22.12.13

insurgentes








rodopiar piano piano da sua manga direita suja de sangue
serviço francês. meus dedos em creme das frutas vermelhas

rodo e pio feito uma coruja abatida diante da boca da cobra
no derradeiro instante: como amar essa finitude?
como me aconchegar no seu estômago sepulcral?

cortejo famélico dos pedaços de rim
rumo aos dentes cintilantes após as pequenas constantes guerras
um naco da minha língua atrás do seu canino

piano de caldas de chocolate para eu aprender a ser meiga
músicas suaves. fitas azuis de nossas senhoras etiquetadas
"assim a menina toma jeito de menina. fica dulcíssima”

nasci e não gostei. chorei sem me conformar. sinto cólicas e faço caretas
a coruja deixa a cobra caolha, mas ainda assim
abatida

sua camisa o sangue da minha boca respingado: branco. vermelho
e o azul das tuas varizes enquanto espera meu coração em patê
ignoro teus síbilos. lambo o vão das frutas insurgentes

passo as costas da mão esquerda e limpo somente o excesso da minha boca


28.11.13

auto-retratismo dissecado: ela

foto de Ale Safra


tardes,
brasa sua na vala magma
taras femme fatales
cada pedaço seu somos nós
floresta amazônica úmida
bafo de tempestades tropicais

deusa de assombrosas tetas, me dá um tapa?
vamos pirar nesse quarto das eras

diva alienígena ensolarada 
guardiã da chave das percepções 
felina presença ancestral
sua sombra selvagem remonta
a mulher em pele navegando rios safos 
ignorando regras, desdenhando medos
ousando roubar da vida
liberdades

mais ais, me dê tudo
penetre minhas cavidades auriculares
em sons guturais
morda meus lábios minhas coxas
lambamos nossos fluídos
me dê sua cara lambuzada
para eu sentir meu gosto

toda assepsia das taras-santas
cujas palavras em preservativos
os corpos não se doam, estão ausentes
destas tardes

em que o o sol esteve sob nós
e transcendemos





21.11.13

agora

palavras plásticas não atraem abelhas
entreguei aos mosquitos esse banheiro
num domingo em que amanheci
com bodes pastando meu estômago

(amargo verbo
você não me doa)

amar é tempo
você não se doa
você me dói
não temos terra

chuva congestionada
nesta era apocalíptica
fumemos ervas com são joão
na ilha concreta de lesbos 

(tantos preservativos nas suas palavras
                      não emprenho amarelo).











3.10.13

domar


foto de otto stupakoff


                          pele água
                               do mar
                    sua onda
                                     quebra em
                 mim  

pele do mar
                    água
   onda sua
                 em mim
quebra

                       água do mar
pele onda
               em mim sua

quebra  

               sua onda pele 
do mar água 
                                quebra em mim

em mim sua
                   pele onda
domar 
            água
quebra

em
      mim
sua

        pele
do 
      m
ar

   q
u
    e
  b
r
   a

abissais

abis-
sais. em brasa
anna

fendas chamam línguas brandas
“era pra ser uma história de amor” ela disse gemida;
“romantismo não tem cheiro de terra” respondi com a língua cheia

nanda é bailarina. em seus pés
cada calo cala e extasia-
me apetece deformidades do hábito

baila em mim réptilíngua ávida
e seja minhas faltas. sua  passiva cá
dela

das janelas arreganhadas o vento acomoda folhas
sobre mim, ela. passarinhos e insetos tomam pl-
ateia e um tanto de floresta canta
enquanto te risco a pele
(viciosa & sevícia)
delíramo-
nos

ecos nas línguas findam
você nanda, assim tão nua
vestida de cetim azul
não atina, escaldante criatura,
as labaredas em pés eriçados de
mente perversa apunhalar
crendice
sua

cuspe no chão. lamba!
mentiras das tuas ideias
ácidez em teu estômago
para renascer da azia

pago um e noventa e nove pra te foder
enquanto pasta em saliva deprimente
a chamo de moça de família,
"você gosta que eu faça igual ao seu marido?"
"você é minha mulherzinha respeitável
mãe exemplar em carne es-
corre e volta implora 
mais uma vez"

nessa hora bicharada se masturba
é em sua homenagem nanda hipócrita e viciada nanda
deliciosa e crente nanda pervertida e covarde nanda
febril e culpada nanda religiosa & besta nanda:
como é ser surda-muda para si?

e continuo em galopante peleja. oposição na posição.
quê dirá teu marido se te pega assim? "está é a mãe do meu filho? a mulher que me alimenta? maldita! – monstra! aberração! sua sobra besta suja"
e lhe direi mulher: "agora sofra até ser livre
das crenças enfiadas no anelar esquerdo e parida em ossos e sangue"
arrombe a roda e lasque o hábito.

grite para o mundo
haverá outros uivos a saldar a morte da mulherzinha
darão graças os insetos e os grãos da terra molhada
não!
não tema, não chore, não desista de me dar
nenhum dos seus segredos
sinta
vou devagar, serei dulcíssima, venha, deita aqui
não chore, isso, de bruços, suas mãos à corda
mordaça para eu nos libertar

os insetos sabem, todos sabemos e fingimos não saber
automentira autoengano autoignorada autoestrela
alta nanda, não quero que volte nunca mais
não venha mais implorar para eu te fazer feliz
quero lonjura das suas quedas isso isso isso

escrevo na sua pele nossa despedida
pague outra puta para realizar suas fantasias
me desagrada não é fazer seu gozo livre
é a encenação do santo laço sagrado


nanda, seus quarentas e um anos não te servem de nada
os insetos sabem disso, você sabe. repito: não quero mais seu dinheiro
nem seu cheiro, nem seus gemidos
vá para seu leito conjugal e morra neste tédio descabido


para m.g. 

maculada des(arrependida)


vertiginosa boca
ver entre joelhos
elos sexos esquinas
cadelas abjetas 
eunice reprimida

um punhado de putas
e meus pés ainda sujos
traga-me tua língua de trapo
teu serviços, vagabunda!
tua servidão calmante 
carne tela em coração 
devoto

olhos baixos
para
ex-
ceder




29.9.13

garotas interrompidas

Egon Schiele
paredes esverdeadas mofadas o cheiro do ralo a fiação exposta a crosta grossa da gordura pisoteada no chão rachado à pia encardida nada aplacava eu que ardia consumida pelo calor enquanto a água banhava os dedos afundados ensaboando os cabelos respingos de espuma nas paredes descascadas água gelada na pele meus olhos teimosos só encontravam beleza naquele banheiro paraíso onde pintas eram meu norte feito estrelas nas costas da minha amiguinha da oitava série

"vem" eu demorei para compreender mas quando entendi a água já me refrescava banheiro apertado num querer nada ensaiado nossos seios se esbarram você olha para dizer que os meus são bonitos "quer tocar?" por tudo que é vivo neste mundo o que sou é seu mas não digo faço conta do subentendido guardar aquela vontade e deixar a sua ser nossa você pede para eu tocar os seus e toco onde o sentimento escondito roubará teu juízos a água nos batiza o corpo livre é nosso

a água cúmplice nos acolhe banheiro imundo se torna o melhor lugar da terra destravadas as descobertas do toque onde você rende onde te entrego minha sina alegre esquecemos da casa do trabalho da escola da professora de geografia das outra meninas na casa na casa da sua prima toc toc toc a realidade nos separa

entre as outras meninas você feliz ri de qualquer boberinha me olha cumplicentemente num respiro fundo me alegro outras por motivos delas me evitaram depois do sexo por isso não dou o primeiro passo odeio o gosto no olhar delas espelho do banheiro não reflete mais nenhuma imagem, eu olho seus cabelos e me perco no seu cheiro na minha cama no safá da vó no banheiro da escola atrás da porta da casa da sua tia embaixo da árvore na beira do rio no banheiro da sorveteria no vestiário do clube na cama da sua mãe

rosa você é toda rosa e raso é o nosso segredo na cidade pequena da feras gigantes mas quem se importa com olhares violentos quando se tem na ponta do dedo o prazer de uma amiguinha de escola? quando o mundo se torna colorido vivo amanhecido faca-palavra nos dilacera a paz juvenil das descobertas o gosto do paraíso é proibido o cheiro do paraíso é um erro o sons do paraíso são para quem sabe esconder toda beleza será castigada

borboletas na carta de despedida seus olhos nunca mais vistos desde aqueles no banco de trás do carro do seu pai exagero cruel oportunismo egoísta sua mãe num abraço disse que nada estava errado entre nós mas os olhos da cidade os dedos-cospe-fogo marcam feito as marteladas de uma sentença minha vida é tanto apontamento maldizente que meu corpo ainda dói a saudade daqueles dias da escola menina rosada que volta sempre que o box do banheiro embaça desenho seu nome




21.9.13

coisas de menina encerrada

foto de Ale Safra

quando a prisão não é real, ela  é imaginária?
então somos todos prisioneiros?

quis saber mariquinha engaiolada

mas da minha língua presa,
da minha falta de entendimento
não voou palavra



18.9.13

coisas de menina ardida

foto de Ale Safra

fera na febre fere
fera na febre fere
fera na febre fere
...

mariquinha de trava-língua 
enquanto passa uma mistura
de álcool e sal
 nas fissuras desbeiçadas



15.9.13

coisas de menina suicida


foto de Ale Safra






"a morte não é brinquedo, mariquinha".
ela da marcha à ré, pé na fé e vaza. 
reaparece toda estropiada para ajuntamento.
que fazer? suturo.
em cada ponto, um conto.

7.9.13

gauche

fonte internet
tentei deslembrar meu nome na sua boca numa praça de buenos aires. dia de sol gélido. é preciso suturar na malha nossa história. numa praça ao som de tango entre coisas estrangeiras. percebo que meu auto-exílio não me livra de mim mesma. um homem chega e pergunta meu preço. não sou puta, penso. mas digo cem pesos. e ele quer saber onde. dou de ombros, dou por trás num canto da igreja. recebo noventa pesos. não reclamo. ele precisava do dinheiro. volto para meu banco e o sol foi roubado pelo branco de uma nuvem em formato de dromedário. outro homem chega e pergunta meu preço. já não posso dizer que não sou puta. digo cinquenta. ele diz que o quarto dele fica num hotel na esquina. seguimos. preciso planejar meu retorno ao brasil. preciso pensar em trabalhar, ou me prostituir? dá no mesmo. nos prostituímos o tempo todo. muda a mercadoria e o mercado, mas nos vendemos sempre. preciso deslembrar como é bom aquecer meu corpo no seu antes de dormir. o homem gozou rápido demais. não gosto dos homens rápidos! nem dos de pau meia-bomba. ele quer conversar, mas eu não gozar me revolta. torno-me bestial. ignorante. "meu dinheiro!" "tu no eres una perra" "sou pior! o dinheiro" ele me pagou. me jogou na cama e me lambeu até eu compreender as perdas no falocentrismo. depois me pagou umas bebidas, dançamos tango e jantamos num restaurante legal. paguei com o dinheiro de puta uma garrafa de vinho e conversamos num portunhol bem encaixado. gostei daquele homem. gostei da honestidade dele e da sabedoria em seus ojos negros. de ouvir suas histórias de amor com putas e por me proteger de mim mesma ao me tirar do banco da praça. havia uma igualdade de tragédias entre nós. e quando isso acontece entre duas pessoas, todo pouco mostrado veladamente faz poesia nos meus sentidos. compartilhamos instantaneamente o sentido daquelas existências e neste nível, enxergamos o próximo por reconhecermos o humano. então o extraordinário se doa. caminhamos abraçados tremendo de frio. fumamos todos os nossos cigarros naquela noite com final feliz. ele me deixou no meu hotel. beijou minha mão e agradeceu a alegria da minha cia. eu o abracei, depois segurei seu rosto em minhas mãos e agradeci as histórias e o zelo comigo.

é assim que você vai deixando de ser único para ser retalho. e isso é o melhor da minha história, uma malha de retalhos. únicos. belos. reais. assim em retalhos não há o ranço do tédio homogêneo. cada amor foi vivido no seu instante. cada um me soma. cada homem e mulher me recria e me divide para me tornar inteira. cada história de abandono, de saudade, de perda, de solidão me comove, pois me reconheço. cada história de amor perdido ainda leva seu nome, mas conto em diversidade e com prazer.

5.9.13

crimes do amor


I

novamente à porta, nossa demência. você de um lado bate. espera. eu do outro penso. resisto.
um mais do mesmo sem final feliz. uma cena blockbuster manjada. todas as cenas de paixão são ridículas. o amor tem esse enredo brega e previsível. entre esperar e resistir a porta some num efeito blasé. a palavra nos queima. o sofá acolhe nossa urgência. mas ainda te acho um filho da puta. você acha o mesmo de mim. é o que somos. nada mais óbvio que nós dois.


II

quando consigo mandar você embora, penso se vai procurar sua namorada. se irá rir de mim como ri dela nesse jogo de indiscrições. ai esses prazeres doloridos. eu não gosto quando você tem apenas uma namorada. gosto quando têm outras. não desejo exclusividade. não seja tolo. muito menos de dou isso como brinde. seja dela, seja meu e de quem mais você quiser ser. "mas, antes de ir, senta aqui... conta mais sobre ela. essa dor me faz tão bem".


III

lembra da nossa última viagem? nos assustamos pelo entendimento desembaraçado. a intimidade revelada. a fluidez do convívio. não somos assim. somos avessos às rédeas. preferimos a solidão da alcova a trilogia: cinema, pipoca e beijinhos. nossa perversidade nos liberta, mas nos prende. acho que gostamos disso. ou fingimos bem.


IV

ao invés de assumir que o amor é o mais vulgar dos sentimentos que lhe dedico. prefiro negar voce (e há mais verdades no ato que na palavra). distância é a única forma de me manter viva e sã. invejo seu talento para enlouquecer. faço constantes exercícios, mas sou amadora. ainda. sou assim, exposta. boca aberta ao abandono.


V

naquela viagem, percebi que lhe daria tudo, mas o susto me roubou de você. quebrei juramentos diante dos teus pedidos. seduzi e levei uma inocente para nossa cama. deixei você olhar. deixei você enlouquecer e amei todas aquelas sensações. perversamos tudo. nos tornamos criminosos juntos. insaciáveis. perigosos. doentios. exaustos.

já passei por essas situações antes, com outros homens. o jogo é demasiadamente óbvio e insuportavelmente delicioso. por isso me rendo em rendas e me repito nesses pequenos delitos. indiscrições. sadismos. perseguições. sedução e exposições veladas.


VI

você me odeia? eu perguntei na rua, sob aquela árvore que abrigava da luz do poste o carro parado: você me odeia? ME ODEIA?


VII

eu te desejo pra caralho, fdp.


27.8.13

auto-retratismo dissecado: renda

Foto de Ale Safra



ardia
rédia
(arredia)
        - ar.
dia. àquele.

tarde de mim
é fogo. cedo.
vício do teu nome
nos meus dedos

o beijo rejeitado
fere feito lavra
de puta em beira
de rodovia.





uma coruja arregalou os olhos e voou. um corpo na grama parece imitar uma cobra no cio me chamando para o enrosco. o cheiro da madrugada invade minhas saudades e ignoro. tento. ascendo um cigarro verde e converso sobre o rio e os peixes com minha cobra. a água é nosso berço, ela diz enquanto tira o vestido horroroso. são vinte e sete passados até o rio, contei e adorei como ela desenterra a calcinha. eu disse para ir nua, mas o medo dos peixes pequenos mergulharem em seu abismo a impede. quando de regresso, me deito na grama e peço que suba em mim, que deixe a água dos cabelos escorrerem na minha cara. ela me beija tão delicadinha. não gosto de beijos delicados. brejeira tenta me cativar. é o paraíso, mas ainda penso no teu beijo. uma mulher dourada de cabelos molhados na minha cara e eu pensando num filho da puta. a moça precisa fazer xixi. "faça em mim", peço. chuva dourada numa noite ausente. 
é o paraíso e seu espectro canalha espreitando atrás da árvore. veja, vou me exibir para você, olha como me farto nos seios dela. ela está sentada diante de mim, coladinha, bem assim, tribadismo no mato. veja...  ai... olhe bem... ai... você não têm seios. é liso. mirrado. te falta viço, te falta essa graça entre outras somente delas. você é só isso em riste óbvia. mas sua boca é linda. sua língua de dragão é minha saudade.  tudo no seu corpo me alegra. releve minhas maldades. continue nos olhando, ouça como ela sibila, veja como me afundo no cheiro da nuca. dos braços. da barriga. mordo esta bunda por você. humm. lambo entre as coxas dela para te mostrar como eu gosto de fazer uma mulher gozar. não deixe de espreitar, fdp, não deixe de me ver com ela, de vê-la fruir na ponda dos meus dedos. na ponta da minha língua implorando para eu não parar. adoro ameaçar desistir, parar só um tantinho, para doer um pouco: quer que eu continue?
é uma tarada. insaciável. ela seria toda sua se você não fosse um fantasma. ela adoraria e eu também. quero ver você dando o melhor de si para ela desaguar no seu trato. ou qualquer outra, pois quero te ver.
estamos soltas na natureza, bichos esgotados antes do sol, sob a árvore da coruja de orelhas. eu não te prometo nada, mas ai se você não fosse essa miséria, seríamos mais histórias. 

falta você ser verdade.

24.8.13

a solidão da boneca russa

lauren rosenbaum




















só lhe dão
sol
solidão 

há genuína luz
na caverna solitude

dentro entre eus
tantos nós

sóis incógnitos
estrelas férteis

sol em vida
só nesta festa de mins

metrôs, elevadores, casas apinhadas
de bonecas russas bípedes implumes
(que festa - inacessível - há naquela cuja nuca
morena de cabelos curtos passa?)

na minha festa, intrusos.
reconheço cicatrizes
ignoro transmutações

descubro cavernas sóis
nesta solidão que não fenece,
existo: eis-me bípede implume










14.8.13

coisas de menina má

foto de Ale Safra

Mariquinha tinha dez quando decidiu jamais ter onze. Então

salvou a bonequinha do sacrifício e passou a brincar com os 

meninos da rua.


3.8.13

adorável fdp

foto de isabel muñoz
abrir a porta pra você, foi tal qual abrir as janelas e deixar tudo ser ocupado pela brisa. tantos obstáculos até chegarmos naquele instante. desarmados e rendidos.
não me importa quando percebeu não ser possível mudar a natureza das abelhas, muito menos o que será de nós. só temos o instante.

"entra". ao passar roubei seu cheiro. fechei a porta e tentei acalmar essa colmeia confusa: quando me ocorreu a possibilidade de não te amar assim? pensei. o que mais gosto em me relacionar com você, é poder dizer tudo em silêncio. passo a chave na porta. sinto seu corpo atrás do meu. sua respiração. suas mãos se aproximando da minha pele e cabelos. não ouso me mexer. tento capturar a raridade da queda dos nossos argumentos protetores e cretinos.

desconsertados. e como não estaríamos? silêncio. suas mãos me tomam. sua boca invade minha nuca. fico presa entre você e a porta e é exatamente onde desejo estar. resistências não nos oferecemos, não naquele momento onde os corpos se movimentam para a única e cristalina vontade do que e quem desejam.
estamos entregues depois de tantos zumbidos.

adoro da urgência, a violência libidinosa. era do seu corpo minha querença. naquele dia, invadimos a noite sem nenhuma expectativa de futuro breve ou distante. e isso é libertador.

não existe cansaço entre nós enquanto existimos naquele quarto. você me entende e atende minhas provocações. falar da sua namorada é um atrevimento ardiloso. afinal, o que faz o sexo interessante para nós é justamente essa perversidade, do contrário a masturbação resolveria. mas seu talento para dizer como é o sexo com ela enquanto faz comigo é muito bom. eu te peço detalhes e você,  pessoa tão generosa e filha da puta, dá exatamente o que precisamos.

sei que irá me procurar mais vezes, mas escrevo para pedir que não faça isso. entende? não carecemos de insistências. não temos condições de sustentar promessas, pactos, acordos e que besteira mais vier entre duas pessoas que resolvem viver uma história fadada. nosso talento é nos magoarmos, lembra? não tenho mais como te pedir compreensão pelos meus pensamentos, sentimentos e atitudes. não vou tentar explicar mais nada e tampouco ser isso que você deseja de mim.
vez e outra isso acontecerá entre nós. esses deslizes reconfortantes. e sim, amo você. mas não me peça para repetir de forma doentia todo tempo, como se fosse preciso para me convencer disso. e pouco importa esse sentimento, não dá direito a nada.

é bom gozar com você, meu bem. mas agora volte para sua namorada. para suas novas mentiras. para seu castelinho dos contos felizes para sempre.

14.7.13

salamandra ondulatória

T. J. Scott
- estranha.
lambda lânguida
fio da navalha samba
salamandra manca

invocar teu gosto adormecido
na decadência do abandono  
em asfalto cadente

na cicatriz o verniz lascado
revela teu rosto 
o sol paralisante

(verdade overdose entrelinha nas tuas coxas)

quando fui tua cadela psicodélica 
sambava miúda em nota de mascate
sobre cova de serpentes raivosas

gosto dos cortes e da verdade
nas raxaduras da tua máscara
de cafetão do deserto

das rochas escaldantes
aos precipícios das tuas fendas
sal ama o doce dos teus olhos serpentinosos

serpentes voluptuosas no cio se contorcem
entre outras enroscadas em árvores com osteoporose 
viçando olhos parideiros de insetos mochos

sou o pó que você cheira 
e me faço inteira no latejo do teu pau viciado

salamandra manca
lambda lambe
tua orbita amante

não volte ao meu deserto 
com promessa de chuva:

aceito apenas inundações




25.6.13

para mariquinha, entre nascer e morrer, o mistério está no meio

na casa de mariquinha, no canto direito da sala, quando a gente chega ou parte, quando a gente vai ao banheiro ou  para o quarto, até mesmo ao se olhar no espelho dá para ver um caixão de vidro, engenhosamente ligado na terra por tubo com um cadáver dentro. se decompondo naturalmente como se estivesse fazendo fotossíntese as avessas, e lá pelos lados dos pés têm uns retratos em molduras sobre toalhinhas de trico amarelas.
não fiquem roubados pelo espanto. abra o entendimento, é só o avô paterno de mariquinha mortinho de bem morto, com algumas larvinhas famintas fazendo o que sabem fazer as larvinhas, é certo.
estou aqui para contar meu desejo em ter meu próprio morto.

desde minha chegada neste conto ainda não tive um morto para deixar na sala de estar. bom, não sei se deixaria na sala de estar, soube de mortos que ficam no quarto. também de alguns que ficam na cozinha. o tradicional é deixar na sala para compartilhar com as pessoas que habitam a casa, mas não sei onde deixaria meu mortinho. só tô sabendo que preciso de um morto para não fazer burrices e ser expulsa da cidade.
não posso roubar o morto de ninguém, precisa ter tido uma história comigo e ter me amado e eu a ele.
cheguei aqui pelas minhas pernas desacreditadas, olhar de árvore oca, ouvidos de páginas em branco e língua mirrada, achei de uma beleza magnânima e fui me encostando. deixaram.
mariquinha me deu amizade, outros me deram outras sustâncias e constitui vida. uma belezura de se ver em céu azul de nuvens fogoseadas. mas sem meu morto para me dar seu silêncio eu não me escuto e fico assim, lascada na falta de rumo e incapaz de contribuir com ações extraordinárias.

quanto contei a mariquinha o que fazemos com os mortos lá pras bandas de onde venho, ela se chocou de uma lastima nada ordinária. depois de uns dias mostrou a floresta onde crescem as árvores que queimam os corpos dos mortos que são substituídos por cadáveres mais frescos. pois nenhum cadáver merece viver para sempre na casa, precisa voltar ao pó. coisa linda ela imaginar se a árvore que seria o combustível para pórificar seu corpo já estava crescendo ali. 
você quer dizer purificar, pois sim? disse eu com essa língua mirrada. e mereci ouvir que é pórificar de voltar a pureza do pó, pois ela sempre foi pura de pureza materialista mesmo: quem tem um morto em casa não precisa de nada além do morto em casa. disse ela.
contei à mariquinha dos cemitérios, das igrejas, dos livros ditos sagrados, dos livros das constituições políticas, das convenções sociais... ela disse da tristeza da gente esconder ao enterrar as coisa que nos libertam. e achou mais feio ainda desrespeitar a pórificação e repetiu solenemente: quem tem um morto em casa não precisa de nada além do morto em casa.
pensei se o pó não seria uma outra crença, mas concluí que o pó é a vida universal despregada de sentidos que sentem nossos sentidos.
sem um morto não terei utilidade para a cidade e não saberei conviver. 
mas astuciosa que sou percebi um erro danado, cometido é certo, por quem não tem um morto. e a saída correta achada pela minha genialidade robusta seria lidar com as probabilidades, pois se pude achar este conto, capaz que sou, também posso aumentar gigantemente minha chance para ganhar meu mortinho. 
contei para mariquinha cujo rumo do meu planejamento era ser amada, todavia mais que isso eu precisava amar, pois desta matéria se faz um bom morto doméstico nos aconselhar no seu silêncio onde eu me ouço, amar e ser amado, dito isto eu precisava deverasmente amar de morrer de amor o maior número de pessoas daquela cidade e a sorte talvez daria para mim o morto.
mariquinha tentou me advertir para questões de extrema dolorosidade, mas posto que divagações metafísica nunca deram conta da prática, continuei amarrada na ignorância.

e passei a cuidar de amar, quanto mais eu amava mais era amada. quanto mais eu via os mortos alheios, mais eu temia perder os meus amores e ter um deles na sala e foi então pelo entendimento na prática de perder quaisquer que fossem daquelas singularidades encantadas que quis fugir, mas era tarde. uma tarde de chuva, de vento, de queda. cai de dolorosa que era minha lágrima ao saber que mariquinha, no hábito de olhar as árvores ignorou o vento, o peso e um galho fraco. caiu do seu carinho pelo fogo em potência da árvore e se deixou pra mim. 

guardei aquele galho para fazê-la pó.

----

para o coveiro de santa fé, aquele (em pó) que me ensinou a não dizer cemitério, mas sumitério.

17.6.13

ANA MARROM


a porta não quis me deixar sair
avisou sobre meus olhos inchados borrados de terra
coisa velha. consenti. voltei

abrir bau é descer em cova nada rasa
fotos antigas me aprofundam
eu sou desajustada. fantasma bailante

quando olhei aquela foto e vi meu olhar
assustei, não sabia que me doía assim
avessa ao avesso do espelho dos outros

porta fechada e paredes me guardam
ainda viva, ainda vida, ainda res-
piro um resto de insistência

resistência é essa coisa de achar que ainda dá
mas dá onde? dá o quê? para que insistir?

a rua bélica chama 
ardente insistência continental
quem terá coragem para dizer que estamos mortos?

não! não estamos! não estou. mas o que resta sonhar?
marchar feito o vento depositando sementes e fúrias
tempestades e brisas: temporaneidades 

eu desisti de você, fúria
desista de mim suplico
não deixe rastro na minha praia

a porta encalacrada do meu silêncio me guarda
cada lado das paredes me acolhem
eu sou ilha. por nascer ilha

são minguadas todas as pontes: frágeis passarelas espinhentas
a natureza me concebeu encerrada em mim. o continente não me pertence
olho quem é continente sem medo de onda e cisca minha garganta

no centro da ilha me caibo em quatro paredes, uma janela e uma porta temperamental
acima nemesis, a gemeá solar maligna 
lança de si a lenda: evoluir para destruir. destruir para evoluir

eis o movimento?

as pontes estão fantasmagóricas
o continente cobre-se em neblina
eu jogo ao mar coisas & palavras

desajustada para ser continente
sou ilha. mas ao ver a rua eu percebi...
quem não é?








3.6.13

foi tudo mentira

foto de Ale Safra - Emílio Ribas/SP 02/06/13

ira mente ao sal qualquer lembrança doce

fui expulsa do marsúpio éden. meu estado natural
é sem as gotas nas cores das flores

a vida tinha seu nome antes dos corredores em cores balbuciantes
antes das ruas espectrosas me encerrar atrás de portas estéreis

sinto hálitos enquanto escuto o tilintar de ossos articulados
sinto a vida com medo de extinção em corpos-vivos

há tanta vontade de vida em cada vírus e bactéria,
cada cancro crescente arrebenta pactual silêncio da mentira diária

(trinta e dois passos pelo corredor do hospital, de cabeça baixa, vejo sapatinhos de bico redondo com lacinho xadrez. era seu par naquela manhã, Adele. mão na minha mão, pé direito com pé esquerdo no mesmo passo... um, dois e três. para dentro. nunca mais para fora)

eu me revesti de fortaleza num vestido azul
matéria etérea tentando afastar o grito
facas-olhos atravessam minha pele

eu já li essas retinas antes:
som de porcos a caminho do abate


6.5.13

tout passe ?


johan lind

tout passe - o sal desta saliva recorrente nem

sol.                              
estou com seu espectro num corredor claustrofóbico. emparedada em angústia. não é você que está comigo, mas a criatura inventada. só existe uma saída: enlouquecer. só existem dois caminhos. para frente ou para o lado. por uma direção me precipito para seu abismo castanho. no outro, retomo um velho plano juvenil.


Alice,

adorei sua alegria ao me mostrar a foto que encontrou de quando era bebê. sua leveza em ver-se tão bem cuidada parecia reajustar aquela velha sensação de rejeição para um carinho nunca experimentado.
eu tentei achar fotos de quando eu era pequena assim, mas como eu era duplicada, após o que aconteceu todas as fotos foram queimada na falta de vocação da minha mãe para grandes dores.

eu não lhe disse, mas me recordei dessa sua história quando ganhei recentemente uma pedra do meu pai. eu gosto de pedras. ele disse que havia achado aquela e guardou para mim. ela é tão feia que é a mais legal das pedras que tenho. a atitude dele fez eu me sentir como você.

quando ele me presenteou todo sem hábito, o rústico ato me fez pensar como os pequenos passos têm a grandeza para facilitar sorrisos. o abandono dos nossos velhos adultos ao menos nos deu uma para outra. foi um tempo de descobertas singulares.

como seria se Adele não tivesse morrido? como seria se sua mãe não tivesse adoecido?
lá na casa da vó, sentadas na janela do meu quarto, nos perdíamos em silêncio olhando o pasto, as estrelas, as árvores envoltas no breu das madrugadas quentes. mata dos nossos segredos. quantos são, Alice?

falamos tanto de nós que chegamos a confundir nossas lembranças. as conversas e significados que dávamos as nossas história me constituíram. enxergar você me fez ter duas peles.

se Adele não tivesse morrido e minha mãe não tivesse se amarrotado em nós, se eu não tivesse ido morar com a vó, se a vó não tivesse tido aquele namorado ateu, cujo presente dado nos meus quinze anos foi o livro A Religiosa, de Diderot, eu não teria tido interesse por filosofia? se ambos não tivessem tidos seus "ses" e fossem diferentes, eu seria diferente agora? mas tantos "ses" e seus questionamentos infrutíferos revelam outras coisas.

o que você seria, Alice, se sua mãe não tivesse adoecido e te culpado? será que estaria em santa fé, com marido e filhos numa casa com quintal e árvores, indo almoçar na casa dos pais ou sogros aos finais de semana? seria assim comigo também? seríamos comadres falando sobre o tempo, trocando receitas?

se a vó e o namorado dela não tivessem me esclarecido sobre tantas coisas, talvez eu teria sufocado e condenado meu gosto por meninas. teria aceitado como "normal" aquele desarranjo de casa, teria sido outra.

mas o seu "se" é que me metamorfoseia, pois um desses "ses" que contam sua história, eu sou alguns. se eu tivesse insistido mais para você vir morar comigo, se eu tivesse conversado mais com você, se eu... me responsabilizo por não ter segurado mais firme suas mãos. talvez você não teria feito o que fez consigo. eramos tão jovens, meu amor. aquelas pedras não nos pertenciam. eu era toda sua. e ainda sou. mas você agora é adesivo na minha retina. o pós na minha palavra, a ruga do meu coração.

por qual motivo meninas quando amam são tão exageradas? tentei te abraçar, mas não consegui. eu sinto demais a sua perda. eu sinto demais algumas perdas, algumas mortes, alguns abandonos.

...

foi uma odisseia até aqui. até poder dizer tudo isso.

naquela mata, onde as árvores eram generosas nós éramos livres e reproduzíamos uma ilha encantada,  experimentávamos o mundo em nossas peles. sinto falta da sua companhia. sinto falta de como eu era quando estava com você. sinto falta da ausência de medo que eu sentia e da arrogância em acreditar que tudo era possível.

o amor e o medo são trágicos, Alice. foi para ambas. e só há uma miserável e única saída para toda essa casca seca de árvore morta que deu lugar ao asfalto.

tudo passa, mas e o que fica em nós?

...

excerto do livro amoreira.
09/11.

11.4.13

sãlinidade



Ansel Adams
partir

ar
ir

(Paraty)

em ti o ar
aguada aqui 

não há razão
naquele antes

(só me gosto
gostando de você)

 p.s.:  ressaca brava

ir
v-
ir

 (reproduzir a sede marinha
 o óbvio não nos concha)

 não vou me desvestir desta pele,
o sal em mim teu nome

 há mar  (para nós)
 oceanos

 

 

6.4.13

pas de chat

foto de David Winge




às 18:05 te encontro no café. do dia nó no horizonte passo travado. palavra tocaia. dor na boca famélica. língua pó. aves depenadas que olham as nuvens com saudade de



(meus segredos são públicos, dançam vestindo plumagens coloridas)



nossas células morreram (aquelas). a memória fica em células que passam seus núcleos com a imagem daquele nosso beijo para outras células antes de morrerem? e se uma transmissão falhar? a lembrança terá gosto de saudade destemperada? sem rosto? sentirei que um beijo foi bom, mas já não saberei se foi o seu?

(seus achismos são sentenças grosseiras as nossas células sensíveis)



o estômago está vazio. sem combustível. não queimo. teria  sanidade deitada no seu peito? mas o meio, neste meio do dia, nesse meio da história, no meio do fim do mundo. no meio as estátuas dançam balé clássico: demi-plié para eternidade 

(espera repetida. insonia ao meio dia. o meio é insano: meio dia te amo no outro não sei)

não gosto da eternidade, ela é amante do tempo e ambos são taxativamente excludentes. são nossos inimigos, amor. eles ficam neste balé sem fim e aquele nosso beijo não significa nada para ambos. sádicos! confesso: morro de inveja do tempo e da eternidade. casal antipático. mas um dia a saudade de você não será mais minha

hoje olho para as nuvens e me sinto ausência. 


(mas às 18:05 espero você. no meio do meu meio do seu dia)






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