16.10.11


Vitor Ramil, Ramilonga

saudade é sal que seca minhas palavras e olhos/deixa em carne viva as plantas dos pés/caminhar pesa e não chego onde desejo encontrar abundância de oxigênio/preciso que me perdoe, Adelle/não pude nos proteger/éramos crianças/preciso olhar nos olhos daquela mata e sacudir o sal/esse peso não é meu/solidariedade começa com o sol ao iluminar meu entendimento/acredito que ao escrever sobre nós/desatará esse pó

da garganta/essa peleja diária/esse espinhoso chão forrado pelo descascar da paineira/o sol já aquece meu dedo do pé/mas minhas atitudes entregam os segredos lá do fundo da carne conservada no sal/eu não entendo Adelle/você me engana ao dizer mancinha que tudo está bem/você se aproveita do escuro para me presentear sádicas surpresas/queria ser freira mas não tenho fé/viveria num desses claustros com voto perpétuo de silêncio/assim nunca mais diria seus nomes.

contei ao will sobre você, ele chorou/eu disse que muitas mulheres e homens nunca poderiam ter filhos/falei do egoísmo atroz que é amarrar um novo ser nessa miséria humana/essa farsa de milênios/falei das consequências dos atos que comprometem as próximas geração/ falei dos avôs/will me abraçou/disse que preciso começar a deixar o peso já nas palavras/fez muito sentido pra mim/quem sabe vou desengasgar ao tirar da palavra o espinho/eu não poderia nunca ser freira/deus morreu quando chamei por ele naqueles dias e ele não veio/descubro rápido as mentiras que me contam/lembra Adelle, aqueles dias? tomei caixas de remédios e ganhei uma garganta ferida até hoje/mas relendo as cartas que te escrevi/contanto sobre tudo/percebo que amainei o verbo/mastiguei os conceitos e cuspi no pé para cicatrizar as chagas provocadas pelos espinhos das paineiras quanto tentei abraçá-las/um dia um pouco de ar chegou até meus pulmões/e percebi que nem tudo é ruim/o abraço da vó me salvou/sem a vó hoje estaríamos juntas/eu não quero estar com você, Adelle/não agora que outro abraço me fez respirar ainda melhor/will também gosta dele/eu também gosto dele/mas gosto mais de respirar, puxar bem fundo o ar e deixar ele sair/oxigênio, vento, vendaval, chuva me faz respirar melhor/é bom respirar bem fundo soltando o ar/devagar/da uma noção do que é ser leve/mas você Adelle/é um resto encardido que volta sempre que ela me força a dizer: mãe



excertos modificado de romance em desenvolvimento




2 comentários:

  1. Sou sua fã! Adorei o texto, interessante que pude compreende-lo melhor lendo de baixo para cima, vai entender!
    Sucesso querida...
    Joy Sena

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