26.11.14

um copo de pó

Gal Oppido


evito, há muito tempo, a morte deste eu. não é uma vida ruim. o que incomoda são as mentiras que não criamos.
morrer é para poucos. mesmo. nascer é doloroso. mais que morrer. sinto mais comiseração por quem nasce do que por quem morre. ou do que renasce, para o que deixa de ser.
o meio, entre nascer e morrer, é uma nuvem fofa num céu inconstante e alheio aos desejos. eu deveria amar a mudança. mas me apeguei a esta vida mais que imaginei. ou, me convenci das minhas mentiras.

quando volto para você, é uma mentira que nos conto. vivemos por convenção. mas já sacamos o engano. tentamos tapar as rachaduras. tentamos?  acho que já não escoro mais as paredes. o teto semi despencado revela que as tempestades não tardam.

é curioso como a terra não teme as inconstâncias do seu oposto, pelo contrário, anseia passivo essas monções, sem temer a severidade, sabe reconhecer os dias bons ao seu constante deslumbramento. e espera o sol apaziguar a vida. e renovar. e renascer. e transformar numa parceria constante o que vem de cima. o céu as vezes deseja a terra. e se ligam em momentos raros. mas em cenários de tormentas.

"nem tanto ao céu, nem tanto a terra" diz o clichê, e neste nosso compasso sou o céu, você a terra. meu coração está tempestade e o seu hábito. espera. o meio termo entre nós é uma mentira antológica.

somos inocentes.

o sol queima nosso cantos sombrosos. e se não inundar e desabar, ficará estéril e será pó. que escolhas temos?
nenhuma, amor. nenhuma.




2 comentários:

  1. "somos inocentes.
    o sol queima nosso cantos sombrosos. e se não inundar e desabar, ficará estéril e será pó. que escolhas temos?"
    Ale, é um texto lindo, reflexivo e viajante. Obrigada

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