3.1.10

Que a graça divina ajude a menina do balanço - Adelle



Todo ano ao caminhar de madrugada pelas ruas frescas faço a mesma pergunta: por que me submeto à tortura de voltar a Santa Fé? Eu não sei a resposta ainda, mas gosto da cidade. É pequena, bonita, larga, cheirosa e bastante verde. Não gosto dos parentes, desses não mesmo. Conviver temporariamente com eles é bizarro. Coisas do tipo ter sapos pulando no meu estômago causando azias monstras e sensação de fadiga constante.

Numa pracinha cheia de encantos uma garota no balanço ignorava os predadores da noite alta.
Chamou-me atenção seus cabelos presos em dois rabos-de-cavalo caídos displicentes atrás das orelhas sobre um pescoço longo e branquinho.
Será que Adelle, minha gêmea morta ainda criança, também iria gostar de meninas? Com essa pergunta minha cabeça rodava enquanto eu ocupava o balanço ao lado.

_ Você não tem medo de ficar nessa praça com o cemitério logo ali atrás? – perguntei sondando seu rosto de no máximo dezoito anos.
_ Você é algum tipo de morta-viva? – retrucou sorrindo e duas covinhas imediatamente me simpatizaram.
Eu pensei na pergunta e disse que talvez eu fosse sim, um tipo vulgar de morta-viva. Ela quis saber por qual motivo e expliquei superficialmente mesclando da forma mais tosca e ridícula filosofia, psicologia, sociologia e ficção literária.

Ela não sorriu. tampouco eu.
Meu olhar correu o muro do cemitério, minha imaginação o pulou e pronto, Adelle ali, tão perto sob a cova que eu ainda sinto como um grito abafado. Depois de tantos anos, seus ossos ainda eram de criança e isso para mim significa que nem em ossos éramos mais gêmeas. Suspiro fundo. A menina no balanço me trás a realidade ao me perguntar se sou filha do diabo. Digo que infelizmente não somos livres nem para escolhermos nossos pais. Nesse momento ela dispara a falar sobre o pai dela. Coisas tristes que gostaria de não saber e não queria mais ouvir.

Balanço entre duas possibilidades.
Primeiro: posso usar tudo isso e engendrar a garota para umas horas de sexo.
Segundo: penso sobre virtudes. Temas cristãos do tipo compaixão. Se me compadecesse poderia até tentar fazer algo por ela, mas fazer nada contra ela também já seria uma boa não-ação? Ajudá-la seria efetivamente trabalhoso, chato e eu não me ocupo da vida alheia, nem de virtudes cristãs. A garota teria que encontrar sozinha uma alternativa. E isso será bom para ela.

Então um questionamento recorrente e irritante me assalta: se fosse Adelle?
_ Qual seu nome? – pergunto baixinho sem olhar para ela.
_ Maria das Graças. O seu qual é? – a ela respondo sem perguntar mais nada.

Olho a lua cheia caindo pela madrugada e resolvo que não farei nenhuma das duas coisas. Pessoas carentes são perigosas demais.
Levanto-me, desejo-lhe boa sorte e continuo minha caminhada.
Enquanto deixo ao acaso outras possibilidades converso com minha gêmea sobre como sentimentos de virtude são falsos, traiçoeiros tanto para quem pratica, quanto para quem recebe e como aqueles que os perseguem nos bancos das igrejas são mentirosos dissimulados e verdadeiramente cultivadores da ignorância.


[trecho de romance em desenvolvimento]

2 comentários:

  1. ah, aqueles velhos e mesquinhos valores cristãos...
    abstrações, termos bonitinhos, altruísmo didático - poderíamos escrever um livro de auto-ajuda com todo esse jargão religioso...

    vc bem poderia ter acolhido a primeira possibilidade...

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  2. suas particularidades me confundem, mas ao mesmo tempo alimentam minha curiosidade em saber QUEM É VOCÊ (literariamente), como se vc fosse um misterioso escritor (ou escritora) que ressurgiu das cinzas - e tudo isso porque vc me lembra alguém!
    mas eu não vou ficar aqui enchendo linguiça e inflando egos (pagando pau)...
    vou simplesmente ler outros posts e descobrir se Adelle, sua irmã gêmea morta, renasceu como seu alter-ego, ou é o fantasminha da sua (in)consciência! tudo isso, além de tudo, é muito excitante e lindo!

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