31.10.11

santa fé

foto de André Kertész

no chiqueiro o porco quando puxado pelos pés
grita e grita grita grita grita e
gira minha cabeça na dor de saber
a marreta estala a testa e a faca no coração
mudez

no chiqueiro a porca alimenta os porquinhos
e a outra porca observa se ela sabe fazer isso
o porco discute com outros porcos como
no chiqueiro aprender a resistir
mas não há sublevações nem encantamentos
e eles continuam parindo porquinhos para alimentar
o dono da porcariada

os porcos quando puxados pelos pés
gritam e gritam gritam gritam
tapo meus ouvidos e assisto lars von trier
com os pés sobre para nada me arrastar

esse grito preso nos pés
é dessa vontade que não anda

tudo gira e grita e birra
e porcos se debatem
sempre que puxados pela trama
lá do chiqueiro da minha
infância

16.10.11


Vitor Ramil, Ramilonga

saudade é sal que seca minhas palavras e olhos/deixa em carne viva as plantas dos pés/caminhar pesa e não chego onde desejo encontrar abundância de oxigênio/preciso que me perdoe, Adelle/não pude nos proteger/éramos crianças/preciso olhar nos olhos daquela mata e sacudir o sal/esse peso não é meu/solidariedade começa com o sol ao iluminar meu entendimento/acredito que ao escrever sobre nós/desatará esse pó

da garganta/essa peleja diária/esse espinhoso chão forrado pelo descascar da paineira/o sol já aquece meu dedo do pé/mas minhas atitudes entregam os segredos lá do fundo da carne conservada no sal/eu não entendo Adelle/você me engana ao dizer mancinha que tudo está bem/você se aproveita do escuro para me presentear sádicas surpresas/queria ser freira mas não tenho fé/viveria num desses claustros com voto perpétuo de silêncio/assim nunca mais diria seus nomes.

contei ao will sobre você, ele chorou/eu disse que muitas mulheres e homens nunca poderiam ter filhos/falei do egoísmo atroz que é amarrar um novo ser nessa miséria humana/essa farsa de milênios/falei das consequências dos atos que comprometem as próximas geração/ falei dos avôs/will me abraçou/disse que preciso começar a deixar o peso já nas palavras/fez muito sentido pra mim/quem sabe vou desengasgar ao tirar da palavra o espinho/eu não poderia nunca ser freira/deus morreu quando chamei por ele naqueles dias e ele não veio/descubro rápido as mentiras que me contam/lembra Adelle, aqueles dias? tomei caixas de remédios e ganhei uma garganta ferida até hoje/mas relendo as cartas que te escrevi/contanto sobre tudo/percebo que amainei o verbo/mastiguei os conceitos e cuspi no pé para cicatrizar as chagas provocadas pelos espinhos das paineiras quanto tentei abraçá-las/um dia um pouco de ar chegou até meus pulmões/e percebi que nem tudo é ruim/o abraço da vó me salvou/sem a vó hoje estaríamos juntas/eu não quero estar com você, Adelle/não agora que outro abraço me fez respirar ainda melhor/will também gosta dele/eu também gosto dele/mas gosto mais de respirar, puxar bem fundo o ar e deixar ele sair/oxigênio, vento, vendaval, chuva me faz respirar melhor/é bom respirar bem fundo soltando o ar/devagar/da uma noção do que é ser leve/mas você Adelle/é um resto encardido que volta sempre que ela me força a dizer: mãe



excertos modificado de romance em desenvolvimento




12.10.11

a vida não vale um conto

a vida não vale um conto, nem eu
nem

tarde ar-dida lá vem a lua minguando nós
ando entre janelas virtuais evitando o que
dedos viciados levam teu nome aqui
coisa gasguita é pedra e tropeço
ai
ai se meus pés tomarem o caminho
da vontade dessa pele

a vida não vale uma beira de ira
irá decalcar o sol na sua cama?
nós em zilhões de átomos
e conceitos
nada concertam
nada consertam
nada

desassisada não valho nota
mas ai quando leio suas excursões
num aparente desvio de corpos em relação
ao sol
sei da dureza da cama fria
sua minha nuca um filete de pó
daqueles que enterram os delírios
para curar a vida do desejo

tento amar como um animal
faço sexo com as palavras



9.10.11

meus olhos femmélicos

Foto de Hlio Faria, via album facebook: Elida e Débora
:hoje me apaixonei
(semanas passadas também)
três vezes
me apaixono assim
feito fa-
ísca que explode na cabeça
de um fósforo passivo
on-
tem


...


DISPONÍVEL NAS LIVRARIAS:


Livraria Martins Fontes


LIVRARIA CULTURA

1.10.11

como abraçar espinhos?

 

Foto de Ale Safra - Curitiba 30/09
 
paine-
ira cresce aguda e definha
no tempo
faz cair espinhos
não vou esquecer. mas preciso não
espetar os olhos
Adelle, minha espinhosa memória
não conto penas, sigo e
me livro dessa vontade encardida
em desejar roubar de mim
a vida. cansei da mentira que me conto
fingir sua inexistência me queda.
não vale se não for inteira
a vida.

meus olhos denunciam você em mim
minhas mentiras contam você em mim
minhas palavras te darão outros significados
quando os espinhos pararem de me espetar 
saberei o que não sei que sou.

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