O que é ser uma mulher? Confissões e questionamentos sobre o feminino. Textos inspirados na literatura filosófica libertina do século XVIII Francês. Em Anaïs Nin, Simone de Beauvoir e outros homens e mulheres nus.

10 Março, 2009

Domingo de clássico


Ontem seus olhos me despiram. Seus dedos correram pelo meu ombro, brincaram com meus cabelos, entraram na minha boca enquanto eu, sentada na cadeira da cozinha, fingia a paz que não tinha.
Um domingo ordinário, uma mulher atrevida e uma cozinha em ebulição de cheiros e sabores.
Enquanto na pia eu cortava legumes, atrás de mim ela se insinuava, cheira minha nuca e dizia sentir vontades de mim. Redobrava a atenção para meus joelhos não dobrarem diante dela, ou simplesmente para eu não cortar os dedos trêmulos.
Era verdadeira a recíproca: eu correspondia a toda aquela volúpia. E minha imaginação corria sobre a mesa, sobre cadeiras, sobre o chão.
Mais uns instantes e ficamos sozinhas. Desde que ela chegou com o primo do meu marido, nossos olhares contaram com a proteção dos óculos escuros. Eles não sabiam da nossa paixão. Eles não poderiam saber. Foi tão fulminante e se deu no mesmo instante em que nos conhecemos.
Depois de um quase flagrante fazia um mês que não nos víamos, que demos um tempo. Mas depois de tanto evitar, naquele domingo de clássico de futebol foi impossível separar nossos maridos. Torcedores fanáticos que queriam ver a estréia do fenômeno. E para um dia tão especial: churrasco.
Sempre fui vegetaria e avessa a futebol. Mas adorei quando eles saíram pra comprar carvão, carne e cerveja.
Eu e ela. Impossível separar nossas bocas, segurar tanta vontade, acalmar nossa respiração. Era tanta vontade, saudade que quando demos conta estávamos no sofá da sala, abraçadas, loucas uma pelo corpo da outra.
Queimamos, queimamos a torta salgada no forno. Deixamos o mundo trancado pelo lado de fora. Paramos o relógio e só nos demos conta de tudo quando nossos corpos sedentos foram refrescados pelos primeiros prazeres.
Uma buzina ao longe nos deu noção do risco. Corremos.
Quando eles chegaram do mercado eu socorria a torta e ela, no banheiro se refrescava. Eles não perceberam. Eles nunca percebem.
Durante o almoço nos estávamos falantes, alegres e bebemos vinho. Sob a mesa nossos pés se tocavam, seus pés me provocavam entre as pernas.
O jogo começa e nossos namorados na sala perderam de ver onde estava o verdadeiro fenômeno. Sentada na minha frente; vestido creme com florzinhas. Olhos que refletiam o fogo dos meus.
Nos separava xícaras, bolo de laranja, queijo, frutas, cinzeiro e jarro de suco. Falamos de livros. Apresentei e li Marcelino Freire. Ela adorou. Tive trabalho para ler, seus dedos driblavam as palavras.
Aos outros objetos entre nós, soma-se o livro. Suas mãos dizem o que as palavras não podem. Ela levanta o vestido, mostra a calcinha molhada. Pede meus dedos entre suas pernas.
Da sala, eles gritavam a cada lance do jogo. Ela suspirava a cada invasão de meus dedos. Ainda bem que cozinha é lugar de mulher. A mesa treme levemente, o guardanapo abafava sua vontade de gritar como eles. Coisas de mulher sempre foram sussurradas, ditas ao pé do ouvido, discretas. Eu avanço, mudo de dedos, armo nova tática, beijo um seio que se oferece depois de dois botões abertos, ela faz barulho, aperto o pano em sua boca, esfrego no biquinho do seu seio, o meu. Pouco tempo para acabar tudo. Ambas avançamos na grande área. Tensão. Tesão. Hummm!
Eles gritam... Vai! Vai! Vai...
É gol. De novo.


1 comentários:

Anônimo disse...

Adorei!!!!

Psi.

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