O que é ser uma mulher? Confissões e questionamentos sobre o feminino. Textos inspirados na literatura filosófica libertina do século XVIII Francês. Em Anaïs Nin, Simone de Beauvoir e outros homens e mulheres nus.

27 Abril, 2009

GREVE DO VENTRE



Frases, piadas e achismos sobre as mulheres estão em baciadas de papeis escritos por pessoas que supostamente consideramos ao longo da história da razão humana.

Nas rodinhas de conversas ouvimos vez ou outra: “mulher não é amiga de mulher”, “todas as mulheres são falsas, dissimuladas, perigosas...”

No livro sagrado dos cristãos, segundo o Gênesis, lemos: "multiplicarei seus trabalhos e misérias em tua gravidez, com dor parirás os filhos e estará sob a lei de teu marido e ele te dominará." E segundo o apostolo Paulo: "a mulher deve aprender em silêncio, com plena submissão. Que a mulher não ensine, nem domine o marido. Apenas se mantenha em silêncio”. Aristóteles disse: “A mulher é por natureza inferior ao homem. Deve, pois, Obedecer-lhe. O escravo não tem vontade. A criança a tem, mas incompleta. A mulher também a tem, mas impotente”. Não pára por ai, veja o que diz Tomás de Aquino: “O pai tem que ser mais amado que a mãe e merece maior respeito que ela porque sua participação na concepção do menino é ativa e espiritual, enquanto que a da mãe é passiva e material”. E só mais um pouquinho, Pierre Proudhon: “A mulher é uma espécie de meio termo entre o homem e o resto do reino animal. Deve fugir dela quem deseja conservar suas energias corporais e espirituais”. Rousseau: “A educação da mulher será organizada em função do homem. Ela deve tornar agradável a sua vista, deve cuidar dele, aconselhá-lo, consolá-lo, tornar-lhe a vida agradável e feliz. Tais são os deveres da mulher em todo momento”. Segundo Hegel: "a mulher pode naturalmente receber educação, porém não é adequada às ciências mais elevadas, à filosofia e algumas artes."

A lista do achismo sobre as mulheres é interminável, passa de um livro “sagrado” a outro e de um “filósofo” a outro. Além de poetas, artistas e homens comuns. São toneladas de séculos e mais séculos deste achismo pedante e castrador. Mas o que me assusta é o silencio feminino: caladas na faca, no fogo, nas rodas de torturas, na humilhação pública, no veneno, nas mãos de seus maridos. Ridicularizadas, criadas como bibelôs cujo objetivo deve ser atrair o melhor partido que puder, mimadas, infantilizadas, educadas para a menoridade. Torturadas dentro de um corpo que peleja vida, enquanto ela é obrigada aparentar meiguice, delicadeza, gestos curtos, sutileza, leveza e mais um amontoado de tolices que são praticadas para evitar o julgamento social e o julgamento inadequado do suposto marido.

O desagradável deste achismo de tempos, é que mulheres foram educadas contra as mulheres. Brigando entre si por quem consegue o melhor marido, trabalho, quem é mais bonita, mais magra. Qual filho é mais inteligente e especial, qual casa é mais perfeita, qual é mais, mais e mais... em tudo.

Esse comportamento é regra? Hoje pode não ser tanto. Mas rasteja pelo subterrâneo de cada uma de nós, a espreita.

É lastimável que muitas mulheres acreditem nisso e pior, reproduzem isso como se fosse uma verdade universal. Elas não apenas acreditam nestes absurdos como também praticam essa indiferença com a falta de solidariedade e união entre mulheres.

Devemos entender que a base deste equivoco é uma educação que promove a menoridade feminina. Educação para dirimir a unidade feminina e assim, fazer com que elas jamais tomem conhecimento da força que possuem unidas em nome de uma mudança social real.

Já pensou se todas as mulheres de uma nação se unissem para exigir reforma no ensino público, vagas para todos em universidades públicas; saúde digna e de qualidade com todos os recursos; trabalho com salários compatíveis e jornada de trabalho menor; leis e educação efetiva para minimizar a invasão predatória ao ecossistema e a destruição dos vários tipos de vida? Entre tantas outras coisas necessárias! Caso não fossem acatadas estas solicitações justas, simplesmente faríamos todas, uma greve do ventre. Sim greve de ventre, nada de bebes, nada de cidadão, nada de parir gado para esta nação onde floresta vira pasto e poucos comem filet mignon.

Duvido que não acatassem tudo e até mais se fosse solicitado. Seria possível fazer um mundo realmente melhor, mais humanitário se mulher parasse de acreditar que sua vida deve ser sonhar com o tal príncipe encantado, o castelinho feliz e criancinhas fofinhas, num corpo eternamente jovem ao estilo das top models e atrizes globais ou se ao invés de lerem como perder 5 kg em uma semana, lessem o livro Guerras por água, de Vandana Chiva, por exemplo.

O que de fato é ser uma mulher e criar/educar uma menina? O que é ser uma mulher?

Certamente não é educar a menina para ser “modelo-atriz-apresentadora-esposa-de jogador-de-futebol.” Muito menos usar o útero como a um cofre.
É óbvio que homens gostam de “bonecas”, principalmente se jovens e monossilábicas: sim! Claro, existem homens e mulheres que estão fora desta rotina deteriorante para a possibilidade de uma sociedade melhor, mas...

E por que eu me ocupo desta discussão? Porque me atinge, porque prejudica todo o planeta e as futuras gerações. E tais conceitos presente em contos de fadas, na moral cristã, em executivos “perfeitos” ao molde bizarro de Justus e cia. são ditadores cruéis deste nosso adorável país abrasador, onde vivemos e que definem modelos de quem ganha dinheiro e quem não ganha. Em outras palavras, quem pode e quem não pode ter o direito de viver, sobrevive sendo explorado, mão de obra barata.

E então, vamos continuar a fingir "que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes?"
Que carro vamos compar no final do ano?
Se o dinhero sobrar vamos fazer aquela cirurgia plástica?
A crise não é apenas financeira, ela é moral, social, ética... Compromete o sobrevivencia de todo o planeta.
Quero dizer também, para ficar claro, que os homens atuais são também educados para a menoridade. São tão dignos de ajuda quanto qualquer mulher. Eles se aproveiam da herança, muitos deles, sem dúvida. Mas, são nossos companheiros e de forma alguma levanto bandeira contra eles. Caso eu fizesse isso, estaria cometendo o mesmo grosseiro erro. Sou contra o obscurantismo tão bem denunciado pelos iluministas franceses. Portanto, ilustração à todos.


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Dica de leitura:
GUERRAS POR ÁGUA
VANDANA SHIVA
ED. Radical livros

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