24.2.10

A Fita Branca - do diretor Haneke

Alda tem uma coisa encardida na pele sem viço, sem cheiro. É tão inexpressiva que não sustento seu olhar, por isso olho pra testa quando fala. E por isso ninguém olha pra ela.

Alda: menos de cinquenta quilos, cabelos sem brilho, não conta quarenta de idade, nem alegria. Pisa feito mastodonte carregando fatos mortos.

Alda contou sua história, tremi e não sai de casa por uns dias. Ela nem chorou. Tomou café com pão francês, almoçou no trabalho e jantou em casa como qualquer outro dia. Faz faxina três vezes por semana no seu kitnet.

Alda só é ruim pra ela. Não namora, não solta os cabelos, não toma sorvete, não come chocolate, não gosta de cinema nem de música.Nem usa perfume, não se enfeita. Passa horas olhando pela janela e diz não pensar em nada. Acredito! mas seus olhos mudam de cor. Nesse momento tenho dúvidas porque ela arranca fios e fios dos seus cabelos.

Alda disse que desistiu dos homens quanto ouviu o barulho de um cinto afrouxando a calça. Disse que não gritou. Disse que mordeu seus braços assim óh, e mostrou as marcas.

Alda não gosta de piadas, na tv só assiste a noticiários trágicos. Quem sabe assim compartilhe sua dor, ou não sei, percebe outras Aldas, talvez. Ela não fala mais sobre o assunto. Fala de trabalho e não toma cerveja com os colegas da repartição.

Alda não serve de exemplo pra filmes com mulheres assassinas.Ela não serve pra mostrar que sua dor gera crimes. Alda não serve pra moralizar ninguém. Não justifica massacres, nem atos cruéis. ela não comete crimes.

Alda não tem plantas, nem gato, cachorro ou passarinho. Seu apartamento é um espaço que ela ocupa.Suas roupas não têm cor. Ela anda devagar e não usa sabonete. Ela é tão doce que não se mata.

Alda não existe, não usa fita branca.

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