24.8.12

papel maçã

foto de Rui Palha
santa fé, 22:36



35 graus

Alice,

confesso, antes de entrar na sorveteria da avenida conselheiro, observei o tempo naquelas árvores onde escrevíamos nossos amores e iras. mas quis mesmo o sol: quê te iluminava o olhar?

ameixa pedi. e sei, reconheceu minha voz, parou de lamber seu sorvete, notei sua respiração alterada e me encheu de coragem você não sair após nos olharmos através do espelho.

não me imponho à ninguém, sou dada a clausura e a uma boa dose de silêncio, mas não poderia, diante das secas ocasiões, deixar de tentar.

na sua recusa do ano passado havia menos dor  ao ano anterior. eu senti. esses últimos dezembros e janeiros você não viajou, nem se trancou em casa. permitiu a nossos brevíssimos olhares um ensaio pelas praças de santa fé. seu esforço é generoso para superar o acontecido. eu sei, está conseguindo, eu também, sabia? a memória é curiosa, não? um fel por vezes, mas neste caso devemos aliviar ao invés de fingir tão miseravelmente. também não me é fácil revê-la. percebe como somos fortes? estamos superando bem. você ainda melhor por continuar sob esse olhar da cidade, percebo como olham, eu não poderia, a vó sabe disso e me levou embora. hoje minha energia é contada e não me disponho a peleja ordinária. mudo a perspectiva quando a memória me assalta o paladar, é uma possibilidade buscar outros sabores na mesma coisa, libertador por vezes, entretanto perigosa. já me deparei em situações cujo esforço para me recompor foi impalatável. digressões é tudo a nos valer, Alice? revê-la foi brisa. amiúde a reencontro pelas minhas perambulações e conversamos muito. mas em nosso reencontro o frescor foi regeneração. tenho tantas novidades. estou na faculdade, sabia? essa é a melhor delas. outra: recomecei a escrever. mais uma, você nem vai acreditar, estou morando com meu namorado, depois te conto. a pior de todas você sabe. recebi seu cartão quando a vó morreu. não respondi, sinto muito, o luto me arrastou um tempo.

acredito estarmos bem. talvez tenhamos chegado a reflexões similares. não é apenas uma questão de tempo lidarmos melhor com essa memória, é também um tipo de compreensão sem melindres, desses a infantilizar e enfraquecer nosso entendimento, tento ver as coisas como elas são e somos. ganhamos com isso esse olhar fraterno para todas as dores.

às vezes, o pior carrasco é nosso juízo, diz a vó - (o tempo verbal está errado, sei) - e também é verdadeiro o contrário.

não poderia voltar à são paulo sem devolver seu anel e deixar esse recado. além de agradecer o quanto foi curativa nossa conversa. espero tenha sido recíproco.

até o próximo ano, querida.

beijos

Anna S.


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no verso do bilhete grifado nas novidades, 1 ano depois:


santa fé, 16h

38 graus

Anna

sorvete na praça da matriz às dezessete e trinta.
pauta: comentários pertinentes, profundos e reveladores das celebridades a caminho da missa e o culto.
esses anos ri sozinha. i n j u s t o.

beijos,
Alice



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