20.1.13

para j.g. 40 morena

ela tem um filho. doze anos. o vi uma única vez numa livraria da avenida paulista. o menino e o marido. mimoseei o filho num dia qualquer com o livro perigoso para garotos. parece que ele gostou. ela tinha trinta e oito anos e um marido tacanho de quarenta. careca e habitual, estatuário numa "empresa de renome". nem sabia antes dessa profissão. vivem em ondas razoáveis ao sabor do mar insosso da rotina.

a conheci no metrô. gostei da boca, dos olhos negros de cílios longos pintados de verde, da pele branca com pintas. admirei sua cicatriz no canto esquerdo do queixo, pensei em algumas possibilidades e soube depois que foi em uma briga com o ex namorado. ela respondeu meu olhar, riu (elas sempre riem e eu me desarmo de todas as tolices), desceu quando fui baldear no paraíso. uma mulher raríssima, só arriscando alto para não perde-la, pensei.

conversamos. ela estava voltando do médico e eu para o escritório após uma visita a um cliente.
ela ria muito. estava nervosa e não parava de falar. gesticulava e olhava para os lados, mas sobretudo para mim. encarava para ler o que não ouvia e mesmo aparentemente assustada, não desistiu.
perguntei se queria tomar alguma coisa e ela respondeu "um banho". logo emendou dizendo que era brincadeira! sugeri um hotel ao lado do metrô. discreto e fácil para atender seu pedido. eu tentei uma dessas jogadas masculinas diretas e sem muita enrolação. temi que ela fosse embora ofendida com minha canalhice. não era uma situação ordinária. ela estava nervosa por nunca ter passado por aquela situação antes. mas esse tipo de encontro no metrô, comigo ocorreu duas vezes.

na primeira vez, também dentro do metrô e a caminho do paraíso, conheci uma garota. o batom laranja, os olhos pintados de preto, o coturno alto e o short rasgado... ela respondeu meu riso enquanto eu olhava pelo espelhinho do estojo de maquiagem meu pescoço, não gosto quando deixam marcas. fiquei encantada com aquele riso meigo. acho que já contei nossa história aqui, sim, no texto maria dos meus pecados ou algo assim. no dia que nos conhecemos nada aconteceu, ela não tinha vinte anos e nenhuma pressa. eu tenho urgência, sempre tive. tesão (para mim)  precisa ser vivido logo. não estou dizendo que não me relaciono por um tempo maior, maria me embalou uns dias, mas tivemos um relacionamento de alguns meses. eu não gosto da enrolação que é medo, culpa, vergonha e maldade. maria queria amor, quando ela entendeu que eu não daria isso me deu um pé daqueles. eu gostei da atitude e do cuidado que teve com os seus sentimentos. estava certa, nem me defendi. vesti minha roupa e voltei para rua.
uma amiga minha disse que pareço caçadora. olho sempre a procura de novas possibilidades. não gostei da definição. eu aprecio as pessoas, observo sua singularidade e se elas me encantam e é recíproco, não tem mistério. o sexo é um contato de discurso velado, diz maravilhas sobre aquela vida.

ela suava. as pessoas passavam alheias. será que ela já esteve com outra mulher? será que é apenas uma fantasia dela? eu pensei muitas coisas, mas disse poucas. cheguei perto para sentir seu cheiro e comemorei ela não usar perfume, cheiro bom de pele bem tratada, alimentação com pouca ou nenhuma carne vermelha. muita água e algum tipo de exercício. analisei. ela pegou no meu braço: "vamos agora".

quem sou eu para recusar abrir um presente tão finamente lacrado? quem sou eu para negar um chocolate branco com recheio do licor dos deuses? quem sou eu para ser cruel com o pedido de uma mulher? como poderia recusar um banho com ela? para voltar a um escritório onde o hábito é morrer em relatórios?

não maltrato minha boa sorte.



para j.g. 40 morena

sinto muito não saber escrever histórias de amor.

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