7.9.13

gauche

fonte internet
tentei deslembrar meu nome na sua boca numa praça de buenos aires. dia de sol gélido. é preciso suturar na malha nossa história. numa praça ao som de tango entre coisas estrangeiras. percebo que meu auto-exílio não me livra de mim mesma. um homem chega e pergunta meu preço. não sou puta, penso. mas digo cem pesos. e ele quer saber onde. dou de ombros, dou por trás num canto da igreja. recebo noventa pesos. não reclamo. ele precisava do dinheiro. volto para meu banco e o sol foi roubado pelo branco de uma nuvem em formato de dromedário. outro homem chega e pergunta meu preço. já não posso dizer que não sou puta. digo cinquenta. ele diz que o quarto dele fica num hotel na esquina. seguimos. preciso planejar meu retorno ao brasil. preciso pensar em trabalhar, ou me prostituir? dá no mesmo. nos prostituímos o tempo todo. muda a mercadoria e o mercado, mas nos vendemos sempre. preciso deslembrar como é bom aquecer meu corpo no seu antes de dormir. o homem gozou rápido demais. não gosto dos homens rápidos! nem dos de pau meia-bomba. ele quer conversar, mas eu não gozar me revolta. torno-me bestial. ignorante. "meu dinheiro!" "tu no eres una perra" "sou pior! o dinheiro" ele me pagou. me jogou na cama e me lambeu até eu compreender as perdas no falocentrismo. depois me pagou umas bebidas, dançamos tango e jantamos num restaurante legal. paguei com o dinheiro de puta uma garrafa de vinho e conversamos num portunhol bem encaixado. gostei daquele homem. gostei da honestidade dele e da sabedoria em seus ojos negros. de ouvir suas histórias de amor com putas e por me proteger de mim mesma ao me tirar do banco da praça. havia uma igualdade de tragédias entre nós. e quando isso acontece entre duas pessoas, todo pouco mostrado veladamente faz poesia nos meus sentidos. compartilhamos instantaneamente o sentido daquelas existências e neste nível, enxergamos o próximo por reconhecermos o humano. então o extraordinário se doa. caminhamos abraçados tremendo de frio. fumamos todos os nossos cigarros naquela noite com final feliz. ele me deixou no meu hotel. beijou minha mão e agradeceu a alegria da minha cia. eu o abracei, depois segurei seu rosto em minhas mãos e agradeci as histórias e o zelo comigo.

é assim que você vai deixando de ser único para ser retalho. e isso é o melhor da minha história, uma malha de retalhos. únicos. belos. reais. assim em retalhos não há o ranço do tédio homogêneo. cada amor foi vivido no seu instante. cada um me soma. cada homem e mulher me recria e me divide para me tornar inteira. cada história de abandono, de saudade, de perda, de solidão me comove, pois me reconheço. cada história de amor perdido ainda leva seu nome, mas conto em diversidade e com prazer.

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