29.9.13

garotas interrompidas

Egon Schiele
paredes esverdeadas mofadas o cheiro do ralo a fiação exposta a crosta grossa da gordura pisoteada no chão rachado à pia encardida nada aplacava eu que ardia consumida pelo calor enquanto a água banhava os dedos afundados ensaboando os cabelos respingos de espuma nas paredes descascadas água gelada na pele meus olhos teimosos só encontravam beleza naquele banheiro paraíso onde pintas eram meu norte feito estrelas nas costas da minha amiguinha da oitava série

"vem" eu demorei para compreender mas quando entendi a água já me refrescava banheiro apertado num querer nada ensaiado nossos seios se esbarram você olha para dizer que os meus são bonitos "quer tocar?" por tudo que é vivo neste mundo o que sou é seu mas não digo faço conta do subentendido guardar aquela vontade e deixar a sua ser nossa você pede para eu tocar os seus e toco onde o sentimento escondito roubará teu juízos a água nos batiza o corpo livre é nosso

a água cúmplice nos acolhe banheiro imundo se torna o melhor lugar da terra destravadas as descobertas do toque onde você rende onde te entrego minha sina alegre esquecemos da casa do trabalho da escola da professora de geografia das outra meninas na casa na casa da sua prima toc toc toc a realidade nos separa

entre as outras meninas você feliz ri de qualquer boberinha me olha cumplicentemente num respiro fundo me alegro outras por motivos delas me evitaram depois do sexo por isso não dou o primeiro passo odeio o gosto no olhar delas espelho do banheiro não reflete mais nenhuma imagem, eu olho seus cabelos e me perco no seu cheiro na minha cama no safá da vó no banheiro da escola atrás da porta da casa da sua tia embaixo da árvore na beira do rio no banheiro da sorveteria no vestiário do clube na cama da sua mãe

rosa você é toda rosa e raso é o nosso segredo na cidade pequena da feras gigantes mas quem se importa com olhares violentos quando se tem na ponta do dedo o prazer de uma amiguinha de escola? quando o mundo se torna colorido vivo amanhecido faca-palavra nos dilacera a paz juvenil das descobertas o gosto do paraíso é proibido o cheiro do paraíso é um erro o sons do paraíso são para quem sabe esconder toda beleza será castigada

borboletas na carta de despedida seus olhos nunca mais vistos desde aqueles no banco de trás do carro do seu pai exagero cruel oportunismo egoísta sua mãe num abraço disse que nada estava errado entre nós mas os olhos da cidade os dedos-cospe-fogo marcam feito as marteladas de uma sentença minha vida é tanto apontamento maldizente que meu corpo ainda dói a saudade daqueles dias da escola menina rosada que volta sempre que o box do banheiro embaça desenho seu nome




Um comentário:

  1. Sua narrativa se parece com alguma coisa que eu tentei dizer em um texto meu e não dei conta, não com tanta maestria. Sua escrita é de tirar o fôlego.

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