18.3.10

entre nós*

mEU Taiti: sem Deus sem nós
Mandaria Diderot lavar meus pés


LIVRARIA CULTURA
* Inspiração livre no texto SUPLEMENTO À VIAGEM DE BOUGAINVILLE, de Denis Diderot

13.3.10

Espelho Enevoado


Ainda estranhava ele não dizer Até logo, amor. Ela... talvez respondesse com sorriso doce e sonolento da cama. Eu não entendia, mas sentia que o silêncio era presença na casa e chegou quando cortinas pesadas não abriram mais.
Desci da minha cama, caminhei e deslizei silenciosamente para o bafo das cobertas dela. Lembro-me bem daquela manhã. Eu era tão pequena de modo que mamãe me abraçou inteira. Ela não abriu os olhos. Cheirou meus cabelos, me aninhou em seu abraço e jogou minhas perninhas sobre seu corpo. Fazia tempo que não sentia aquele bem querer. Respirei aos pouquinhos o doce perfume entre seus seios. Meu corpo quente tremeu em brevíssimo instante, sufoquei um gritinho ainda na garganta, meus olhos viraram de tanta alegria. Mais de um ano da morte de Adelle, e finalmente meu coração parou de soluçar.
Senti escorrer em meu rosto um líquido quente e chegou até minha boca um salgadinho amargo. Enquanto ela me apertava no seu abraço dolorido, o ar sumia dos meus pulmões. Ela agora soluçava e chamava Adelle, Adelle, Adelle...
Eu não fiz nada para me desvencilhar daquele abraço, sabia apenas que eu não era quem ela chamava. Aos poucos o escuro total e novamente tive paz.
Anna, Anna. Era a vó quem chamava. Eu estava deitada em seu colo. De lá, não saí mais até que poucos anos atrás ela deixou o meu.
Era carnaval e a tia da escola ensinou a fazer máscaras e dançar marchinhas alegres. Acho que desse dia passei a amar o carnaval. Eu e as outras crianças fizemos boa farra. Brincamos um dia inteiro e fiquei bastante feliz. Quando cheguei contei tudo à vó, então ela me levou até a cidade e pediu que eu escolhesse uma fantasia.
Fiquei maluquinha com tantas possibilidades, a vendedora da loja me vestiu com um harém de princesinhas. Detestei todas. Ficaram doidas quando me viram de Branca de Neve, disseram que eu era a própria só porque além de branquinha tinhas os cabelos pretos em corte parecido. Eu sentia medo dos anões e nunca gostei da ideia de limpar casa e fazer tortinhas de maçã. Rejeitei a fantasia e quis experimentar a de bruxa. Adorei! Era preta, roxa e laranja. Chapéu pontudo que prendia fios de cabelos brancos e roxos. Mas o que mais me encantou foi a máscara e aquele narigão com verrugas. A vó disse que se eu quisesse poderia sim levar a fantasia de bruxa, mas pediu que eu escolhesse também outra máscara, pois aquela iria pesar e quando eu me cansasse dela, poderia colocar a outra mais leve. Escolhi uma de gatinha.
O baile de carnaval começou às três da tarde e foi até as sete da noite. A vó sentada na mesa com outras mulheres me via risonha correr pelo salão assustando as princesinhas.
Depois da morte de Adelle, esse foi o primeiro dia que me diverti pra valer. O carnaval tem em mim o poder de romper velhos hábitos, esse carnaval fez eu voltar a ver e brincar com outras crianças. Até então eu brincava só com Adelle, depois que ela se foi, eu brincava sentada em frente ao espelho. Desde esse carnaval, das vezes que mamãe veio me visitar, eu me vestia de bruxa e usava as máscaras.
Quando eles iam embora com meus dois irmãos menores, a vó entrava e dizia olhando bem dentro dos meus olhinhos: Fecha o portão com o cadeado.

[trecho de romance em desenvolvimento]

11.3.10

favELA


foto de Tatiana Reis




Neguinha me leva na favela. Mostra comunidade de alta sociabilidade

Diz que lá, fome ninguém passa: se na mesa nada tem, vizinho divide e já era
...

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