10.10.09

Páthos que me ferve

OSTROWER, Fayga







O amor que ele diz sentir por mim é uma mentira. Mentira pra ele, não pra mim. Eu acabei o jogo. Não desisti, nem abandonei. Uma hora tudo acaba. Acabou, eu parti.

Para mim é simples, pra ele é tudo uma tentativa de me forçar a jogar, de me forçar a voltar.

Mas não gosto de me despedaçar. Esse é o intuito desses joguinhos infantis.



Não quero mais jogar minhas pernas ao redor do seu corpo quentinho.


Toda volta tem um preço. Veja bem, quando nos afastamos da relação e depois voltamos pra ela, voltamos pra ceder. Deixar de ser um pouquinho quem somos para agradar quem queremos por perto. Tentamos. O outro tenta. Mas depois de um curtíssimo período tudo volta a ser como antes e simplesmente por que não sustentamos bancar o que não somos.

O cruel disso é que muitas pessoas embarcam nessas relações de tentar mudar o outro. Que peleja mais inútil e descabida.

Como entender tais frases: Eu amo fulano, mas não gosto do jeito dele. Ele tem que mudar pra gente ficar junto; o gênio dela é confuso, ela tem que mudar pra ficar comigo. – O que a pessoa quer com esse outro que não lhe agrada?

Foi assim, ele disse: Te amo, muito, tanto que nem sabia ser possível amar assim, mas esse seu jeito de gostar de ficar e sair sozinha, falar coisas estranhas, essas ideias moderninhas de não gostar das coisas normais, esse seu temperamento que uma hora é uma, depois outra me incomoda, me constrange.

Eu ouço o discurso tentando compreender a intenção daquele ser que diz me amar, mas não gosta de quem sou (de quem ele gosta?) – ele não tem obrigação de compreender quem sou, mas daí a odiar e querer que eu seja outra para mim é bastante sem lógica. Mas a mente passional não é racional. Paixão do grego páthos - patologia - doença. Mente doente, paixão é doença inflamatória que degenera as ideias, a razão.


(doença social aceitável, em excesso torna-se perigoso. Melhor eu encontrar um lugar seguro para morar onde sua mente passional -patológica ignore o endereço. Até que ele compreenda que não tem esperança e assim, cure-se).

Pergunto-me quais são seus mimos frustrados; o que ele projeta em mim; qual é a fonte da esperança que o nutri na crença de que vou voltar?
Mas confesso: às vezes a saudade dói que nem varada de marmelo. E quando busco saber do que tenho saudades percebo: ilusão. Como é doce e fácil viver na ilusão. Ter alguém cuidando de prover sua vida. Percebi que é fácil deixar levar-se neste castelinho-armadilha. È uma ilusão que alimenta outra, quando desmorona vê-se o rombo vazio e tedioso. É fácil ser esposa-mãe e dona de casa; sabemos desempenhar essa função mesmo sob as mais diversas condições a milênios. Porém, emancipar-se das ilusões um caminho desconhecido que nós mulheres vislumbramos a possibilidade agora. São poucas a nos dar notícias desse caminhar para o ser Mulher.


3 comentários:

  1. E eu que sempre fico com cara de patho cada vez que levo um pé nas partess moles e não consigo deixar de ser pato ?

    Abço,
    055

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  2. Corajoso,audaz, forte e verdadeiro. Ressalva para:

    "Como entender tais frases: Eu amo fulano, mas não gosto do jeito dele. Ele tem que mudar pra gente ficar junto; o gênio dela é confuso, ela tem que mudar pra ficar comigo. – O que a pessoa quer com esse outro que não lhe agrada?"

    "Não quero mais jogar minhas pernas ao redor do seu corpo quentinho."

    "Mas confesso: às vezes a saudade dói que nem varada de marmelo."

    Beijos

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  3. A delícia de saber que transbordamos pelas palavras, até escorrer... Fiquei excitada!
    Por isso eu AMO ser escritora!!!
    Talvez tenhamos uma luta armada em breve. Prepare-se para me emprestar sua sombra.

    Chris Sevla

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