27.2.10

AuTossabOtagem


O texto AuTossabOtagem fOi incluído no site da Ficções entre os candidatos a edição impressa da revista número 20.

Caso queria ler e comentar, segue através do link

http://revistaficcoes.com.br/conto.php?cod=451

obrigada.

Ale Safra

24.2.10

A Fita Branca - do diretor Haneke

Alda tem uma coisa encardida na pele sem viço, sem cheiro. É tão inexpressiva que não sustento seu olhar, por isso olho pra testa quando fala. E por isso ninguém olha pra ela.

Alda: menos de cinquenta quilos, cabelos sem brilho, não conta quarenta de idade, nem alegria. Pisa feito mastodonte carregando fatos mortos.

Alda contou sua história, tremi e não sai de casa por uns dias. Ela nem chorou. Tomou café com pão francês, almoçou no trabalho e jantou em casa como qualquer outro dia. Faz faxina três vezes por semana no seu kitnet.

Alda só é ruim pra ela. Não namora, não solta os cabelos, não toma sorvete, não come chocolate, não gosta de cinema nem de música.Nem usa perfume, não se enfeita. Passa horas olhando pela janela e diz não pensar em nada. Acredito! mas seus olhos mudam de cor. Nesse momento tenho dúvidas porque ela arranca fios e fios dos seus cabelos.

Alda disse que desistiu dos homens quanto ouviu o barulho de um cinto afrouxando a calça. Disse que não gritou. Disse que mordeu seus braços assim óh, e mostrou as marcas.

Alda não gosta de piadas, na tv só assiste a noticiários trágicos. Quem sabe assim compartilhe sua dor, ou não sei, percebe outras Aldas, talvez. Ela não fala mais sobre o assunto. Fala de trabalho e não toma cerveja com os colegas da repartição.

Alda não serve de exemplo pra filmes com mulheres assassinas.Ela não serve pra mostrar que sua dor gera crimes. Alda não serve pra moralizar ninguém. Não justifica massacres, nem atos cruéis. ela não comete crimes.

Alda não tem plantas, nem gato, cachorro ou passarinho. Seu apartamento é um espaço que ela ocupa.Suas roupas não têm cor. Ela anda devagar e não usa sabonete. Ela é tão doce que não se mata.

Alda não existe, não usa fita branca.

20.2.10

cuidar de si


O Futuro no espelho disse-me:

Pensa que é dona de mim? é não! antiético viver assim tão à volonté. Sem prestar atenção em mim. Como pode saber o que vou querer em trinta anos? Como pode responder por mim? e comer essas coisas e não se exercitar? Como pode negar umas coisas e concordar com outras? avesso entre o que você pensa que soma e que subtrai é o que nos compromete.

A vida deveria ser como a do senhor Button e começar com vantagem larga da sabedoria. É injusto, agora que sei viver, não ter tempo para ser amante do J. marido de F. Ou aquela viagem a Cuba. Como você pode nos negar aquele bolo de nozes no natal de 2007 em nome de nem-sei-o-quê? sinto vontade dele até hoje.

Não deixe de pensar em mim.

(in)sustentável o silêncio com que o tempo nos mastiga.


17.2.10

volto amanhã caminha


fim de carnaval nesse quarto velho
tarde ardida, cidade linda
meninas devassas, suadas

delícias

preciso: ar frio, café, São Paulo


e um resto de semana silenciosa e quietinha






15.2.10

A Louca da Casa


a verdade não é possível, está despedaçada em bilhões de cérebros
intermitentes
sou um fragmento demasiadamente cínico a pregar peças no carnaval
depois (sempre) quero pra casa
sozinha
voltar
lá, minha excentricidade é livre dos olhos espadas
e danço com Dionísios, sobre os absurdos dessa grande comédia que somos todos.










“Quem sou eu?
De onde venho?
Sou Antonin Artaud
e basta que eu o diga
Como só eu o sei dizer
e imediatamente
hão de ver meu corpo
atual,
voar em pedaços
e se juntar
sob dez mil aspectos
diversos.
Um novo corpo
no qual nunca mais
poderão esquecer.Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe,
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre
morto.Mas um vivo morto,
Um morto vivo.
Sou um morto
Sempre vivo.
A tragédia em cena já não me basta.
Quero transportá-la para minha vida.
Eu represento totalmente a minha vida.
Onde as pessoas procuram criar obras
de arte, eu pretendo mostrar o meu
espírito.
Não concebo uma obra de arte
dissociada da vida.
Este Artaud, mas, por falta do que fazer…
Eu, o senhor Antonin Artaud,
nascido em Marseille
no dia 4 de setembro de 1896,
eu sou Satã e eu sou Deus,
e pouco me importa a Virgem Maria.

12.2.10

carnaval com cheiro de capim gordura

adoro carnaval!

mas não esse "globelizado", industrializado

falo da roda de samba, das marchinhas, do maracatu,

na rua, Zé Pereira e Pererinha, aqueles da Pedra do Baú

gosto de carnaval no mato, nada amontoado

mas isso sou eu, que vejo graça

na licença que o povo tira:

do patrão, do sermão e do NÃO.

7.2.10

caos metroplutânico

Lembra aquele dia na livraria? Você disse que meu olhar estava doce. Mas nem sei qual de nós flagrou com livro em mãos. Acaso quis saber quem olhava para você? Eu sou assim, baby. Já disse. Duas dúzias de mulheres. Um harém em uma. Ainda ouço a música tocada por um anônimo lá na Paulista. Música francesa arrastada, triste como sua paixão. Acho que não há tempo para filosofia. Tempo fechou para piadas prontas televisionadas com humor de cera e clichês homofóbicos. fico muito chateada quando dizem que faço poesia: não sou herege! muitomenosfaçopoesia: só palavrinhadesenhadanadamais. não quero fazer poesia! Não sigo métricas, maestros, mestres, mimesis: não sei poetar. Mas esse olhar doce não era meu. Era ela que vive em mim e assim tenho paz entre livros: foi o que flagrou você naquela tarde ardida. Você que não me sai das entranhas. Eu que te faço letra.

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