3.3.12

Amor[e]IRA




foto da internet

Alice e o espelho se olharam. refletiu passivo tapas em cara borrada. eu na porta nada fiz. olhei o auto flagelo. gosto dessas cenas. de meninas com ares suicidas.
ele estragou tudo. ele estragou tudo... - e mais tapas.

estava apenas por curiosidade e não por compaixão. mas obrigada interferi quando ela começou a se morder. eu conhecia essa violência.

agarrei sua mão para baixo e com a outra mão seus cabelos na nuca. fiz força. quer que eu morda você?

esse verbo malhado. trair: eu traio/tu trais/ele/ela trai/nós traímos/vós traís/eles/elas traem... e ela se debatia e chorava. eu segurava mais forte. esse acordo é feito prego no morno da areia numa tarde ensolarada e romântica. é um melodrama insustentável. não percebe? Alice, é ridículo.

Alice não sabia, mas eu tinha uma relação com o namorado dela. desde o segundo colegial. eu sabia que ela gostava dele. eu gostava dela e gostava de sexo com ele. ele era divertido. sem compromisso. eu não gostava dos namoros da praça: mãos dadas, pipocas e discussões por olhar dos lados. ele não sabia do meu gosto por meninas, mas desconfiava. toda cidade desconfiava. talvez essa razão dele me contar como era o sexo com ela.

Alice tenta se soltar. seguro. ela diz querer morrer. rio. ela me olha e sua cara toma novos ares. a empurro para cama e ordeno vigorosa que se deite. o jogo também se transforma. sento na cama empurrada por ela que se ajoelha e tira meus sapatos. beija meus pés cansados de uma festa idiota. abraça minhas pernas e implora para que eu a maltrate e lhe dê prazer.

nunca tive um conflito de interesses tão grave. a empurrei. acendi um cigarro. relembrei dos prendedores, da vez que, escondida sobre a amoreira, eu a vi toda sua.

você gosta dele, Alice.
nem tanto assim.
e qual razão desse choro?
complicado explicar.
fazia sexo com ele?
nunca fiz.

acreditei nela. ele mentiu querendo outras histórias. mas nunca teve.

toda família de Alice estava fora. retiro religioso. agradeci. saí do quarto e dei uma volta no quintal. assim que o cigarro acabou entrei e ela estava lá: nua sentada no chão. no meu bolso, prendedores. sobre a cama, uma chinela.

eu sei que você quer isso, Anna. aceito se for do meu jeito.

eu sabia como era.


mas não sabia a tragédia que nos aguardava.

3 comentários:

  1. Maravilha de texto Alê! Conflitos bem armados, me prenderam do começo ao fim sem fôlego.Demais! Bjs

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  2. Uma delícia de se ler... Lindo Alê!

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