25.6.13

para mariquinha, entre nascer e morrer, o mistério está no meio

na casa de mariquinha, no canto direito da sala, quando a gente chega ou parte, quando a gente vai ao banheiro ou  para o quarto, até mesmo ao se olhar no espelho dá para ver um caixão de vidro, engenhosamente ligado na terra por tubo com um cadáver dentro. se decompondo naturalmente como se estivesse fazendo fotossíntese as avessas, e lá pelos lados dos pés têm uns retratos em molduras sobre toalhinhas de trico amarelas.
não fiquem roubados pelo espanto. abra o entendimento, é só o avô paterno de mariquinha mortinho de bem morto, com algumas larvinhas famintas fazendo o que sabem fazer as larvinhas, é certo.
estou aqui para contar meu desejo em ter meu próprio morto.

desde minha chegada neste conto ainda não tive um morto para deixar na sala de estar. bom, não sei se deixaria na sala de estar, soube de mortos que ficam no quarto. também de alguns que ficam na cozinha. o tradicional é deixar na sala para compartilhar com as pessoas que habitam a casa, mas não sei onde deixaria meu mortinho. só tô sabendo que preciso de um morto para não fazer burrices e ser expulsa da cidade.
não posso roubar o morto de ninguém, precisa ter tido uma história comigo e ter me amado e eu a ele.
cheguei aqui pelas minhas pernas desacreditadas, olhar de árvore oca, ouvidos de páginas em branco e língua mirrada, achei de uma beleza magnânima e fui me encostando. deixaram.
mariquinha me deu amizade, outros me deram outras sustâncias e constitui vida. uma belezura de se ver em céu azul de nuvens fogoseadas. mas sem meu morto para me dar seu silêncio eu não me escuto e fico assim, lascada na falta de rumo e incapaz de contribuir com ações extraordinárias.

quanto contei a mariquinha o que fazemos com os mortos lá pras bandas de onde venho, ela se chocou de uma lastima nada ordinária. depois de uns dias mostrou a floresta onde crescem as árvores que queimam os corpos dos mortos que são substituídos por cadáveres mais frescos. pois nenhum cadáver merece viver para sempre na casa, precisa voltar ao pó. coisa linda ela imaginar se a árvore que seria o combustível para pórificar seu corpo já estava crescendo ali. 
você quer dizer purificar, pois sim? disse eu com essa língua mirrada. e mereci ouvir que é pórificar de voltar a pureza do pó, pois ela sempre foi pura de pureza materialista mesmo: quem tem um morto em casa não precisa de nada além do morto em casa. disse ela.
contei à mariquinha dos cemitérios, das igrejas, dos livros ditos sagrados, dos livros das constituições políticas, das convenções sociais... ela disse da tristeza da gente esconder ao enterrar as coisa que nos libertam. e achou mais feio ainda desrespeitar a pórificação e repetiu solenemente: quem tem um morto em casa não precisa de nada além do morto em casa.
pensei se o pó não seria uma outra crença, mas concluí que o pó é a vida universal despregada de sentidos que sentem nossos sentidos.
sem um morto não terei utilidade para a cidade e não saberei conviver. 
mas astuciosa que sou percebi um erro danado, cometido é certo, por quem não tem um morto. e a saída correta achada pela minha genialidade robusta seria lidar com as probabilidades, pois se pude achar este conto, capaz que sou, também posso aumentar gigantemente minha chance para ganhar meu mortinho. 
contei para mariquinha cujo rumo do meu planejamento era ser amada, todavia mais que isso eu precisava amar, pois desta matéria se faz um bom morto doméstico nos aconselhar no seu silêncio onde eu me ouço, amar e ser amado, dito isto eu precisava deverasmente amar de morrer de amor o maior número de pessoas daquela cidade e a sorte talvez daria para mim o morto.
mariquinha tentou me advertir para questões de extrema dolorosidade, mas posto que divagações metafísica nunca deram conta da prática, continuei amarrada na ignorância.

e passei a cuidar de amar, quanto mais eu amava mais era amada. quanto mais eu via os mortos alheios, mais eu temia perder os meus amores e ter um deles na sala e foi então pelo entendimento na prática de perder quaisquer que fossem daquelas singularidades encantadas que quis fugir, mas era tarde. uma tarde de chuva, de vento, de queda. cai de dolorosa que era minha lágrima ao saber que mariquinha, no hábito de olhar as árvores ignorou o vento, o peso e um galho fraco. caiu do seu carinho pelo fogo em potência da árvore e se deixou pra mim. 

guardei aquele galho para fazê-la pó.

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para o coveiro de santa fé, aquele (em pó) que me ensinou a não dizer cemitério, mas sumitério.

17.6.13

ANA MARROM


a porta não quis me deixar sair
avisou sobre meus olhos inchados borrados de terra
coisa velha. consenti. voltei

abrir bau é descer em cova nada rasa
fotos antigas me aprofundam
eu sou desajustada. fantasma bailante

quando olhei aquela foto e vi meu olhar
assustei, não sabia que me doía assim
avessa ao avesso do espelho dos outros

porta fechada e paredes me guardam
ainda viva, ainda vida, ainda res-
piro um resto de insistência

resistência é essa coisa de achar que ainda dá
mas dá onde? dá o quê? para que insistir?

a rua bélica chama 
ardente insistência continental
quem terá coragem para dizer que estamos mortos?

não! não estamos! não estou. mas o que resta sonhar?
marchar feito o vento depositando sementes e fúrias
tempestades e brisas: temporaneidades 

eu desisti de você, fúria
desista de mim suplico
não deixe rastro na minha praia

a porta encalacrada do meu silêncio me guarda
cada lado das paredes me acolhem
eu sou ilha. por nascer ilha

são minguadas todas as pontes: frágeis passarelas espinhentas
a natureza me concebeu encerrada em mim. o continente não me pertence
olho quem é continente sem medo de onda e cisca minha garganta

no centro da ilha me caibo em quatro paredes, uma janela e uma porta temperamental
acima nemesis, a gemeá solar maligna 
lança de si a lenda: evoluir para destruir. destruir para evoluir

eis o movimento?

as pontes estão fantasmagóricas
o continente cobre-se em neblina
eu jogo ao mar coisas & palavras

desajustada para ser continente
sou ilha. mas ao ver a rua eu percebi...
quem não é?








3.6.13

foi tudo mentira

foto de Ale Safra - Emílio Ribas/SP 02/06/13

ira mente ao sal qualquer lembrança doce

fui expulsa do marsúpio éden. meu estado natural
é sem as gotas nas cores das flores

a vida tinha seu nome antes dos corredores em cores balbuciantes
antes das ruas espectrosas me encerrar atrás de portas estéreis

sinto hálitos enquanto escuto o tilintar de ossos articulados
sinto a vida com medo de extinção em corpos-vivos

há tanta vontade de vida em cada vírus e bactéria,
cada cancro crescente arrebenta pactual silêncio da mentira diária

(trinta e dois passos pelo corredor do hospital, de cabeça baixa, vejo sapatinhos de bico redondo com lacinho xadrez. era seu par naquela manhã, Adele. mão na minha mão, pé direito com pé esquerdo no mesmo passo... um, dois e três. para dentro. nunca mais para fora)

eu me revesti de fortaleza num vestido azul
matéria etérea tentando afastar o grito
facas-olhos atravessam minha pele

eu já li essas retinas antes:
som de porcos a caminho do abate


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