10.3.14

maioria da minoria






sou mulher, negra, gay, árabe, ateia
tenho meu rosto desfigurado por ácido,
o corpo escondido por um manto negro
ou exposto como arranjo de mercadoria
sou pobre, deficiente, ignorada. escondida
meus olhos estão roxos e meus lábios cortados
vagina desrespeitada pelo absurdo
sou bela, rica, asiática, e mantida como escrava
atendo todos os rótulos: vadia, mãe, amante
louca, piranha, santa, vaca, puta, fofa e tô na rua
mesmo morta pela misoginia, pelo machismo e homofobia
pelos abortos clandestinos, em campos de refugiados
mesmo mosta por nascer menina, lána china
vivo na boca das meninas. todo suor do massacrante trabalho doméstico
é da minha testa que desce quando sou roubadas de mim
meu útero saqueado para gerar soldados e consumistas
meu corpo roubado por ser escrava sexual, rural e emocional
oito do três não é meu dia. piso em todas as rosas
ignoro todo parabéns. hoje é um dia triste
um trinta e oito apontado para meus olhos
esse dia estúpido não deve ter ares de festa
toda homenagem, presentes, abraços, é um ato violento
que banaliza todo sofrimento, discurso e movimento
ouça as mortas, sinta suas dores, elas são de todas nós
falem de mim, destas marcas aqui. deste roubo. deste assassinato
desta desunião criada entre eu e minhas iguais. destes deuses patriarcais
não sou vítima, sou roubada em todos os meus direitos de existir
mas sou mulher e tô na luta e sou todas as mulheres do mundo
agora, passado e futuro


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