6.5.13

tout passe ?


johan lind

tout passe - o sal desta saliva recorrente nem

sol.                              
estou com seu espectro num corredor claustrofóbico. emparedada em angústia. não é você que está comigo, mas a criatura inventada. só existe uma saída: enlouquecer. só existem dois caminhos. para frente ou para o lado. por uma direção me precipito para seu abismo castanho. no outro, retomo um velho plano juvenil.


Alice,

adorei sua alegria ao me mostrar a foto que encontrou de quando era bebê. sua leveza em ver-se tão bem cuidada parecia reajustar aquela velha sensação de rejeição para um carinho nunca experimentado.
eu tentei achar fotos de quando eu era pequena assim, mas como eu era duplicada, após o que aconteceu todas as fotos foram queimada na falta de vocação da minha mãe para grandes dores.

eu não lhe disse, mas me recordei dessa sua história quando ganhei recentemente uma pedra do meu pai. eu gosto de pedras. ele disse que havia achado aquela e guardou para mim. ela é tão feia que é a mais legal das pedras que tenho. a atitude dele fez eu me sentir como você.

quando ele me presenteou todo sem hábito, o rústico ato me fez pensar como os pequenos passos têm a grandeza para facilitar sorrisos. o abandono dos nossos velhos adultos ao menos nos deu uma para outra. foi um tempo de descobertas singulares.

como seria se Adele não tivesse morrido? como seria se sua mãe não tivesse adoecido?
lá na casa da vó, sentadas na janela do meu quarto, nos perdíamos em silêncio olhando o pasto, as estrelas, as árvores envoltas no breu das madrugadas quentes. mata dos nossos segredos. quantos são, Alice?

falamos tanto de nós que chegamos a confundir nossas lembranças. as conversas e significados que dávamos as nossas história me constituíram. enxergar você me fez ter duas peles.

se Adele não tivesse morrido e minha mãe não tivesse se amarrotado em nós, se eu não tivesse ido morar com a vó, se a vó não tivesse tido aquele namorado ateu, cujo presente dado nos meus quinze anos foi o livro A Religiosa, de Diderot, eu não teria tido interesse por filosofia? se ambos não tivessem tidos seus "ses" e fossem diferentes, eu seria diferente agora? mas tantos "ses" e seus questionamentos infrutíferos revelam outras coisas.

o que você seria, Alice, se sua mãe não tivesse adoecido e te culpado? será que estaria em santa fé, com marido e filhos numa casa com quintal e árvores, indo almoçar na casa dos pais ou sogros aos finais de semana? seria assim comigo também? seríamos comadres falando sobre o tempo, trocando receitas?

se a vó e o namorado dela não tivessem me esclarecido sobre tantas coisas, talvez eu teria sufocado e condenado meu gosto por meninas. teria aceitado como "normal" aquele desarranjo de casa, teria sido outra.

mas o seu "se" é que me metamorfoseia, pois um desses "ses" que contam sua história, eu sou alguns. se eu tivesse insistido mais para você vir morar comigo, se eu tivesse conversado mais com você, se eu... me responsabilizo por não ter segurado mais firme suas mãos. talvez você não teria feito o que fez consigo. eramos tão jovens, meu amor. aquelas pedras não nos pertenciam. eu era toda sua. e ainda sou. mas você agora é adesivo na minha retina. o pós na minha palavra, a ruga do meu coração.

por qual motivo meninas quando amam são tão exageradas? tentei te abraçar, mas não consegui. eu sinto demais a sua perda. eu sinto demais algumas perdas, algumas mortes, alguns abandonos.

...

foi uma odisseia até aqui. até poder dizer tudo isso.

naquela mata, onde as árvores eram generosas nós éramos livres e reproduzíamos uma ilha encantada,  experimentávamos o mundo em nossas peles. sinto falta da sua companhia. sinto falta de como eu era quando estava com você. sinto falta da ausência de medo que eu sentia e da arrogância em acreditar que tudo era possível.

o amor e o medo são trágicos, Alice. foi para ambas. e só há uma miserável e única saída para toda essa casca seca de árvore morta que deu lugar ao asfalto.

tudo passa, mas e o que fica em nós?

...

excerto do livro amoreira.
09/11.

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