29.9.11

encanta

discurso
calça jeans e camiseta
vermelha
é a língua que chama
de-
canta
e molha a lua
salvei na retina
aquela foto
para te reconhecer
no metrô
se você vier
e tirar a dúvida
sentada ao meu lado

essa viagem teria sabor
se sua boca estivesse nas minhas

24.9.11

carta para minha casa

Foto de Ale Safra - Curitiba 23/09/11.


fui até você no instante em que senti o cheiro da grama cortada. aí de casa, hoje salivei saudades. quase duas semanas você fechada. há abstinência aguda em nós pela falta uma da outra! pela a falta em remexer os autores na estante. da água do chuveiro, aquele pingo torto, sabe? relembro melancólica pequenas coisas que jurei consertar. até dos passos em saltos altos da vizinha do apartamento de cima eu relembro e suponho outras roupas e destinos, só para diminuir a distância e passar esse tempo.
por ser siamesma a gata de rua, não temos aí em casa, gatos. nem plantas para conversar e me sentir mais família. nem percebi que a vizinha de porta (aquela cuja paga pelo filtro de café emprestado, nunca foi quitada), se mudou. fui vencida na briga contra o lençol preso sob a cama e relembro deitada nesse mesmo lençol preso e esterilizado, as páginas abertas dos livros (interrompidos) sobre a mesa de trabalho aí da sala. tudo em hotel é muito farto e arrumadinho. anseio ouvir o barulho das chaves abrindo você pra mim. as vezes acho que ouço o telefone de casa tocar: um parente que devo me esquivar? (te pergunto). will chamando para um cinema na augusta? mariana querendo caminhar, tomar sopa na padaria ou um chá e conversinhas? qual dos meus amigos (escrevinhadores) querendo um encontro num café da paulista? uma palestra de literatura? outra de filosofia? e eu, tão aqui!  sem ninguém pra dizer “você se lembra quando a gente...” e me sentir mais perto de você.
longe assim da coberta vermelha, fico deprimidinha. a distância realça importâncias. entrar em você é recomenhecer meu universo nesse avesso do tédio. meu útero de paredes nesse deserto histérico de monólogos débeis. pisar em você é como caminhar na minha infância, aquela dos dias ensolarados e leves.

21.9.11

Pôr à vista

atinar palavra

para mergulhar

ou paredes rebocar




medo.                                                                breve o instante finda para ser silêncio

me-                                                                    eterno.

dou                                                                    tudo.

me-                                                                    nessa comparação com Tempo,

deixa                                                                 no instante não cabe ré.

sem                                                                   palavra é tijolo

sede                                                                  esquerda ruge a vida. do tempo é minha inveja






resposta para isso [...]

revira , floresce, rouba

sou minha pra me dar

se me toma, te tomo

liberdade também é

ficar

saliva
meninas

viramos duas numa noite fria

ais


tenho poucas vergonhas para me orientar. certeza apenas que liberdade é entrar em casa, fechar a porta e encontrar o mesmo: silêncio.


há tantos meios para negar essa vontade. tentei e perdi. me apego ao tempo na esperança infantil e covarde de que tudo passe, mas quem passa é o tempo e roubo de mim: memórias.

o ar está seco, minha pele precisa suar. a sede aumenta e a cada palavra trinca tijolo e cai expondo o que eu deveria proteger. tento rebocar negar correr sublimar transformar mas não consigo. apesar das contradições, essa vontade insiste.


expectativas vendidas em prateleiras românticas são péssimas para o fogo

do dia

olho para os lados,
medo de atravessar
me atravessa o medo

eu falo sozinha.


ENSAIOS: Poses Paulistanas, de GAL OPPIDO
 

17.9.11

fabulação

ectoplasma palavra
vontade finda nos dedos
aponta esfarrapada
dúvida

verbo turvo rodo-
pia e plasma brasa
vontade
sua

minha pele tá
para suas leituras
em braille
plasme meus ais


me escuta




14.9.11

paredes em tecidos presídios?

foto de Carol Bottacin mais aqui


parede em tecido
 presídio? 
                
daqui olho e creio
        um crime

contra a mulher: lá

aqui os crimes são semelhantes
          dissumulados nas formas
                                           mas
                              ainda crueis

na boquinha da garrafa,
salário & trabalho,
privado e público,
nas mães que implantam
rosas / azuis

será que a presidenta
recebe menos que os presidentes?

panos pesados
meu olhar sobre lá
reconhece o grito

a-
qui
panos leves
 ou nada. que é essa mulher?
como aquela emburcada
enxerga quem pouco pano usa?



2.9.11

um trago de bukowski e nada mais

desonhecido
se fosse eu todas as mulheres
não seria eu?
quanto deixarei de ser eu para ser sua?
...

DISPONÍVEL EM LIVRO TAMBÉM NAS LIVRARIAS:

LIVRARIA MARTINS FONTES

LIVRARIA CULTURA



inspiração livre em fabulário geral do delírio cotidiano, de bukowski - ed l&pm.

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