O que é ser uma mulher? Confissões e questionamentos sobre o feminino. Textos inspirados na literatura filosófica libertina do século XVIII Francês. Em Anaïs Nin, Simone de Beauvoir e outros homens e mulheres nus.

16 Março, 2009

ANÁLISE


essa mulher me espreita e gargalha da minha cara é perversa até na hora de comprar o pão ela só não chuta gato! sem comiseração viu ela vive no meu estômago na azia na dor da raiva nossa mais parece um bolo de sapo que não desce nunca afê não digere nem sei mais o perfume do sol entende falta o ar pesa no passeio da praça sei lá deve ser essa coisa cíclica esse lance complicado de ser mulher O quê?

(um gole d’água, um trago no cigarro)

quando era pequena lá no inferno sabe já disse minha casa meu pai minha mãe meus irmãos tudo sanguesugadaminhavida eu não tinha vida era mortaviva era um troço um lance bizarro entenda eu já disse outra vez eu aprendi a ser uma e a ser outra e agora que sou duas uma briga com a outra lembra que falei da prima aquela que eu transava então meu pai trepou com ela no dia dos catorze anos dela sim ela quis foi sim o cão foi vistoriar a criação ela foi atrás vestidinho sem calcinha e sabia o que queria verdade tô falando ela disse que a rola dele é assim mesmo óh a rola do seu pai e gostosa eu fiquei enjoada mas depois morri de rir eu e ela nossa viajamos da Bahia até o parque do Beto Carrero World era só eu falar pra ela prima diz que quer que eu vá junto se não você conta pra todo mundo que ele estuprou você Sim idéia minha tudo idéia minha eu sei manipular e assim ela fazia e a gente conseguia tudo mas o que eu queria com isso era que ele nunca mais me batesse então eu fiz isso e ela disse a ele que a pinta do pinto que ninguém sabia que o diabo tinha ficaria sabendo se ele não parece de me bater eu coloquei a idéia lá na cabecinha dela e ela fez tudo achando que era idéia dela mas ela gostava de mim e ai sabe com é tudo você entende naquela época era a outra mas bom verdade éramos nós duas interesse comum entende

(mais um trago no cigarro, desvia os olhos para os livros de psiquiatria, a mesa arrumada. Vai até lá e desarruma tudo, só preserva os livros que olha sem saber o que pensar deles)

eu sei você deve estar pensando se me interna ou não mas eu digo que não sou perigo nem pra mim nem pra ninguém ave não mesmo e digo que já vi gente mais perigosa por aí na escola na faculdade depois de pai e mãe sempre digo presta atenção é fato internacional gente pior são os professores bando de filhosdaputa sim odeiam o ofício e o que fazem dos sonhos deles como riem deles essa miséria escraxada viciada tem vergonha quando vão dizer sou professor dizem para dentro descontam tudo nos alunos com um risinho sarcástico eu sei tive os meus odeio todos salvo a prô do pré uma graça de mulher lembro que ela cheirava suor de criança na hora do recreio sonhava ela ser minha mãe coisa estranha eu já disse não gosto nem do meu pai nem da minha mãe coisa mais sem sentido humanos assim terem filhos que diabo de natureza mais doida que deus que nem existe doutor deveria esterilizar tudo acabar com tudo um acordo mundial para o fim da humanidade raça sem propósito nenhum uma grande peste na natureza praga dos infernos viu a foto do urubu na África esperando aquela cagadinha de gente morrer para comer pois é e aqui nesse continente americano a gente inventa tanto para resolver esse vazio esse abismo do peito que direito doutor esse vazio no peito que a gente têm heim O quê? Eu sei não estão na pauta da sessão

(apaga o cigarro, arruma os objetos sobre a mesa e continua ainda sem saber o que pensar claramente daqueles livros de psiquiatria)

Já não tenho mais forças alguma para segurá-la, estou fraca, cansada. É mais fácil entregar a vida. Você não pode garantir que ela seja pior que eu. Ela só quer correr, mandar uns aí tomar no cu. Só quer ser o que sei que somos, é isso. Eu quero matar nós duas. Dispenso todos os remédios, dispenso, obrigada. Não quero dizer mais nada.

3 comentários:

Nanda disse...

Gostei muito desse seu texto e da forma como o escreveu. Fiquei até sem fôlego!! Parece que estou vendo você lendo ele com todo aquele êxtase que coloca... Ahhh e amei essas pausinhas para o cigarro, vi cada uma dessas pequenas cenas com muita nitidez, como se fosse num filminho.
Beijão.

Anônimo disse...

Nanda, tu é uma querida!
saudades de vc.
obrigada!

Jéssica Michels disse...

Gostei de ler um texto sem a correta pontuação. Deu um ritmo gostoso mesmo. Adorei teu blog.

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