13.11.11

upps e o bom cidadão religioso

a favela da rocinha ganhou uma upp. é mais segurança para aquelas pessoas vítimas de tantos bandidos, tanto criminoso já foi preso. até o chefão do morro. veja que a polícia tá trabalhando muito bem. você viu na televisão, amor?

disse o cara de calça jeans, bíblia debaixo do braço, celular na mão, camiseta polo preta e sapatos marrons com franjinhas, para uma apática mocinha distraída com sua leitura bíblica.

eu arrepiada pensava, poxa meo, acabei de ver o filme a pele que habito e tá tão gostoso o filme ainda em mim...

sem piedade, o mocinho continuou sua saga quadrada: o rio de janeiro vai ficar limpinho. aí sim, será uma cidade maravilhosa.

corri procurar na bolsa meus fones de ouvido para salvar aquele resto do filme que perdia... não pense sobre o que ouviu! lembra daquela cena do filme que foi incrível, disse eu para mim mesma. metrô cheio, eu no meu canto aninhada do frio. mas que azar, esqueci os fones. agora toma todo esse lixo no juízo.

olhei em que estação estávamos, tiradentes. tantas ainda para a minha. é hoje. vou ficar de pé lá do outro lado, pensei. quando estava saindo, então o pior aconteceu. sem meus fones, sem a mocinha do lado responder nada, ele olhou para mim e continuou, puxando conversa - atrevido - sobre as upps e terminou com a seguinte bestialidade: deveriam montar uma upp em todas as universidades, para que esse bando de adolescentes estudasse de verdade e não ficasse na farra e vícios em nome de jesus. amém.

eu olhei para ele, olhei para a moça ao lado que abriu a boca para responder o amém como se fosse “saúde” após ouvir um espirro. e vi seu coque desgrenhado, saia longa, camiseta e tênis e total atenção à leitura da bíblia sagrada e cheguei ao ápice do entendimento do clichê popular: doido não deve ser contrariado.

pronto, perdi o filme. e só resta ligar para o will e contar isso para ele.

entende will, a pessoa sai da igreja, fica com a bíblia debaixo do braço e acessando a net pelo celular e querendo defender a ideologia em que foi adestrada pela mídia e igreja de que polícia é sinônimo de segurança. pior que perdi minha sensação com o filme. ladrão. esse cara é um ladrão!

querida, disse ao seguidor bolsonaro que polícia não é sinônimo de segurança? e polícia só existe dentro deste sistema para coibir, repreender e capturar todos (nem todos) contrários a este mesmo sistema dominante estabelecido. e na real as polícias fazem um serviço de contenção e [usando a palavra desse ser], “limpeza” daquilo julgado como sendo “lixo social”? e pior, criado por esse mesmo sistema dominante?

will, o cara é fanático! esse tipo de gente não escuta, apenas quer impor suas crendices de toda ordem. como eu poderia dizer que a polícia existe pelo nosso fracasso social? pela nossa impossibilidade de diálogo e acordo nas divergências; por conta de toda degeneração desse sistema capitalista? pela copa e olimpíadas que vem aí e não pelo próprio povo da comunidade carente?

docinho, somos um fracasso tentando ainda dar certo.

will, depois da inquisição, das senzalas, de mauthausen, agora as empresas capitalistas promovem um dos maiores horrores da história da humanidade. Estamos tentando dar certo? Humm, não uso os óculos de pollyanna, prefiro a lupas das hienas e, pelas lupas, não estamos tentando nada não. upp não reflete uma vitória da sociedade sobre o crime organizado, é a vitória do capital cuidando da cidade para receber dois eventos mundiais e garantir o fluxo do dinheiro.

é, doce, o assunto é mais assombroso que parece. acreditar que polícia é para nos dar segurança e não se ter o esclarecimento de que ela existe para conter os crimes que todos nós cometemos é lamentável. e essa massa acéfala num crescente viral é de desejar que um planeta chamado melancolia esteja em rota com a terra.

não, will, os gatos também morreriam e eles precisam do planeta para viver.

2 comentários:

  1. Alê, você pode não acreditar, mas enquanto lia, pensava: "delicioso". Quando cheguei aqui o A.Marques-Rodrigues tinha externado a mesma
    coisa. Não importa, vou repetir: delicioso!
    Um beijo.

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