, acrescento: nascemos e crescemos bombardeadas por hormônios, padrões religiosos, políticos, condições sócias, econômicas, culturais e tudo isso sob o olhar severo do masculino. É um peso responder adequadamente a todas essas coisas, não dá! simplesmente.

Qual é a voz da mulher? Qual seu desejo, sua possibilidade de: ser, criar, inovar quando ela é Mulher sem essa montanha de vozes ditadoras?
Não existe resposta universal. Está tudo em cada uma, cada ser é um universo tentando coexistir com outros universos dentro de um sistema bastante complexo e quase incompreensível. Como diz Pascal: Não é possível conhecer nem o infinitamente pequeno, nem o infinitamente grande. Acrescento que talvez também não seja possível conhecer as relações e as consequências entre todos os universos. É confuso pensar que eu sou um universo, eu para mim mesma já sou um enigma, meu corpo é desobediente, intransigente. Todo esse organismo e a forma como ele é afetado por todas as coisas externas e emocionais também é complicadíssimo definir, dentre isso que sou e que nem sei que sou, tem os outros seres, entre nós existe tanta biodiversidade que tampouco damos conta, e este planeta singular chamado por nós de Terra, pertence a um outro sistema que se liga a outros. Nem ficção científica pode imaginar o que seja. Por isso fico aqui, atormentada por muitas perguntas... não dou conta de responder uma: como posso ser feliz? Como ignorar tais questões?
Tais respostas, mesmo quando dadas por mulheres estão em tom grave, moldadas pela voz masculina. Na educação da mulher, sua força física foi substituída grosseiramente por ideias do tipo: mulher tem que ser delicada, fofinha, falar baixinho, saber se portar adequadamente em ambientes sociais, não pode se masturbar, tem que adorar crianças e querer tê-las, assim como um marido e cuidar do lar de forma exemplar. Tal é a condição feminina - como diz Kant: a mulher tem por objetivo desempenhar o papel de enfeite da casa e tornar a vida do homem mais agradável - muitas mulheres acreditam nisso. Muitas mulheres são contra outras mulheres que ousam sair fora deste rito casar-procriar-ter-casa-marido-filhos-e-novela-das-oito ou sonhar com o príncipe que lhe dará tudo isso. Existe algo além dessa sentença de morte em vida? Será que elas estão certas? Eu não sei o que digo, não hoje, não agora que sinto a falta dos cabelos dela na minha cara.

1.7.09

N a v a l h a _ n a _ “v u R v a”

A coisificação da mulher e...
... a humanização da coisa.
.
.
exploração? da jovem beleza feminina? da parte de quem? mídia? consumistas? empresários? pais mercenários? criação da bunda? leva a bunda pra revista e fica rica? sociedade? capitalista? incentiva a pornografia? maldita? qual verdade será dita? viva a mentira? filho bom de bola? filha com bunda bonita? escola onde fica? na utopia? na puta da esquina? nas revistas mais rica? na punhetaria da oficina? na menina que da vida a bunda mais querida? A Mulher o que quer? ser desejada pelo príncipe? ficar rica? pra comprar o quê? de volta a vida? que a bunda roubou? que a família se esperançou? que saiu na revista? que dançou na televisão? isso enriqueceu a nação? trouxe acréscimo ao progresso? que progresso? No acréscimo da conta? De quem? Da menina? Da família? Da vizinha? Do neném? Do príncipe? Da lavanderia? Do mercado da cidade? Sociedade?
O homem é o lobo do homem? Devemos preservar a espécie: para a vida da bunda?

28.6.09

sede

Se você chegasse daquele jeito
vestido de meias mentiras em fitas
eu ainda fingira acreditar sorridente

só pra ter na minha boca
a sua língua afiada
seu beiço macio avermelhado

Sentir as espetadas da barba
O gosto de bala de cereja
E ouvir suas fantasias

Mas quem é que te quer?
Eu?
Uma entre eus, só pra dizer um alívio:

ainda
afio
nas minhas coxas
as unhas para a carne sua

6.5.09

ASCO

Quando estou de passagem pelas ruas poluídas de São Paulo – embora não seja condição apenas desta cidade - quando sou obrigada por circunstâncias a entrar em um Shopping Center, fico deprimida ao perceber tantos olhos e corpos saudáveis a procurar apenas o que consumir. E falo do consumo predatório, desnecessário. O consumo da ilusão, o consumo de coisas fúteis que esgota o meio ambiente, a saúde mental individual e coletiva.
Pior fico ao ver mulheres neste frenesi inconsciente, e pior ainda quando vejo as mães criando seus filhos nesta cultura massificada, antiecológica e de degradação social.

Exemplificando: veja se é um programa tolerável levar filhos (as) para consumir os lanches do McDonald's, brincar naquele parquinho débil e levar pra casa uns brinquedinhos “legais”. É parte do novo ritual de convivência familiar?

Sabe quanto ganha um funcionário desta cadeia de lanches impróprio para nosso corpo? Miséria! E pior, que ganhar pouco e trabalha muito, soma-se a isso o ambiente desgastante de pressão para um resultado “perfeito” na política do “consumidor exigente” que os deixa emocionalmente abalados. Ou seja: A rede criminosa se instala no Brasil (sabe se lá em que tipo de acordo com nossos órgãos “competentes”), nos fornece um alimento que só prejudica nossos corpos, embute pela publicidade e pelo ambiente um conceito de vida feliz, de classe média letárgica e eu só me pergunto: qual retardado pode amar tudo isso?

Mas o pior, e retomando o supra dito, é que os pais levam seus filhos para o Mc, como se isso fosse lhes trazer um beneficio emocional que somaria a sua relação com a criança, educando assim, mais um idiota social. Não sei se é arriscado demais dizer que a classe média (se é que ainda existe) e as outras de menor poder aquisitivo são as freqüentadoras assíduas deste “sonho vermelho e amarelo”, eu vou a muitas destas lanchonetes para observar esta dinâmica e criar meus “achismos”. Não que a classe social dominante pela força do dinheiro esteja isenta de ser uma classe idiota, muito pelo contrário, sabem muito bem criar mentes para o consumo do luxo, dos recursos humanos e são exímios dilapidadores dos recursos naturais do meio ambiente. E suas mulheres estão no SPA na ditadura do corpo jovem e incrível, cujas conversas são apenas voltadas a quem esta com quem e quem não tem mais grana. Os homens consomem as mulheres com prazo de validade óbvio. as mulheres se perturbam para manter isso, fazem de seus filhos previdências sociais e suas vidas só fazem sentido quando um bisturi as remodelam. Por outro lado mulheres que levam seus filhos ao Mc dão o “golpe da barriga” no intuito de manter aquele homem “preso” a ela.

Verdade que nada disso é regra, felizmente, mas vamos combinar que isso reflete uma grande parte da sociedade. Que grande absurdo, não! Sinto asco social.
Então me pergunto: será esta a treva obscurantista que tanto os iluministas franceses lutaram para modificar e tornar o conhecimento acessível a todos?
Mas hoje, parece fica provado que acesso ao conhecimento não é capaz por si, de muda o mundo.
Todos temos acesso ao conhecimento, sejamos realistas, pois basta querer e pronto. Temos bibliotecas universitárias e públicas, Internet, consultar professores e profissionais, livros, artigos, dicionários, revistas, enciclopédias, documentários enfim, uma série de recursos para adquirir conhecimento e que esta ao alcance, basta: querer!

Mas vejo constantemente mães criando filhos como se estes fossem incapazes de refletir, decidir, desejar. Tudo lhes é mastigado e enlatado, televisão virou baba e escolinhas e creches quem educam para o coletivo.
Em suas casas cheias de coisas eletroeletrônicas, criou-se um mundo paralelo a realidade social e ambiental. Promovem para as crianças apenas ilusão do bicho papão, da bruxa, da princesa, do super herói, dos desenhos infantis, dos brinquedos que elas consomem e destroem em segundos gerando assim a idéia do consumismo e do descartável.
Eu não concordo com nada disso. E retruco qualquer psicólogo que venha me dizer que este mundo de faz de conta seja importante.
Creio que pensar na possibilidade da greve do ventre seja uma alternativa razoável para nossa espécie.

27.4.09

DEDOS NÃO BROCHAM




O nome deste blogue já rendeu discussões, caras e bocas. Alguns homens se ofendem; as meninas riem travessas e embora eu tente divagar sobre o tema, tudo acaba na questão sexual.

Eu poderia ficar discorrendo sobre a singularidade do sexo com menina e com menino. Ambos são fabulosos. Sempre digo que o que me atrai são pessoas, o sexo é conseqüência. E rótulos são desagradáveis e inconvenientes.

Mas quero dizer:
1) O pênis é insubstituível e os homens quando sabem usar todo seu corpo para o prazer e não apenas o pênis, nossa, são incríveis.
2) O corpo feminino é um campo minado de prazeres.
Eu não posso dizer que um é melhor que o outro, adoro os dois.

Numa dessas querelas fiquei com a impressão que alguns homens heterossexuais não gostam de mulheres que gostam apenas de mulheres. Me pareceu que não gostam da ideia que o pênis não seja o único a dar prazer a um corpo feminino. Que todo sexo lésbico precisa de objeto fálico e por isso, não passa de uma masturbação entre amigas. Eu dei muita risada, confesso.

O sexo entre mulheres não precisa de apetrechos fálicos, é uma questão de escolha das parceiras, mas me pergunto em voz alta: dedos não acabam sendo algo fálico nesta hora? Eu só estou divagando. Sei também que os dedos não são os únicos a dar prazer no sexo entre meninas, o tribadisto é grande fonte de gozo, entre outras práticas que não envolve dedos, mas sim língua. E não apenas a língua no óbvio, a língua em outras partes do corpo. Em uns posts atrás disse que uma vez gozei apenas beijando, chupando os seios de uma garota, sem ela me tocar ou sem eu tocar a "bonitinha" em nada. Apenas chupando seus belos e incríveis seios macios e perfumados. (risos) Foi fabuloso e sei que isso é relativamente comum entre as meninas.

Alguns homens se aproximam de mim desejosos do “ménage a trois” ou simplesmente desejam ser “voyeur” do sexo lésbico. As meninas não se aproximam desejosas de um homem.
Em se tratando “ménage a trois” aprtindo de uma guria, uma me acenou a possibilidade de sexo entre três mulheres.

Tento explicar que comigo as coisas não rolam assim. Tudo é circunstância, atração, sedução e que odeio coisas combinadas, armadas ou feitas apenas para agradar um. Já disse que não suporto motel? É tão óbvio que brocha. São tão ardilosos na sua retórica de prazer, mas eu sou mais ferrenha que suas supostas razões enlevadas.

Uma amiga me contou que as baladas GLS estão cheias de garotinhas querendo experimentar outras garotinhas. Eu não vou a baladas e fiquei chocada por um tipo de comportamento sexual se tornar moda. Sim, é moda menina ficar com menina, não sei se o contrário também. E os garotos acham isso fabuloso e incentivam. Onde está a liberdade sexual delas? O desejo sexual delas é pelas meninas ou para agradar os meninos? Ou para ficar na moda? Eu sinceramente, confesso que fiquei passadinha-por-um-mastodonte com a novidade que alias, não é mais tão novidade assim, de que bissexualidade está na moda.

Realmente preciso tirar a cara dos livros e do século XVIII para me situar nos fatos atuais.
Ainda não sei exatamente o que pensar a respeito do modismo sexual. Não gosto dos motivos do comportamento bissexual deste grupo de adolescentes, e não compreendo como isso afetará suas vidas e a sociedade, assim como não vejo como progresso sexual o comportamento de muitas mulheres praticantes de trocas-de-casais, pois sei, que muitas vão a pedido dos companheiros e que entram na farra por motivos que não são delas. Ou seja... o uso da mulher tomou ares de moda num discurso "liberal"? Ela sabe o que está fazendo consigo? Sei que algumas mulheres são quem levam os companheiros, mas por enquanto, me ocupo das que não vão por iniciativa própria, e sim, para agradar o parceiro.
Tudo isso me levou a pensar numa ética bissexual. E me pergundo por que as pessoas se ocupam tanto em discutir a sexualidade. É tão simples o sexo, tão belo e tão leve. O conceito carregado de culpa religiosa criada em torno de algo tão natural é perturbador.

GREVE DO VENTRE

Gênesis: multiplicarei seus trabalhos e misérias em tua gravidez, com dor parirás os filhos e estará sob a lei de teu marido e ele te dominará.

Apostolo Paulo: a mulher deve aprender em silêncio, com plena submissão. Que a mulher não ensine, nem domine o marido. Apenas se mantenha em silêncio.

Aristóteles disse: A mulher é por natureza inferior ao homem. Deve, pois, Obedecer-lhe. O escravo não tem vontade. A criança a tem, mas incompleta. A mulher também a tem, mas impotente

Tomás de Aquino: O pai tem que ser mais amado que a mãe e merece maior respeito que ela porque sua participação na concepção do menino é ativa e espiritual, enquanto que a da mãe é passiva e material.

Pierre Proudhon: A mulher é uma espécie de meio termo entre o homem e o resto do reino animal. Deve fugir dela quem deseja conservar suas energias corporais e espirituais.

Rousseau: A educação da mulher será organizada em função do homem. Ela deve tornar agradável a sua vista, deve cuidar dele, aconselhá-lo, consolá-lo, tornar-lhe a vida agradável e feliz. Tais são os deveres da mulher em todo momento.

Hegel: a mulher pode naturalmente receber educação, porém não é adequada às ciências mais elevadas, à filosofia e algumas artes.


GREVE DO VENTRE.
VENTRE
GREVE
SILÊNCIO
PARA SALVAR AS VIDAS

26.3.09

SOU MULHER QUE CORRE COM LOBOS



Não sei como algumas mulheres suportam o casamento. Vou à casa de algumas amigas e fico observando a “dinâmica” marido-filhos-casa-carreira. E me pergunto como elas aguentam?
São mulheres saudáveis, com observações interessantes sobre várias coisas, jovens e inteligentes. Mas compraram a ilusão encalacrada no discurso social de tempos: fede mofo o portaretrato da família feliz mamãe-papai-e-filhinhos.

Uma de 30 anos me confidenciou que se fosse possível voltar no tempo, não teria filhos, tampouco se casaria. Pergunto a razão disso. O comentário dela é comum, porém muitas mulheres apesar de sentirem e pensarem exatamente isso, sentimentos que levam a culpa não as deixam verbalizar abertamente.

Ela vive num lar classe média, com dois filhos, pequenos tiranos, mimados e manipuladores. E que ninguém me taque pedras, crianças sabem como ninguém manipular um adulto - eu percebo o jogo, estou de fora - ela não.

É coisa do tal amor materno tido como incondicional cegar as mulheres que vivem na função de mãe, a suposta culpa por ficar fora o dia todo, são as armas utilizadas por estas criaturinhas fofas e engraçadinhas. Acho um absurdo a mulher ser tão imbecilizada com seus filhos, deixar de ser o centro de si mesmas para adorarem as crias. Não vejo nisso nenhum louvor digno de se alcançar as glórias dos céus-amém que eu quero é ir pro inferno.

As mães fazem tudo com um preço bem definido. Observem, pois a conta está embutida em tudo: nem mesmo as mães fazem nada de graça.
Enfim, mulheres-mães não são vítimas de seus filhos, haja visto que pariram e "tábulas rasas" e escreveram para serem seus “donos”. Mães são responsáveis pela sociedade medíocre que vivemos, pois constantemente criam idiotas para rebanho e não humanos auto suficientes. Bom, eu teria que definir etimologicamente o que penso ser um idiota, além de humanos alto suficientes. E não estou paciente para fazer isso.

Um exemplo, só para mostrar como vivem uma ilusão maternal egoísta é que, além de repetirem um modelo gasto de séculos, elas não se unem para mudar o ensino público, exigir que deem a seus filhos condições de escrever e ler com inteligência, associando, criticando, etc... As mães não se unem para salvar o que podem mudar, só para chorar a perda do instrumento de sua adoração, da sua “razão de viver”.

Francamente, abrir mão de si mesma para gerar tiranos, sustentar os mimos, caprichos e loucuras de um marido, sim, para mim, marido é o homem que deixa a mãe para pegar uma “mãe” com mais funções e mais jovem, capaz de lhe prover a infantilidade por mais tempo. Um “marido” é o filho que uma doida cata de outra. E vejo como eles são terríveis e dependentes.
Sempre vou a noite até a casa delas (maldade pura) é mãe e amor que nem se pode contar. Mãe quero isso... amor onde está... manheeeeeeeee.... amorrrrrrrr...

Nunca consigo ficar para o jantar.

Vou a casa delas como terapia contraceptiva marido-e-filho.

E para validar tudo que eu penso sobre “maridos” e como NÃO reproduzir um idiota-tirano-mimado-dependente-passivo-social.

Pobres garotas, era só ouvir as avós e as entrelinhas das mães e tias para perceber a teia ardilosa do casamento e dos filhos.
As mulheres são vítimas e algozes no jogo ardiloso de tempos da educação manipuladora e castradora que receberam. No entanto, estes sopros novos anunciam que os homens – além de algozes – são vítimas. É hora de trabalharmos juntos para uma humanidade mais saudável com a finalidade de libertarmos homens e mulheres do equívoco da dominação ideológica.

***
Que os deuses me ajudem a viver com tão poderosa liberdade.


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Dica para leitura:


"MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS"

de Clarissa Pinkola Estés

ed. Rocco


Ótima leitura.

17.3.09

O corpo sempre diz a verdade - Confissão I: O Olhar



Ela me deixou assim quando sustentou meu olhou: sem vontade de correr; vontade de deitar em seu colo e entregar minha vida; rir de lembranças velhas; pegar na mão e segurar o tranco da vida; ver no 1825 dias ininterruptos o espetáculo do sol iluminar seu caminho até o banheiro enquanto puxa a calcinha e reclama por acordar cedo; gostar de querer mais 1825 dias começados assim; desejar vencer na vida só para ter de volta o direito legítimo do tempo e ficar com ela.
Sua voz me toca como zilhões de pontas de dedos, tudo em mim torce pelo som daquele sim; riso com lágrima - eu sinto nojinho de lágrima - não terei das lágrimas dela; um ar novo para uma vida de tédio; uma coisa doce pra se olhar e desejar.
Gritar pra todo mundo que ela disse SIM. Bem ali, num café de Paris.

16.3.09

CAFÉ COM MANGA UMA TAÇA COM ÁCIDO MESA 13 SAINDO

você faz perguntas bizarras dr eu disse essa mulher me espreita e gargalha da minha cara é perversa até na hora de comprar o pão ela só não chuta gato! sem comiseração viu ela vive no meu estômago na azia na dor da raiva nossa mais parece um bolo de sapo que não desce nunca afe não digere nem sei mais o perfume do sol entende falta o ar pesa no passeio da praça sei lá deve ser essa coisa cíclica esse lance complicado de ser mulher O quê?

(um gole d’água, um trago no cigarro)

quando era pequena lá no inferno sabe já disse minha casa meu pai minha mãe meus irmãos tudo sanguessugadaminhavida eu não tinha vida era mortaviva era um troço um lance bizarro entenda eu já disse outra vez eu aprendi a ser uma e a ser outra e agora que sou duas uma briga com a outra lembra que falei da prima aquela que eu transava então meu pai trepou com ela no dia dos catorze anos dela sim ela quis foi sim o cão foi vistoriar a criação ela foi atrás vestidinho de alcinha sem calcinha e sabia o que queria verdade tô falando ela disse que a rola dele é assim mesmo óh a rola do seu pai é gostosa eu fiquei enjoada mas depois morri de rir eu e ela nossa viajamos da Bahia até o parque do Beto Carrero World era só eu falar pra ela prima diz que quer que eu vá junto senão você conta pra todo mundo que ele estuprou você Sim ideia minha tudo ideia minha eu sei manipular e assim ela fazia e a gente conseguia tudo mas o que eu queria com isso era que ele nunca mais me batesse eu sentia vergonha quando ele me batia troço doido deveria ser aquele maldito a ter vergonha me doía muito não só as surras mas a falta do amor eu morria pedacinho a pedacinho em cada tapa então eu fiz isso e ela disse a ele que a pinta do pinto que ninguém sabia que o diabo tinha ficaria sabendo se ele não parece de me bater eu coloquei a ideia lá na cabecinha dela e ela fez tudo achando que era ideia dela mas ela gostava de mim gostava de trepar comigo no pé de manga e ai sabe como é tudo você entende naquela época era a outra mas bom verdade éramos nós duas interesse comum entende não, não tô falando mais da prima

(mais um trago no cigarro, desvia os olhos para os livros de psiquiatria, a mesa arrumada. Vai até lá e desarruma tudo, só preserva os livros que olha, sem saber o que pensar deles)

eu sei você deve estar pensando se me interna ou não mas eu digo que não sou perigo nem pra mim nem pra ninguém ave não mesmo e digo que já vi gente mais perigosa por aí na escola na faculdade depois de pai e mãe sempre digo presta atenção é fato internacional gente pior são os professores bando de filhosdaputa sim odeiam o ofício e o que fazem dos sonhos deles como riem deles essa miséria escrachada viciada tem vergonha quando vão dizer sou professor dizem para dentro descontam tudo nos alunos com um risinho sarcástico eu sei tive os meus odeio todos salvo a prô do pré uma graça de mulher lembro que ela cheirava suor de criança na hora do recreio sonhava ela ser minha mãe coisa estranha eu já disse não gosto nem do meu pai nem da minha mãe coisa mais sem sentido humanos assim terem filhos que diabo de natureza mais doida que deus que nem existe doutor deveria esterilizar tudo acabar com tudo um acordo mundial para o fim da humanidade raça sem propósito nenhum uma grande peste na natureza praga dos infernos viu a foto do urubu na África esperando aquela cagadinha de gente morrer para comer pois é e aqui nesse continente americano a gente inventa tanto para resolver esse vazio esse abismo do peito que direito doutor esse vazio no peito que a gente tem hein O quê? Eu sei não estão na pauta da sessão e não eu não odeio os meus professores eu adoro ele me dão paz verdade me mostram o melhor mundo pra eu me esconder o que não gosto é de autoridade isso não odeio de verdade Como?

(apaga o cigarro, arruma os objetos sobre a mesa e continua ainda sem saber o que pensar claramente daqueles livros de psiquiatria)

Já não tenho mais força alguma para segurá-la, estou fraca, cansada. É mais fácil entregar a vida. Você não pode garantir que ela seja pior que eu. Ela só quer correr, mandar uns aí tomar no cu. Só quer ser o que sei que somos, é isso. Eu quero matar nós duas. Dispenso todos os remédios, dispenso, obrigada. Não quero dizer mais nada eu acho que volto para a próxima sessão

10.3.09

Domingo de clássico


Ontem seus olhos me despiram. Seus dedos correram pelo meu ombro, brincaram com meus cabelos, entraram na minha boca enquanto eu, sentada na cadeira da cozinha, fingia a paz que não tinha.
Um domingo ordinário, uma mulher atrevida e uma cozinha em ebulição de cheiros e sabores.
Enquanto na pia eu cortava legumes, atrás de mim ela se insinuava, cheira minha nuca e dizia sentir vontades de mim. Redobrava a atenção para meus joelhos não dobrarem diante dela, ou simplesmente para eu não cortar os dedos trêmulos.
Era verdadeira a recíproca: eu correspondia a toda aquela volúpia. E minha imaginação corria sobre a mesa, sobre cadeiras, sobre o chão.
Mais uns instantes e ficamos sozinhas. Desde que ela chegou com o primo do meu marido, nossos olhares contaram com a proteção dos óculos escuros. Eles não sabiam da nossa paixão. Eles não poderiam saber. Foi tão fulminante e se deu no mesmo instante em que nos conhecemos.
Depois de um quase flagrante fazia um mês que não nos víamos, que demos um tempo. Mas depois de tanto evitar, naquele domingo de clássico de futebol foi impossível separar nossos maridos. Torcedores fanáticos que queriam ver a estréia do fenômeno. E para um dia tão especial: churrasco.
Sempre fui vegetaria e avessa a futebol. Mas adorei quando eles saíram pra comprar carvão, carne e cerveja.
Eu e ela. Impossível separar nossas bocas, segurar tanta vontade, acalmar nossa respiração. Era tanta vontade, saudade que quando demos conta estávamos no sofá da sala, abraçadas, loucas uma pelo corpo da outra.
Queimamos, queimamos a torta salgada no forno. Deixamos o mundo trancado pelo lado de fora. Paramos o relógio e só nos demos conta de tudo quando nossos corpos sedentos foram refrescados pelos primeiros prazeres.
Uma buzina ao longe nos deu noção do risco. Corremos.
Quando eles chegaram do mercado eu socorria a torta e ela, no banheiro se refrescava. Eles não perceberam. Eles nunca percebem.
Durante o almoço nos estávamos falantes, alegres e bebemos vinho. Sob a mesa nossos pés se tocavam, seus pés me provocavam entre as pernas.
O jogo começa e nossos namorados na sala perderam de ver onde estava o verdadeiro fenômeno. Sentada na minha frente; vestido creme com florzinhas. Olhos que refletiam o fogo dos meus.
Nos separava xícaras, bolo de laranja, queijo, frutas, cinzeiro e jarro de suco. Falamos de livros. Apresentei e li Marcelino Freire. Ela adorou. Tive trabalho para ler, seus dedos driblavam as palavras.
Aos outros objetos entre nós, soma-se o livro. Suas mãos dizem o que as palavras não podem. Ela levanta o vestido, mostra a calcinha molhada. Pede meus dedos entre suas pernas.
Da sala, eles gritavam a cada lance do jogo. Ela suspirava a cada invasão de meus dedos. Ainda bem que cozinha é lugar de mulher. A mesa treme levemente, o guardanapo abafava sua vontade de gritar como eles. Coisas de mulher sempre foram sussurradas, ditas ao pé do ouvido, discretas. Eu avanço, mudo de dedos, armo nova tática, beijo um seio que se oferece depois de dois botões abertos, ela faz barulho, aperto o pano em sua boca, esfrego no biquinho do seu seio, o meu. Pouco tempo para acabar tudo. Ambas avançamos na grande área. Tensão. Tesão. Hummm!
Eles gritam... Vai! Vai! Vai...
É gol. De novo.


4.3.09

Pitanguinha



“Entupia-se do gosto de goiaba, romã, cajamanga, fazendo de seu corpo parte do pomar, embora fosse mais íntima das frutinhas pequenas que a ensinaram a explodir na boca do amante e deixar um azedinho no fundo.
Era somente uma menina naquela época mas sabia escolher seus homens, preferindo os famintos, aqueles que não pudessem se conter em meio a profusão de cheiros numa tarde quente. Conduzia-os com calma, fazendo-se de menininha distraída que trepava sem calcinha nos galhos mais altos da jabuticabeira. Até os mais santos davam vez ao tarado observando aquela bucetinha madura que voava de galho em galho. Depois se esparramava pela terra, lambuzando-se no caldo das mangas e ensinando como devorá-las até o bagaço. Nesse ponto eles já pouco pensavam, confundindo o que seria fome, ou calor e se deixavam também ser maliciosamente ingênuos... perdendo assim suas roupas ao caminho da pitangueira, onde colhiam o primeiro mamilo que se revelava numa confusão de cores similares. Já tão sedentos davam vez ao ritual, e era isso que a menina queria, para ela só existia amor na brutalidade da urgência: era enfim chupada, espremida, pisada e abocanhada até o último sumo para ser libertada.
Seus amantes, pobres meninos e homens rústicos, fugiam em carreira louca, atormentados por culpas e pudores enquanto ela permanecia já sem lembrar deles.
Deixava seu sangue decompor na terra, germinando a próxima estação".
***
escrito por Celso Amancio - para mim - lá na oficina.

2.3.09

PELE GEOGRÁFICA



foi assim: no chão

mal dito escarrado em mim
risco estreando na pele
escarro-sarcástico
escarro-idiossincrático-sádico

minhas pernas abertas
marcadas, molhadas, desatinadas

arrotou meu coração
bafo de desdém-azedo com ironia

mal que consenti.
risinhos que lhes dei.

assim foi: um dia todo escarro desce.

21.2.09

A CRISE DA MENTIRA


Deus sabe o quanto aprecio uma mentira perfeitamente arrematada. E o diabo o quanto acho graça e encanto nas hipocrisias dos meus semelhantes.
Explico:

Na revista Piauí_29 saiu uma matéria sobre Laurita Mourão, escritora de mais de 70 anos, entre outras coisas diz: só não faço mais sexo por falta de mão de obra. É um bom texto, a entrevistada ajuda muito. Adorei. Confesso que não a conhecia. Faz a velha Dercy parecer uma beata casta. Alias, sempre achei Dercy raivosa demais para falar sobre sexo. Ao contrário, Laurita fala com paixão, prazer e diz que o melhor amante é o francês: na cama o francês dedica as mulheres os mesmo direitos sem pudor. O premio de pior fica para os americanos, pudicos e cheios de culpas.

Eu nunca transei com um francês ou francesa, mas transarei. Não esta nos meus planos dar atenção a um americano, como não DOU atenção a brasileiros “militares-empresários-de-extrema-direita-cristã”. Minha experiência internacional limita-se a um argentino e a uma espanhola.

No meu tcc, trabalho o feminino no século XVIII na perspectiva de Denis Diderot, a partir de uma discussão levantada pelo acadêmico francês A. L. Thomas, respondido com fervor por Madame D’Epinay e Diderot, que discorrem sobre o tema O Que é uma mulher?. Além deste, coloco na briga o nobre materialista Marques de Sade.
Madame D’Epinay defenderá uma influência social-cultural sobre a formação das mulheres e Diderot, materialista, dirá que a mulher é governada pelo seu útero. Já o Marques, sodomiza qualquer um.

Mas a questão que pretendo discutir com meus dedinhos mal dando conta de digitar, é que ambos (Diderot e D’Epinay) dizem que ao envelhecer a mulher deixa de ter seus atrativos frescos para o deleite do sexo, assim como seu útero, de ser útil. Tornando-se uma mulher um ser sem graça e sem utilidade para a sociedade.

Quer dizer: a mulher é um ser de utilidade? para dar prazer e gerar descendentes? Isso mudou do XVIII para os dias de hoje? Acho que - especulando - muito pouco.

Este é o amontoado de idéias grosseiras que tive enquanto conversava com um cliente na livraria que trabalho. Falávamos sobre a revista e a matéria de Laurita Mourão. Ele um quase cinquentão muito atraente, por isso dei tanta atenção. Dizia que a mãe dele de 70 anos é “muito ativa”. Eu quis saber se sexualmente ativa. Ele respondeu um “Tomara” sem olhar nos meus olhos; creio que ele nunca pensou nisso. Mas continuou a defender sua postura liberal sobre as mulheres velhas.

Nunca entendi essa frase-pronta para falar de velhos: “ah, fulana(o) é bem ativa(o) e lúcida(o)”. Tipo, aquele trapo de gente ainda é capaz de colocar comida na sua boca, levar sua bunda até o banheiro e depois lavá-la. Até o vocabulário para se referir a "terceira-melhor-idade" é um chute na boca do bucho. Quanta hipocrisia.

Valha deus-pai-ausente, envelhecer é uma desgraça! não desejo isso a ninguém é insustentável o siêlncio do tempo enquanto nos mastiga. Mal que chega pelo olhar dos outros.
A graça da mentira mal costura é quando vejo o tal cinquentão atraente no café com sua “esposa”, usando aliança de casal abençoado pelo santo-matrimonio-de-merda-amém, e rio gostoso: ela não tem mais que 22 anos de idade.
Sem problemas, óbvio. Se o sexo é consentido, tanto faz um de 70 outro de 25.

Quer dizer: tudo que ele me disse não passou de um discurso politicamente correto? Defendemos nosso direito futuro de trepar, mas enquanto ainda somos relativamente jovens, vamos comer jovenzinhos, depois nem mais velho quer velho?

É inquestionável o sabor e o cheiro de um corpo fresco, uma mente sem vícios de joguinhos bestas e um coração ainda leve em relação as danurinhas da vida. A companhia é agradável, embora tediosa muitas vezes.

Aos 70 anos, cheia de vida Laurita quer trepar. E digo, que trepe mulher! viva poque este é seu tempo.

13.2.09

PORTAS ADJETIVAS


Portas vermelhas
Negras portas
Portas brancas
Amarelas portas
Mestiças
Portas

Todas Vigiadas!

Portas escancaradas
o que entra e sai é comentado
o que sente é confiscado, roubado, negado.
Portas atormentadas, subjugadas
Ignoradas, fechadas, dissimuladas
Cadelas marginalizadas caladas
Filhos(as) da puta a beira da porta
Filhos(as) da puta dentro da porta
Na beira das portas
moscas e urubus, abelhas e quem beija a flor.
soleiras cheias, outras capinadas
“Cuidado com as portas”
“des-bastar de ervas daninhas!”
ecoa pelo tempo a carnificina metafísica: A morte é na Mente!
carne dormente, porta selada, alfabetizada, doutrinada, machificada*
Acaso são portas do mal, do amoral, do imoral, dos vícios?
Pecado! Pecado! Pecado!
Onde carrega a sua culpa?
Odeio ouvir pecado; sentido que nem existe: não mesmo!

(Das portas para dentro: quentinho
Para fora: Ilustração!

Não divinize nem faça oferenda às portas: COEXISTA)

Portas arrombadas pintadas de vermelho.
Enclausuradas ressecadas, acinzentadas, amaldiçoadas, veneradas, coisificadas, comercializadas, consumidas, consumistas...com..com...sem!
Constantemente.
Ecos! Cheiro de porta queimada.
Melancolicamente servil.
Grosseiramente mirada.
Maldosamente ASSASSINADA.
E tudo porque é uma porta. Que nada sabe o que se passa dentro.
O que cada porta guarda em segredo?


DO QUE VOCÊ TEM M-E-D-O?
HÃ! DO QUÊ? HEM? CA-RA-LHO!

_____________________________________

*machificada: ter ideia e comportamento machista.

6.2.09

Assédio Sexual



Minha língua doida.
Paranóica.

Tua pele.
Tropa de dedos à nos defender.
Invasão? Direitos?
Dentro, a língua torturada.
Na saliva. Seu gosto.
Imaginário.
Você. Dissimula o tom
Qualquer dia, eu anarquista.
Seu território.

Direito meu.

6.1.09

A burguesa sem graça

Quando pequena pensava que o inferno era minha casa e o demônio meu pai. Não se aborreçam comigo, mamãe é judia e dizia que o inferno não existe, mas o demônio temente a “Nossa Senhora Aparecida” (para mim, Nossa-Nunca-Deu-O-Ar-Da-Graça) dizia que eu iria queimar em garras satânicas.
Escondia-me das surras atrás das minhas fantasias. Na época em questão eu andava encantada com a história de Sansão e Dalila e ocultada em cantos, suava desejando os poderes de Sansão para surrar o dementado católico. Depois, quando me tornei mais espertinha, descobri que os poderes de Dalila eram mais coerentes e que papai era um sádico e deveria ficar distante dele em todos os sentidos.
Quando cresci, eu estava enganada, mas nunca em relação aos poderes de Dalila, nem sobre a inexistência do inferno, estava enganada em pensar que a demência era privilegio do meu “doce lar.”
Hoje vejo qanto o mundo é composto por dementados que se diferenciam apenas em graus. E quando apurei um pouco mais as reflexoes, além de descobrir que toda mulher tem um pouco de Dalila em si, descobri que entre tantas mulheres que sou para mim, além de terem muito de Dalila, também são dementadas tanto quanto outros humanos. Mas o que quero dizer com este amontoado de palavras e vai e vem?
Quero dizer que descobri em mim, mais uma das tantas patas das ratazanas religiosas e vociferei num assombro cômico: que diabos de santos espertos! Eu passei um longo tempo infeliz por não corresponder ao ideal de humano “legal e saudável”, do tipo que trabalha num bom emprego com todos os benefícios; do tipo que entra na graduação, faz mestrado e doutorado antes dos trinta anos; do tipo que, orgulhoso de si diz aos outros pagar suas contas exatamente em dia e que se sente realizado por voltar para casa depois de um dia de trabalho "honesto", tomar um “bom banho” e senta-se para ver televisão junto com a adorável família constituída seguindo todos os ritos e crê, arfando o peito de satisfação e certeza que o mundo é um lugar bom e que Deus ajuda a todos que cedo madrugam e, portanto, o dinheiro da prestação do carro e da casa própria estará garantido no final do mês, assim como o colégio particular das crianças, os cursos de inglês, a empregada, os passeios ao shopping, a pizza sábado à noite, o restaurante domingo após as obrigações religiosas, e tantas outras “patiugadinhas” que são “necessárias” para o bem-estar desta nobre e adorável classe social. Entrementes, não posso dizer que eu era uma burguesa cujo orgulho estava ferido e por isso eu sofria. Não! Primeiro porque eu nem sabia o que significava ser uma burguesa, segundo porque ser burguesa é como ser católico: estes amontoados de idéias, comportamentos e conceitos imundos estão encalacrados nos costumes sociais e você os absorve juntamente com o leite materno. Você cresce e se descobre católica e burguesa, olha-se no espelho e decide se está “roupagem” combina ou não com o que você é! No entanto, é recomendável que você saiba que o que você É distingui-se categoricamente do que você Têm, ou seja, Ser é definitivamente diferente de Ter (mas concordo que se pode ser e ter ao mesmo tempo - seria como ver vaga-lume com asas de cachorro). Definindo Ser: não ser nem ter conceitos burgueses-católicos, mesmo em outras culturas as roupagens religiosas ou políticas cujo cerne seja patriarcal, vejo que só a fantasia-das-religiões mudam, mas o conceito "burguês-católico" continua em série com outros nomes tão feios quanto.
resumo do caos: estamos num só mar de bosta.
Todos somos mentiros, criamos fantasias ideológicas para crer nelas, portanto, mentimos. E cruelmente arrastamos crianças para essa demencia.
Entende?

7.12.08

Maria dos meus pecados

Avisei:

não se apaixone por mim

(nossas roupas espalhadas pelo apartamento)

Agarra e beija tudo em mim que agora é dela
É fome e sede: miseráveis febris
serpenteamos sobre o suor uma no corpo da outra
nos encaixamos em curvas com blasfêmia
cheirei seus cabelos mordi suas axilas

“não se apaixone por mim”
(O tesão não a deixa me ouvir)
Ela me oferece generosa
o alimento libidinoso
tomo tudo e gozo

“não se apaixone por mim”
(Ela me chama de ridícula).
Pequena, disléxica, voluptuosa
bafo com bafo
sua voz rouca me faz querer
a vontade é do estômago
suas mãos me enganaram.
são fortes. tapas fortes!
Maria me põem de quatro, me morde, arranha as costas.

“Não”! protesto sem chance.
e manda usar a imaginação, para em casa, eu esconder sua violência.

“Não se apaixone por mim”
(Ela olha para minhas botas)
tardes de cabelos emaranhados.
lençóis amassados
sofás gozados
Quando ela goza, ri.
e aparecem covinhas no rosto!
perturbadoramente maliciosa e articulada.
“Não se apaixone por mim”
mas que tola insensível que sou.

“Não se apaixone por mim”.
sou ridícula!
(Ela indica a porta).
“Não se apaixone por mim”
em seu favor a posse começa no meu ouvido.
“Não se apaixone por mim”.
(Escolhe!).
calço as botas.
Alinho no corpo o vestido amassado.
É noite: lançamento de livro, bar, beijos roubados num corredor na frente do banheiro...
E já é outra história.

29.11.08

Que os poetas me perdoem, mas amor é questionável

Não sei exatamente quando se deu minha desconfiança com esta palavra “amor”. Sei que desde muito pequena descobri que amor é mais uma palavra sem sustentação. Meu pai deveria ensinar-me o que é o amor, porém, mostrou-me o contrário disso.
Mamãe mostrou-me o que é o amor, entretanto, um amor exagerado, judeu e pesado demais! Em meus primeiros contatos com a coisa amor, deu-se um “amor na ausência” e um “amor no excesso”. Sem linguagem esclarecedora, apenas uma verbosidade inútil. Desde criança percebi que havia algo errado com a palavra amor e aquele emaranhado de tentativas de descrever o sentimento, assim como à palavra esperança, ou às palavras de fé transcendental. Logo depois, na adolescência descobri que o que eu sentia por meninos e meninas não era amor, era vontade de sexo, vontade de companhia, vontade de compartilhar coisas, mas que eu poderia encontrar isso em muitas pessoas, isto é, sem ter aquele único ser de adoração, ora, se eu poderia encontrar estes sentimentos em todas as minhas relações, algumas com sexo, outras sem sexo sendo apenas amizade, eu fatalmente me questionava: onde está o amor romântico ou o amor dos poetas? O amor que nos tira do ar, que causa as tais borboletas no estômago, o amor que nos faz desejar apenas uma cabana e a coisa amada e esquecer todas as implicações práticas e inviáveis de se viver numa cabana sem energia, sem água encanada, sem alimentos... Viver apenas na rede e da coisa amada nos braços a nos dizer juras de amor eterno. Impossível para não dizer ridículo.
Todas as vezes que pensei que amava alguém, descobria que na realidade sentia algo como paixão e que depois de duas ou três vezes de sexo, aquele frisson se acalmava e mais uma vez eu concluía que não passava de pele ou companhia. Já fui acusada de ser alguém “sem alma” (isso é verdade, pois sou feita de carne, ossos, sangue e um emaranhado de nervos entre outras coisas de caráter orgânico) de fato eu não tenho uma “alma”, tenho uma razão. Outras vezes disseram que eu não tenho coração (mentira, eu tenho e a função dele é bombear o sangue no eu corpo). Essas acusações querem dizer que eu não sinto o tal amor, mas como posso sentir algo que não compreendo? Mesmo que se dê sem compreensão, eu nunca o senti neste contexto dos poetas. E o que achava que era, com o tempo percebia o emaranhado de ilusão que no distanciamento se tornava claro e desprovido de poesia. Questiono-me demasiadamente sobre o amor e já escrevi neste blogue, que penso sobre a questão do amor como um conjunto de sentimentos que o outro ou o próximo nos inspira, um jogo de reflexos entre “o que eu sou” e o que o próximo é, que encontra ressonância em mim, em toda história que me constitui, que propriamente ao próximo. Então nos amamos no outro? Ou seja, o amor é o fato de eu me reconhecer no próximo? Ou me complementar nele? Essa idéia de complemento me deixa de cabelos eriçados, eu não gosto desta coisa de me fundir no outro, de que o casal se torna um. Abomino! Eu sou eu, o outro é o outro, não somos um, não quero ser metade no outro, quero ser apenas o que sou e dou conta de ser e sentir. Como ficaria minhas idiossincrasias? E as do meu próximo? Não, definitivamente não é uma questão de “metades da laranja”, é um tipo de reconhecimento de um conjunto de histórias pessoais, emocionais, gostos, cheiros, pele que fantasiamos, não damos conta de explicar e chamamos de amor, como os antigos pensavam que o trovão era um tipo de fúria dos deuses. Não que eu nada sinta, eu gosto de algumas pessoas, aprecio a companhia, sinto falta, tenho carinho, saudades, querer bem, choro quando entes ou amigos queridos falecem. Não sou desprovida de sentimentos, eu apenas os questiono. Talvez eu seja um certo tipo de “meio” entre o “amor na ausência” e um “amor no excesso”. Mas uma coisa eu sei, posso dizer que o amor em mim é algo temporal e orgânico.

23.11.08

Continuando a especular, estas necessidades primeiras criaram outras mais supérfluas e os costumes se degeneraram na posse não apenas do corpo, mas do emocional e do intelectual feminino. O King Kong está morto, pois ele é muito feio.

Antes de falarmos sobre culpa, se faz necessário divagarmos desprovidos de rigor, em outras questões.
Uma dessas questões é a imbecilização da mulher-coisa, o comércio medíocre do sexo e das informações sobre o sexo, tais quais: “como não deixar que seu casamento caia na rotina,” “como ressuscitar o sexo depois da maternidade,” “como deixar seu marido doido na cama em cinco passos” e outra infinidade de manchetes absurdamente ridículas compradas por mulheres ávidas em manter a pose da mulher-coisa perfeita, enquanto nutrem e promovem suas crias usando sua mantinha de maternidade sagrada.
Só para não mencionarmos uma série de graus de distúrbio, violência e submissão sexuais!
São tantos os absurdos passados pela educação, pelos costumes para mulheres e também para os homens, que seria necessário mais um doutorado que um reles ensaio desprovido de rigor analítico.
Um velho mito, ainda vivo em regiões distantes dos grandes centros ou em famílias retrogradas e ferrenhamente religiosas sob o manto sagrado da família e da tradição, é o mito da virgindade.
A mulher-coisa não é dona da sua vagina, e além desta catástrofe de não poder usufruir as deliciosas possibilidades de prazer advindas da sua vagina, seu direito natural, pois é seu corpo, contam com o olhar de censura e o indicador riste e severo do poder público que a vigia do alto de sua hipocrisia.
Temos também os mitos da mulher solitária, a misantropa cascuda, da louca por conta da abstinência sexual, da mulher seca, da vítima, da lésbica traumatizada e uma infinidade de rótulos perturbadores.
Diz a língua da tradição da sagrada família, que se uma mulher não se casa, ela fica louca. Claro, a infeliz da mulher-coisa cresceu sabendo apenas que seu papel e função social eram ter um marido, uma casa, e filhos. E ilusão quem pensa que isto mudou, continua sendo o sonho de muita mulher que se dizem “moderninhas” e mesmo para as que são, elas viram que neste conto, apenas aumentaram mais um ponto, como a jornada tripla de trabalho. E não nos esqueçamos das que se casam, e são infelizes, mas o medo da solidão, da miséria, do trabalho, da condenação da família e da sociedade as mutilam para a possibilidade de uma vida plena. Também pudera, seu king Kong está morto.

10.11.08

Do meu lado da cama


Ao lado, do meu lado da cama eu “queimava” de desejo em silêncio, confusa e só, mesmo ele estando na cama comigo, do lado dele. Chorava baixinho, angustiada, triste, crente de seu amor, de seu desejo por mim, mas sabia que, embora ele estivesse ali, do meu lado na cama, ele estava ausente há mais de dois meses. Eu caminhava pelo parque e pensava na situação dele, nada poderia fazer além do que já estava fazendo. Outro dia, na cama enquanto acariciava seu rosto eu sussurrei para ele que eu não tinha a cura para o seu mal estar, que ele deveria procurar alguém para lhe ajudar, pois eu não sabia mais como. “Sabe o que é desejo dolorido?” Lhe perguntei outro dia e respondi gritando e chorando: “É chorar de dor por desejar muito você dentro de mim, saber que você pode, mas que está perdido no seu mundo. Eu me masturbo pensando em você, e você está ao meu lado na cama, dormindo. Por favor, procure ajuda” Ele baixava os olhos, me abraçava, dizia que me amava, que eu era linda, que eu era tudo para ele. Mas, eu não queria ouvir aquelas palavras, eu não queria saber de culpados, o que eu queria ele não me dava. Meu corpo não agüentava mais a falta de sexo, estava ficando confusa, abalada emocionalmente, distraída, não conseguia me concentrar em nada. Estava comendo tanto. Outro dia, todos os dias comendo chocolates, mas outro dia comi tanto que meu organismo expulsou de forma violenta o excesso. Não pude ser fiel enquanto ele "cultivava" sua dor. Fui leal no meu apoio e compreensão, mas caso eu sufocasse os meus sentimentos e desejos, eu trairia a mim mesma. Então, não foi possível ser fiel.
Penso que numa relação sempre haverá a suposta traição (num contexto onde este termo faça sentido), pois se não for trair o próximo, trairá a si mesmo, portanto sempre haverá traição. Uma cama e dois mundos. Dois mundos e muitas dores, umas físicas outras existências.
Enquanto ele dormia, eu velava seu sono, agasalhava seu corpo, diminuía a luz do abajour para não lhe iluminar os sonhos. Deixava o quarto, feito felina de vida noturna, e descia as escadas, tomava água gelada, banhos frios, afiava nas minhas coxas as unhas para a carne dele, gozava e chorava por desejar ainda mais o corpo alheio! Outro dia fiquei parada em frente a uma gôndola de mercado e me esqueci do que iria comprar. Outro dia um homem veio me pedir informações e eu não entendi o que ele queria. Muitos dias os carros buzinaram atrás de mim para me avisar do sinal aberto, outro dia, outro dia... Eu sei o que acontece em meu corpo com a ausência de sexo, sei o que acontece na minha mente e sei que não era responsável pelo que acontecia com ele. Não caço bruxas, jamais!Eu não me maltrato e não me traio, não me nego os outros, me sensibilizava com a situação dele, mas não me ocupava do problema dele, muito menos o transformava de forma subserviente em meu.. Tampouco o acusava, o ameaçava, o amedrontava. Eu tentava entender seu silêncio, sua ausência, seu desejo de estar só e fiquei com ele. Mas nos braços de outras e de outros eu me curava dos meus males físico, e voltava para ele, insustentavelmente leve.

18.10.08

meu hemano


Recebi o poema abaixo de um argentino:

¡Qué risueño contacto el de tus ojos,

ligeros como palomas asustadas a la orilla del agua!

!Qué rápido contacto el de tus ojos con mi mirada!

¿Quién eres tú? !Qué importa! A pesar de ti misma, hay en tus ojos una breve palabra enigmática.

No quiero saberla. Me gustas mirándome de lado, escondida, asustada.

Así puedo pensar que huyes de algo, de mí o de ti, de nada, de esas tentaciones que dicen que persiguen a la mujer casada.

Jaime Sabines

16.10.08

ELE GOSTA DO MARQUES DE SADE, SOU ANTI-JUSTINE



Corri de sua retórica alucinógena! De seus desejos trágicos.
Não seria eu a lhe presentear com o suicídio.
Ele é um lorde, um vampiro pós-moderno sem presas, sem imortalidade e que anda entre trabalhadores. Um ser assim já tem nome em psiquiatria, mas eu não aprecio rótulos e me encanto demasiadamente com homens inteligentes.
No discurso, suas presas mortais. Um filósofo libertino em tempos líquidos à procura de uma Justine para lhe presentear com o suicídio.
A causa do meu interesse neste homem era ele me lembrar o primeiro homem que gostei e nunca tive. Tudo nele me lembrava aquele garoto de 17 anos de uns tempos antes - como se rotula em psicologia - transferi de um para outro minhas vontades recalcadas. Por isso percebi o garoto no mestre. E do mestre, percebi meu pai, o doutor sádico que me graduou em “Como reconhecer um vampiro em todas as épocas”.
O primeiro toque de prazer que o lorde me deu foi com palavras. Homens inteligentes vão direto ao meu “ponto G”, o ouvido. Ele nem precisava criar situações para me envolver, mas deixei, queria entender seu modus operandi.

Foi uma tarde ordinária aquela do nosso único encontro. Almoçamos e conversamos coisas que nem lembro e não estava afim. Depois do café, em sua casa, recitou Roberto Piva. Não me sensibilizo com Piva. Em se tratando de poesia precedente, prefiro as escritas com útero e volúpia, cheias de dor existencial e ditas de forma menos intelectualizadas, mais intuitivas. Nada efetivamente contra Roberto Piva, a questão é a ocasião. Melhorou quando ele terminou de ler e colocou um CD dos Los Hermanos. Poesia que me toca, enfim.
Nos beijamos (ele tem uma boca macia, quente e sua barba cheira a camomila), tirou minha blusa calça sutiã calcinha e quando dei por mim estava me contorcendo de prazer, mordendo os cantos de seu travesseiro.
Nossas mãos possuíram o corpo um do outro e entre abraçar lamber arranhar torturar, ele me invadiu sem religiosidade. Falava enquanto trepava, falava obscenidades, de outros homens e mulheres que eu poderia querer, trocava meu nome, puxava meus cabelos e me invadia voluptuosamente, como um sem-terra.

Como teria sido com aquele menino de 17 anos que tanto quis e nunca soube o sabor?
Ele brochou por conta dos antidepressivos (os vampiros tradicionais tomam sangue para aliviar as dores), então conversamos sobre coisas, bebíamos algo e ele se recuperava. Os homens não devem temer nem se envergonhar das suas brochadas e as mulheres não devem ficar melindrosinhas por isso.
Quando ele gozou, percebi uma nota em seu olhar, causou-me angústia, algo que não se encaixou no discurso, nem nos movimentos do corpo, nem em absolutamente nada da nossa brevíssima história. Mas encontrou a resposta em meu banco de dados de referências sadianas. Algo que ele não me disse e não fez. Mas seus olhos disseram e eu entendi. Este olhar me assustou, me fez recuar, me deu forças para dizer a ele palavras duras, atitudes tolas e ridículas, só para ele desistir de mim enquanto eu lutava para que meu cérebro vencesse meu corpo, que pedia mais.
Ele é atraente como um precipício. Paralisante como uma serpente. Estava na berlinda olhando para o fundo do penhasco e ele para mim. Pronta para me jogar e morrer.
Fui salva pela minha perspicácia e experiência de saber que tal homem exigiria toda minha sagacidade e atenção. Isso cansa e em algum momento a guarda enfraquece. Melhor evitar o convívio.
Num brevíssimo instante, antes de compreender totalmente o vampiro no libertino líquido, confesso que me apaixonei. Já havia nele percebido o perigo vampiresco, mas somente depois daquele brilho em seus olhos vi meu pai. Então tomei ciência de que tipo de vampiro se tratava.
Sou forte para saber que homens assim não me destroem mais. Porém, ainda me arranham. Não quero esse tipo de relação que é queda. Seu jogo é demasiado cansativo e perigoso. Eu só quero prazer.
Fui criada por meu pai, que me graduou em: Como reconhecer um vampiro em qualquer época.
Agradeço o que eles acrescentaram em mim. Questiono o quanto me contaminei, eles gostam do Marquês de Sade, EU SOU ANTI-JUSTINE! Quero escolher isso, mas é possível?

12.10.08

tribadismo ao entardecer

Sem dúvida: o entardecer é o momento dos amantes.
Infiéis e pecadores, gulosos e sem vergonha. Malditos apaixonados sem compromissos.
Gemidos sinceros, gozos intensos.
Cuidados extremos e nem tanto.
É meu horário. Minhas verdades. Meus gemidos suados, meus risos safados.
Olhos arrepiados, pele brilhante.
Ontem à tarde, minha primeira vez com a ela.
Nos conhecemos em meio aos livros, logo que a vi, senti uma necessidade extrema de saber qual era o cheiro entre seus seios. Aqueles cabelos longos me enlouqueceram, sua pele fresca e branca com pelinhos dourados me fizeram salivar, sem falar do olhar, da boca, da promessa dos seios oferecidos e do segredo entre as pernas.
Eu não sabia que ela gostava de transar com meninas, pois tão feminina , delicada e suave não pude perceber de imediato. Mas ela falava sobre livros, livros me cativam e quanto mais ela falava, mais eu me envolvia.
Queria saber mais. Mais.
como encantá-la?
Depois de algumas semanas entre mensagens de texto por celular, e-mails, cafés, ontem à tarde foi nossa primeira vez. Fui até sua casa, conversamos, bebemos e nos beijamos. Eu estava tonta de tesão.
Ela usava um vestido abaixo dos joelhos. Adoro mulher de vestido e descalça. Depois dos beijos, dos toques mais ousados, das atitudes mais urgentes, ela tirou minha blusa e eu comemorei o sinal verde. (risos) E fiz algo que só faço com as mulheres, pois somente as mulheres me remetem as delícias de um parque de diversões, seus cheiros de algodão doce, seus sabores de maçã do amor e suas roupas como embrulhos dos presentes de natal. Só quando dispo uma mulher sinto a empolgação da surpresa.
Subi seu vestido devagar enquanto beijava suas coxas, passava as mãos entre as pernas, ameaçava um toque mais íntimo, deslizava em seus contornos para finalmente tirar-lhe o vestido e contemplar a beleza livre da carne em tons.
Puxei-a para a ponta do sofá, e depois de ameaças excitantes, finalmente minha boca estava onde eu e ela tanto queríamos. Passamos uma tarde no sofá, no tapete, na cama e sob a água do chuveiro. O cheiro entre seus seios é algo que me fez perceber a urgência e o delírio dos viciados em heroína. A beleza íntima rosadinha entregue a mim, os sons e as caras de prazer que ela fazia, seu olhar após o gozo...aiii
Eu aprecio a luz durante o sexo. Adoro olhar nos olhos e ver o que as palavras não podem expressar. O olhar de cada um quando goza é um espetáculo singular. Poder observar os pelos eriçar ao toque, ver a cor do rosto se transformar em tons afogueados, eu sei, nenhuma luz é mais perfeita para se apreciar tal beleza humana, que a luz do entardecer.

7.10.08

Inquietações de uma rainha do lar

Ainda não conto trinta anos de idade, porém hoje, diante do espelho, percebi e senti intensamente o descaso que dedico a mim. Percebi camadas sutis dessa armadilha que me coloquei e ainda me prendo.
Estou cansada de conviver com ele, mas ele não me deixa ir e eu não me deixo viver e descobrir a coragem que tenho. Não estou com ele, mas também não estou comigo. Como posso ir? Ele me prende com doces, sorrisos e conforto. Ele percebe minha aflição e a ignora ao me fazer rir de outras coisas. Sua gentileza me pesa, sua bondade me causa náuseas, sua perfeição humilha. Eu quero ir embora, ele não deixa, e eu fico cada dia mais fraca. Talvez ele saiba dos meus outros amores, mas nada diz e nada questiona. Sua atitude parece ser a de perguntar o mínimo para não descobrir a mulher que sou. Ele nada pergunta! Ele acredita em todas as minhas mentiras repetidas. Sua suposta perfeição e gentileza estão me sufocando.
Tem um dedo que castiga e tenda me culpar da forma mais sutil e desinteressada quando me acaricia. Mas que culpa posso assumir? Nasci assim, incapaz de amar e de estar com apenas uma pessoa, incapaz de me fixar. Sou desejosa de aventuras, de novidades, de outros sons, de outros corpos e percebo agora, diante do espelho, que desejo, além de tudo isso, erros e loucuras de homens e mulheres reais.
Ele não me deixa ir e já me pergunto se quero. Prendeu-me num castelo seguro e belo que possui tv a cabo, internet, geladeira cheia. Ele me deixa sair quando quero, mas sou obrigada a voltar, e quando volto vislumbro no caminho meus medos e fraquezas ao mesmo tempo em que a dor grita liberdade-e-coragem quando enfia as garras no estômago. Ele me prendeu com a ideia de segurança e eu barganhei minha liberdade por essa ilusão. A angústia se serve de mim, não posso corresponder a esta vida proposta, a esse uso do tempo e do ser alheio, tampouco posso permitir que me use. Não posso ser sua esposa, não posso ser a mãe de seus filhos, não posso e não quero ser rainha deste castelinho feliz com tv a cabo, internet e geladeira cheia. Quero ir embora e ele não deixa. O que sinto por mim quanto olho no espelho me enoja, pois estar aqui é compactuar em ação com este horror velado que se apresenta com olhar doce e voz suave. É um jogo que eu não dou fim. Já tentei fugir, mas ele foi atrás e me mostrou as conseqüências do mundo e como ele é feio, promíscuo, perigoso e como eu teria trabalho em cuidar da minha vida, que eu não conseguiria cuidar de mim... Ele me traz de volta a ele usando minhas fraquezas, usando seu carinho e sua doçura. Ele tenta me convencer disso todos os dias. Viciou-me em aconchego quando prepara e me serve o jantar, viciou-me com elogios e me deifica como a imaculada de seu santo lar. Sou o contrário disso! Ele é sempre tão nobre e correto. Eu sou relapsa, desleixada por não me importar com o castelinho. Mas o que fazer se eu odeio o quarto do casal, a cama do casal, as festas do casal, a função do casal, as confraternizações obrigatórias de final de ano em que a família deve estar unida? Odeio, ODEIO a função da rainhazinha do lar, mas odeio ainda mais minha servidão voluntária.

29.9.08

Ambigüidade.

Sobre meus afetos digo:

- que gosto do corpo feminino, pois me remete ao deleite dum parque de diversão com seus doces, seus caminhos convidativos e brinquedos delirantes, pelas emoções e sons durante o sexo, pelo riso e o olhar de desejo, pelo afeto e acolhimento quando gozam. Mas que fujo delas quando se transformam loucas.

- que gosto da força do corpo masculino, das mãos que me apertam e levantam pela bunda, da aptidão em mensurar força, fúria e desejo quando me penetram. Da racionalidade e linearidade no convívio. Mas que fujo deles quando se transformam cruéis.

Não posso estar no mundo sem os dois afetos, mas não posso conviver nem com a loucura e nem com a crueldade.
No entanto, será que sou eu a deixar as mulheres loucas e os homens cruéis? Não pude deixar de me observar neste jogo. Posso eu então, fugir deles para que não testemunhem minha crueldade e loucura? Talvez sim, pois sou tão louca e tão cruel quanto meus amantes. E isso não é retórica, é fato! Sou perigo, posto que sou fogo e em quase nada meu coração entrego.

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