27.7.17

azul lâmina



tento ser descente. tento não pisar na goela de ninguém. tento não apontar o dedo para nenhum coração. pisar em nenhum passo. tento. até doer. não interfiro. eu tento! não maltrato. eu tento. deixo a coisa ser. até doer ao extremo. mas liberdade é algo além. algo feito para nós sermos mais. e tento não interferir no que possa ser. a escolha não é minha sobre o que você escolhe. é sua. e doendo ou não eu sempre vou respeitar. e você vai arcar com suas escolhas. simples não fosse tanta mentiras agarradas. mesmo que esse nó insista. não forço. não vou te obrigar a absolutamente nada. mas é verdade que te dou tudo isso para exigir que me de também. espaço. ausência. silêncio. partida. fim.
tudo muda. tudo passa. tudo nasce para ser outras coisas e nunca parar de ser. mesmo que a coisa que vire não seja o tipo de coisa que quero pra mim. mas é preciso respeitar a coisa no que virou e lidar com isso.
não me dou nem o direito a mágoa. seria uma contradição cômica, você não acha? mas tristeza eu posso sentir. mas não é bem tristeza também, é aquela coisa nova que o vazio trás e assusta a gente. esse recomeço de como olhar para isso que era uma coisa e agora é outra? nada que se quebra se refaz. ou lidamos com as fissuras e buscamos nelas sentido ou chega.
e foram tantas fissuras-poréns em domingos fartos e alegres para contrabalançar com outros domingos onde o silêncio aperta a caixa torácica e o fato te dá um soco no estômago e você tosse para vomitar e nada sai. tremedeiras. falta de ar. suo pelos olhos um líquido deprimente e patético como são as relações humanas.
relações de um suposta devoção. de uma suposta cumplicidade. de uma suporta doação. o amor vira esse verme que derruba seu sistema imunológico e te expõe as vespas. as moscas ávidas pelas tragédias na carne alheia. e você descobre por que chorou no instante que nasceu. a maldição de estar só entre todos e saber que sempre quem vai te dar uns tapas é quem te doa a intimidade da sua existência. inequivocamente. 
e será que amar o próximo é isso? saber que em algum instante qualquer desta relação o punho fechado chega no seu estômago?
e que parte sou eu que fecha esse punho e o trás para socar em cheio?
"tudo vai ficar bem" ela diz. mas eu sei que só ficará tudo bem [ao menos para esse amontoado de coisa que sou] se eu estiver ausente. quero estar ausente. diante de uma mata fechada ouvindo apenas o som daquelas vidas.
sou um ser líquido que só se faz presente nos fluidos dos corpos. que só existe para o próximo em aranhões dos toques afoitos e o enxerga apenas em tons de vermelho.
mas agora que estamos com nossa pele azul. que meu corpo está frio para você, só consigo pensar como criamos esses punhos serrados e damos o mapa certo da nossa anatomia.
primeiro faltou o ar. depois as vistas suaram quentes. então a garganta e o estômago não entendiam se era tosse ou vômito. e meus pés me levaram de um lado ao outro desta ridícula sala onde oferecemos o melhor de nós.
e me pergunto para que vivemos? para interagir com esse próximo-punho? para entender que tipo de merda nessa bosta de vida pode ser comida?
"respira.
senta.
toma água.
ouça minhas mentiras que elas vão te acalmar."
mas eu gosto de verdades que doem. que fazem a mediocridade das relações se tornarem outras possibilidades. não cozinhe mais suas mentiras e não me force a comê-las nesse faz-de-conta de todos os dias. e se a graça está no caos? mas você não entende. e entendo que não entende. não sei viver essas histórias que você sonha. mas também sei que ninguém sabe e que tantos tontos também sonham. o problema não é estarmos todos perdidos. é a farsa. é a negação. é o medo. é a segurança.
e se insistir em continuar cozinhando meu cérebro, picando meus pés ou refogando meu coração nessa sua receita de vida perfeita, vou te mostrar como sei fazer cicatrizes na minha pele enquanto deixo você brincar assim comigo.
não nasci para ser a atriz do seu banquete.

foto de Mariana Meloni




e se eu me aninhar no seu abraço e deixar o dia passar?
e se você me contar um poema para eu esquecer?
hoje estou sábado e sinto sede
olho. te abraço e suplico 
foda-me com amor
e você mente tão bem para mim
e fico contente
de novo
foto ale safra

vulva-se

já vai além os olhos da mulher
num mar de embaraços e fios
vai além os fios da mulher
num manto ancestral ecoa
uma canção ouvida por todas
além no fio vai a mulher
seus olhos cantam o mar
e o desembaraço ancestral
num manto sagrado de sangue
a tinta gota a gota fia
num mar de palavras ecoa
e todas se ouvem além
vulva-se
vulva-se
vulva-se


a lógica sentimental dos números

quand0 a roda esnoba o movimen7o
o eix8 desesta6iliza e acab2 o n4d4
o fim e o começo
0 temp8 está morto
as coisas fétidas em riscos mofam
agonizantement3 nos olhos sibilantes
um amor nat1morto em um país triste
fitas descol8ridas num dia sem sol
em noite de almas perdidas gritos
a gente costumava parecer
fe1iz às 17 horas
com o nascimentos dos tomates
e o pio de pintinhos ama5elos
e botões de rosas brancas teimo2as
a gente não teve vidas me1hores
nunca fomos descentes
amo3
sempre fomos ma55a num bolo de gigan7es

foto ale safra

corpo aguado

teu corpo aguardo
selvagem
numa tarde papel manteiga
meu dedo nanquim
risco aquele nome segredo
nela casco marfim
onde os olhos não choram?
se a rabisco nessas linhas negras
é culpa sua me arrastar de sede
e ser essa marina
sem mar e de barco boatos

em cada corpo orvalho
oceanos
aqui

foto Ale Safra

sinto saudades de mim e do brasil de pouco tempo antes
antes de queimar minhas papilas e pupilas
antes das aberrações éticas e cognitivas
antes de pessoas virarem martelos

sinto saudades de mim e do brasil de poucos anos antes
antes da ruga que nasceu no meu rosto essa manhã
antes da rusga com o taxista pardo e pobre de direita
antes de sentir a perversidade das mentiras na mídia

sinto saudades de mim e do brasil de poucos dias antes
antes de devolver na prateleira do mercado mais um produto caro
antes de saber que a polícia militar está mais agressiva e ativa
antes de ouvir meu vizinho evangélico gritar com a esposa e usar # bolsomito

sinto saudades de mim e do brasil
não faço ideia de qual voltarei a ver novamente
e se um dia voltaremos, eu e o brasil, ficarmos juntos

sinto tantas saudades de nós

Foto Ale Safra

chamar


afogar em anna
um mar de chamas
se chama anna
ama
chama e amas
na cama anna
ar
no mar de anna
chama em mas
um mas de ares
no mais de anna
clama
calar um mar
de anna chama
sem ar

mais
foto Ale Safra

para marina

"só não rasgo seus livros. mas mordo suas costas, quebro seus pratos, copos e até sua preciosa garrafa de chivas"

ela me disse no whatsapp. e implorei para que quebrasse tudo.
mulher inteligente. esmalte preto lascado, braços tatuados. intensa à insanidade. sexo e batons. sexo e maconha. sexo e tapas. sexo e comédias românticas. sexo e nietzsche, sexo e pipoca com curry, ela tem taras pela mosé e recita de cor o poema sobre o tempo. cabelos de diva. aí esses cabelos vermelhos pesados na minha cara descendo pela minha barriga. aí suas falações apaixonadas sobre matisse. me embriaga e leva meus olhos para onde ela quer, marina dos meus pecados. do meu coração aportado. beijo de amor verdadeiro. minha promessa de maldição quebrada. louca das loucuras mais vívidas dessa terra reprimida. louca das palavras mais sábias desse mar de bosta. louca de uma honestidade avessa aos cusões de terno e minas de cabelos loiros e crachá no pescoço às 12h na faria lima. 

talento para fazer as imagens mais eróticas da minha buceta apaixonada. tão selvagemente apegada aos palavrões disparados pela sua boca de pitanga nordestina.
para você, eu imploro, volta. volta. volta que meu coração tá afundando. volta que meu corpo está febril e em delírio implora pelo seu. volta, fdp, volta e quebra tudo. volta e me bate na cara. volta e me fode com fúria, sua maldita. volta, meu vício, minha graça.


sua

sempre me fiz nua
cada alça caída na cama insone
na madrugada ardida
suada e triste
era por você
me fiz verdade em letra suja
sem saber decorar cartinhas
perfumar intenções como você queria
fui teu brinquedo, não fui,
Perverso
um amor encurralado no deserto da pele azul
onde perdi minha última dose de amor
e morri
fomos o pior de nós
Ale Safra

o caráter de uma nação é o seu destino

jogo cruel de espelhos 
mortandade de direitos
silêncio bestial
do povo
obscenos absurdos
povo roubável povo ladrão
povo manso para o tirano
povo perverso para o irmão
não há vítimas
há desejos
desumanizados
de irmão contra irmão


 ryohei hase

lua-me


quando o mar tocou meus pés
foi delicado. espumante. doce
na sua salgada intenção canibal

o mar de onde vim me reconhece
sente falta da minha metade
deseja em mim ser deserto

em mim o mar caminha
no mar meus medos naufragaram
em seu peito, de tritão, não sonho mais

essa noite de lua calma

e quando a ressaca chegar, o mar, esse mar
cospe meus pesadelos indigestos e volto ser
tempestades

dariusz klimcazak

amar é ato de fé



o amor nunca anda nu
desprovido de destino
sem o peso da maquiagem
sem a mágoa da carne

o amor apertado pelo cinto
adoece os pés num sapato
de roteiro traçado lustrado
o amor sufoca numa echarpe blasé

e não sem sentido, o ato de amar
pede espaço. vento. brisa. infinito
o amor nu com todas as cores
onipresente. onisciente. onipotente
amar é ato de fé

imagem de amy judd

26.4.17

além crime

tem um além ali
que te faz rir
de alegria aqui
um alecrim raiz
em paris adele
acena do cena
e faz biquinhos
aqui, aquém
fotos carry
do seu além
que te faz rir
na raiz azul
do alecrim

anna-me. anna-me
desesperadamente
anna-me
alegria aqui
é annar-me de azul
tocar biquinhos com biquinhos
além aqui aquém aí
e rir de annar-te os ossos
de curry raiz em fotos

um sol paris além
aqui
ale
crim
e

imagem de vincent noir


cu


adorável fdp vcf

vc sempre chega as conclusões erradas. e me exclui. me ignora. depois aparece querendo um café, um cigarro, um beijo, uma
história
nega minha voz
ignora meu passo
desdenha minha língua perde meu mapa
sempre
e diz que me ama enlouquecidamente
você está nas estações erradas e nossos trens nunca se cruzam
mas estamos online e nos esbarramos. mesmo q não seja das nossas vontades
e todo esse draminha classe média p q você conclui excluindo. e suas conclusões são tão firmes quanto cabo de pirulito mordido fincado em
gelatina azul
eu me amo desamando vc todos os dias
nas horas vc sempre diz coisas erradas
brinca. trinca os olhos e descostura corações de pelúcia
só para se sentir com esse poder de libertino broxa
somos duas sentenças erradas
mas você é um porre barato pra caralho
vcf


imagem de laura makabresku

VULVA-SE




11.1.16

Notas do abismo II

christian hopkins

eu: mãe, não se ofenda. vou me matar
mãe: tudo bem, eu não tive como perguntar se você queria, não é culpa minha. tivesse sido outro óvulo, outro espermatozoide eu seria mais feliz
eu: talvez. a vontade sempre foi sua
mãe: enterro ou te cremo?
eu: a escolha também é sua. os meus restos são seus
mãe: farei um pão com a farinha que você for
eu: bom apetite
mãe: obrigada
eu: nada

8.1.16

ela


bate perna
bate o ponto no cartão
bate laje
bate a bunda no chão
bate boca
bate na cara do aflito
só não bate panela
isso não

ela

rala o joelho
rala a cenoura
rala o dedo
rala a vida
rala as vistas
rala agonia
só não rala a cria
isso não

ela

dá no pé
dá na cara
dá de pé
dá duro
dá bronca
dá a letra
dá aconchego
dá o que
e para quem
quiser


ela
pode

ela
é

coração na pedra ferido jazz



se seu amor não fosse essa ponta de faca, te mostraria seu nome, escrito com batom, na fronha do meu travesseiro. miúdo. curtinho. para beijos e mordidas em noites trêmulas enquanto releio suas cartas.

Notas do abismo

foto Ale Safra


Tivesse sido real, poderia crer nas zelosas deusas mimando meus dias com o mais sublime dos espetáculos, um encontro de divas nuas se chupando e gozando enquanto eu, fumando um cigarro de maconha Kosher, apreciava belos corpos de mulheres em salientes línguas ao som de ais e gritinhos delírios . 
Mas era apenas um sonho a me esfregar a realidade solitária às quatro da manhã num corpo quente, molhado e triste.
foto Ale Safra - Santa Fé 12/2015

Alice, me beija
não! as amoras caíram
e nada mais restou avermelhar
o pomar seco abriga a calopsita na gaiola das agonias
outro dia o amor foi uma fruta suculenta e escorreu pelos cantos da minha boca
outro pomar o amor existiu
gaiolas não

7.12.15

face rosada

Gal Oppido

gosto dos covardes quando abrem a boca para as cinzas dos meus cigarros
gosto dos medrosos quando, de quatro, deixam eu entrar
gosto dos fracos por saberem lamber meus pés
e amo aqueles como você, que dão a face e as bolas pra eu bater
você é o cretino que procuro para minhas cordas sujas
sua boca fica linda com minha calcinha dentro
seus olhos na minha venda
te quero arregado
de quatro no ato
a meio caminho do esquecimento

5.12.15

rosa sol


Foto de Ale Safra

ninguém desterrado aventura
te
buscar
entre as pedras do rio,
onde um bafo quente sai deste peito triste,
e além chega, nas tempestades cinzas.

alhures esquecido, um rímel no canto
do quarto flui na pata do gato, rola a lembrança e subto,
ele rouba do felino o tubo negro e beija
até a insanidade das criaturas covardes

abre o objeto e escreve no antebraço esquerdo, abrasa,
enfurecido o nome com x,
e ela, um bafo de si
arisca, as vésperas do rio não chega. e se isolam,
o sol corrente indignado varre o mundo,
sisudo e dolorido por não entender dois
pedantes
idiossincrasias de idiotas que vagam acinzentados pelos jardins
das indigestas cores, o vermelho grita,
incandesce alcova vazia,
uma tarde onde gemem sós
destas mentiras mal criadas

3.12.15

adorável fdp III

foto ale safra


dedo em riste tanque de guerra
aponta. certeiro. dispara no alvo
um coração nu

punho de Muhammad Ali
concentrado. firme e direto
nas costelas de Anna Pavlova

caminhão de toras carregado
sem freios. sem filtros
sobre o peito de Anna Karenina

uma mordida de tubarão
dilacerante. esquarteja
o voo do albatroz de sobrancelha


tantas são as formas de contar
como seu amor me faz morrer

19.11.15

estrelas caladas

imagem evgen bavcar

se há tarde 
quando quente
no dente de leão salta
o mar vira consenso
entre os seios dela
terra desgarrada gota
universo oceano e nada
onde toda pergunta nasce morta
do pó das esfinges fuzilantes
nenhum clarão rompe
e nego. o naco. a morte
um sopro semente
o dente
seus olhos,
sua pele rede
o vazio das esferas
a inflexibilidade das virilhas
o mar e o multiverso
sem respostas só deserto
vivem de mim
desta experiência não autorizada
de mim
que me faz areia
e o leão mostra os dentes
e ignora pergunta natimorta
por fim, nada mais interessa




14.11.15

te prometo o instante

Dia Branco - Geraldo Azevedo

não aprecio a constância, dama ordinária de perfume barato. constância é esposa do hábito e ambos, criam o tédio e o ranço. uma família a devorar originalidade no café da manhã com mingau de maisena. dessa família que cheira a peixe frito em óleo velho, constância é a que me irrita, pois se impõe a marcar território, chatice com ares sebosos de posse mimosa.
esse casal pratica o sexo enfadonho, óbvio. manjado. e me repugna. o ninho do casal é um micro hospício entre lençóis a fingir, na demência cultivada pela criação do tédio e do ranço, serem o que já não são mais: amantes.
esse casal me convida para suas loucuras, e os recuso por saber ler o que não veio no convite.

constância mata em nome do amor mais pobre existente no mundo. mas não se importa, é sábado à noite, se perfuma para ver o hábito, que surrado em seu traje de passeio, segue o condicionamento se sopa então colher.


mas lisbeth salander, a mulher de asas castanhas me encontrou no metrô, me fez voltar a acreditar nas deusas que zelam pela sanidade das peles aflitas, que ardem arrepiadas.

linha vermelha. centro. ela tem os cabelos curtos. olhos de lago desses raros que sempre fazem querer mergulhar sem temer as pedras. lápis pretos que reforçam as margens de onde desejo me afogar.

lisbeth salander não quer saber de quartos seguros nem de tempo para preliminares. eu não acredito em milagre. "você sabe o que eu quero e eu sei o que você quer. nós queremos. nós podemos." agradeço as deusas pelo aviso de que nem tudo no mundo está perdido em lençóis amarelados, corpos encolhidos pelo susto do mundo ou desprovidos de humanidade.

ela tem uma cicatriz pequena sobre a sobrancelha direita que desejo beijar. age como a passarinha pequena e ligeira que é, sem medos. nem dúvidas. sem meandros ou necessidades. nenhuma aposta. nenhuma escolha. só o instante. a atração e o contato agindo. "eu vejo você". um canto. conto. o silêncio e o tempo de nos virarmos do avesso pelos becos do metrô, invisíveis na cidade que tudo absorve e perdoa. renova e pari. desfaz e alivia.

lisbeth asas de pardal. me da de presente a visão do alto. é dessas singulares gentes que transbordam na raridade das coisas aéreas e me transforma. me deixa uma marca no seio esquerdo e outra no ombro direito. me apaixono. amo. desespero. gozo e o aviso de que o metrô logo irá encerrar suas atividades deveria nos separar. mas ainda não é hora. voltamos pra rua.
ela não pediu whatsapp e facebook. e foi um alívio saber que ela era ela. não fez perguntas pessoais, apenas saber como eu via algumas coisas sobre o mundo, as pessoas e sexo e mais sexo. sua androgenia é a beleza dos enigmas. silêncio sobre si e desprendimento de tolices viramos bebidas, dividimos cigarros, achamos mais uns cantos todos bem distantes de onde o casal constância e hábito foram jantar arranjados no encaixe social. 

Lisbeth é deusa encarnada a me ressuscitar na madrugada quente.
o metrô reabriu. e não demos beijos de despedida. nenhuma promessa.

fazia tempo que eu não desejava ficar para desvendar o suficiente.
te guardo até reaparecer em poesia, lisbeth salander. você foi meu dia branco.


3.11.15

o abismo de dona dora

evgen bavcar


pratos plásticos ofertas abrigam
banquete às frustradas formigas
patrulham sem encontrar açúcares
em mesa farta de olhares ocos

balança nos ombros um sonho não vingado
da floresta festim pelúcias amontoadas
simulacro em choro com chupeta embala

antinatural perder uma potencia de vida
c'est la vie? pertence ao mistério?
o que não há respostas azeda
e enreda a queda de dora

alimento petrificado no seio da ira
tal qual a seiva da flor plástica
ao lado do pinguim da geladeira

depois de perder os pais, o filho e o amor
decidiu 1,99 plastificar a casa
e nada mais adoecer, nem se acidentar

mas o choro não abandonava o bebê
e dora em desespero levou ao médico
implorou ajuda. gritou. quebrou. desmaiou

não entendem o abismo de dona dora
que não voltou mais a singular casa plástica
sua dor foi condenada a morte pelo estado
em doses. por pílulas. até ela ser uma boneca





28.10.15

nada, amor

foto ale safra - camburi/sp 

espuma-me maresia
mansa manhã sal
daquele mais merecia
o sol insana horda amante

mela-me onda turva,
que farol ventre amo
na espuma-pedra,
tempestade em balde de brinquedo,
o sol não clama

e se lançar-me teus cantos ondulados
: arranca essa rede dos meus cabelos
jogada para me afogar no asfalto
somos oceano e areia
em todo caso, nenhum se ergue parede

salina-me
mulher renque luamar
melanina aquele mais merecia
o sol na ponta da isca fisgar um mistério
há mais

14.10.15

ocos

dariusz klimcazak


orcas velhas apartadas do negro de si
brancas cinzas navegam desorientes

ratazanas ávidas pelejam em margens excludentes
passantes ignoram restos e realidades

orcas velhas e ratazana ávidas rasgam os dias
insistem resistem na mudez que não muda

inaudíveis náufragos afogam em canteiros plásticos
o amor é um pardal e doa-se às formigas vermelhas

o invisível é das forças mais brutais dos dias normais
e as palavras só dão conta se nada falam

o invisível roubou o negro das orcas velhas
o invisível roubou das ratazanas ávidas o dia

para o náufrago a rosa plástica tem o perfume da posse
mas nada sei sobre o suicídio do pardal



28.9.15

e s p e r a r

Evgen Bavcar

esperar que o vestido desça pelo corpo
e a maquiagem não borre nos olhos
os cabelos obedeçam os dedos
e os sapatos não machuquem

esperar o fim da cirurgia
esperar o pagamento
esperar o tempo do alimento cozinhar

esperar seu olhar encontrar o meu
o beijo arrefecer a ira
dar paz ao desespero do meu corpo

esperar o sim do cliente plástico
o fim do expediente na sexta-cinza
sobreviver a cidade feira

esperar da palavra o não estilete
a furtar furar ou afundar
o pato de borracha da minha existência

esperar não me perder das horas
do calendário ou o assunto da roda
esperar um passo sem obstáculo

esperar os resultados dos exames
da reconciliação. da mensagem
do dia especial me contemplar a sorte

esperar o “tudo ficará bem vai dar tudo certo”,
deus ficar comigo e pensamento positivo
ser concretude neste mar de gente

esperar a insônia passar
a madrugada não libertar fantasmas
a pele deslembrar sua foto

esperar poema chapa
palavra carne manga
brisa cheiro chuva

esperar o amor perdido se perder
o fim das obrigações de uma crença
a caverna do seu quarto me abrigar por uma noite

e s p e r a r a luz não acabar
a água voltar
o mistério não ser revelado

esperar estalactite cardíaca
se romper e cravar meu estômago
perfurar meu intestino
e dormir







19.9.15

tias


Dariusz Klimczak

magras pálidas
olhos palha
velhas ceifeiras
secas capim
acéfalas corujas
beatas ratas
baratas bando
buraco fim






16.9.15

voar parede

Dariusz Klimczak


passarinha cabelos papel
quero renascer do meu ventre
sua alegria nunca vestida de azul

teus ossinhos de grisalho fio
abraçam num esforço já humano
o passo. a caneca. a colher. a filha

bala-me seus olhos verdes
queda-me seu passo tonto
cai em mim aquele tempo

minha fé com osteoporose
não concebe o abismo
da partida do seu cheiro

asa-me, pardal
com seu voal entardecido
em penas graves

26.8.15

a firma agradece a preferência




cara cinza língua asfaltada
marcha o terno asséptico
rumo a empreitada
defender seu assassinato
ao bater o ponto
lá na firma dos desesperados

carros fechados olhos travados
ternos desternurados guiam
sem contato com a rua
para chegar limpinho na firma
ouvindo ladainhas no rádio
de como se comportar no trabalho

o terno e outros ternos em bando
criam os megatrânsitos também nas calçadas
no almoço dos assalariados de luxo
falam todos gravatas. falam todos biscates
um coro protegido a rir igualmente
amarelo cinza medo da rua

o terno é só um terno que viu 
uma menina de bike na rua
e do susto brutal se brutalizou
como pode? grita o terno:
como pode usar a rua do meu carro?
ao terno não cabe coexistir. não cabe existir

o terno escuta o som da rua, mas a tv mandou temer
é da firma-apê. do apê-shopping
do shopping-carro-apê
o terno cinza não sabe o que ser
e rosna com seu carro. rosnam os ternos-carros
rosna para ninguém sair do cabide do armário

13.8.15

punhal de rosa prata




uma flor se abre em
livro exposto ao meio

a
li
nha
va
me

parede. pote. concha. copo
linho. lenço. lanço. me

cos
tu
ra
nos

papel. vento. universo
qual céu abismo

ga
i
vo
ta
se 

caixa torácica sapato
passo pulsa agudos 


6.8.15

bibelô

Foto Ale Safra - Instagram: ale_safra

era para ser a princesinha do papai
mas se tornou o bibelô do tio
e depois virou a cabra negra
e tocou o terror na família

primeiro matou de susto o avô
depois o tio com navalha do pai
e por fim a mãe e a irmã
com tubos de ketchup

do pai desejou viver feliz para sempre
mas ele preferiu a corda 
no tronco da árvore seca

17.6.15

POESIA AGORA - MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA


Um texto meu foi indicado para fazer parte da mostra Poesia Agora, no museu da Língua Portuguesa, pelo gentil e talentoso Frederico Barbosa, e agradeço muito essa consideração.

Estou muito curiosa para saber como ficou sua apresentação ao público.

São muitos os poetas no projeto e quero ver o trabalho de cada um.

27.5.15

retirante de nós

foto Ale Safra


há em você a seca
a nos encharcar de pó
poças trincadas de sol
precipícios abortíferos
num coração de nós

o sol alumia essa bruaca
vazia de seiva e cores
para tudo um não ser

sua casca não abriga insetos
suas raízes estão cristalizadas
em que momento aconteceu 
a poda do seu abraço?

um lenhador rouba frutas de muitos
e a fruta que deixa de ser
mata o sonho de fome







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