7.12.15

face rosada

Gal Oppido

gosto dos covardes quando abrem a boca para as cinzas dos meus cigarros
gosto dos medrosos quando, de quatro, deixam eu entrar
gosto dos fracos por saberem lamber meus pés
e amo aqueles como você, que dão a face e as bolas pra eu bater
você é o cretino que procuro para minhas cordas sujas
sua boca fica linda com minha calcinha dentro
seus olhos na minha venda
te quero arregado
de quatro no ato
a meio caminho do esquecimento

5.12.15

rosa sol


Foto de Ale Safra

ninguém desterrado aventura
te
buscar
entre as pedras do rio,
onde um bafo quente sai deste peito triste,
e além chega, nas tempestades cinzas.

alhures esquecido, um rímel no canto
do quarto flui na pata do gato, rola a lembrança e subto,
ele rouba do felino o tubo negro e beija
até a insanidade das criaturas covardes

abre o objeto e escreve no antebraço esquerdo, abrasa,
enfurecido o nome com x,
e ela, um bafo de si
arisca, as vésperas do rio não chega. e se isolam,
o sol corrente indignado varre o mundo,
sisudo e dolorido por não entender dois
pedantes
idiossincrasias de idiotas que vagam acinzentados pelos jardins
das indigestas cores, o vermelho grita,
incandesce alcova vazia,
uma tarde onde gemem sós
destas mentiras mal criadas

3.12.15

adorável fdp III

foto ale safra


dedo em riste tanque de guerra
aponta. certeiro. dispara no alvo
um coração nu

punho de Muhammad Ali
concentrado. firme e direto
nas costelas de Anna Pavlova

caminhão de toras carregado
sem freios. sem filtros
sobre o peito de Anna Karenina

uma mordida de tubarão
dilacerante. esquarteja
o voo do albatroz de sobrancelha


tantas são as formas de contar
como seu amor me faz morrer

19.11.15

estrelas caladas

imagem evgen bavcar

se há tarde 
quando quente
no dente de leão salta
o mar vira consenso
entre os seios dela
terra desgarrada gota
universo oceano e nada
onde toda pergunta nasce morta
do pó das esfinges fuzilantes
nenhum clarão rompe
e nego. o naco. a morte
um sopro semente
o dente
seus olhos,
sua pele rede
o vazio das esferas
a inflexibilidade das virilhas
o mar e o multiverso
sem respostas só deserto
vivem de mim
desta experiência não autorizada
de mim
que me faz areia
e o leão mostra os dentes
e ignora pergunta natimorta
por fim, nada mais interessa




14.11.15

te prometo o instante

Dia Branco - Geraldo Azevedo

não aprecio a constância, dama ordinária de perfume barato. constância é esposa do hábito e ambos, criam o tédio e o ranço. uma família a devorar originalidade no café da manhã com mingau de maisena. dessa família que cheira a peixe frito em óleo velho, constância é a que me irrita, pois se impõe a marcar território, chatice com ares sebosos de posse mimosa.
esse casal pratica o sexo enfadonho, óbvio. manjado. e me repugna. o ninho do casal é um micro hospício entre lençóis a fingir, na demência cultivada pela criação do tédio e do ranço, serem o que já não são mais: amantes.
esse casal me convida para suas loucuras, e os recuso por saber ler o que não veio no convite.

constância mata em nome do amor mais pobre existente no mundo. mas não se importa, é sábado à noite, se perfuma para ver o hábito, que surrado em seu traje de passeio, segue o condicionamento se sopa então colher.


mas lisbeth salander, a mulher de asas castanhas me encontrou no metrô, me fez voltar a acreditar nas deusas que zelam pela sanidade das peles aflitas, que ardem arrepiadas.

linha vermelha. centro. ela tem os cabelos curtos. olhos de lago desses raros que sempre fazem querer mergulhar sem temer as pedras. lápis pretos que reforçam as margens de onde desejo me afogar.

lisbeth salander não quer saber de quartos seguros nem de tempo para preliminares. eu não acredito em milagre. "você sabe o que eu quero e eu sei o que você quer. nós queremos. nós podemos." agradeço as deusas pelo aviso de que nem tudo no mundo está perdido em lençóis amarelados, corpos encolhidos pelo susto do mundo ou desprovidos de humanidade.

ela tem uma cicatriz pequena sobre a sobrancelha direita que desejo beijar. age como a passarinha pequena e ligeira que é, sem medos. nem dúvidas. sem meandros ou necessidades. nenhuma aposta. nenhuma escolha. só o instante. a atração e o contato agindo. "eu vejo você". um canto. conto. o silêncio e o tempo de nos virarmos do avesso pelos becos do metrô, invisíveis na cidade que tudo absorve e perdoa. renova e pari. desfaz e alivia.

lisbeth asas de pardal. me da de presente a visão do alto. é dessas singulares gentes que transbordam na raridade das coisas aéreas e me transforma. me deixa uma marca no seio esquerdo e outra no ombro direito. me apaixono. amo. desespero. gozo e o aviso de que o metrô logo irá encerrar suas atividades deveria nos separar. mas ainda não é hora. voltamos pra rua.
ela não pediu whatsapp e facebook. e foi um alívio saber que ela era ela. não fez perguntas pessoais, apenas saber como eu via algumas coisas sobre o mundo, as pessoas e sexo e mais sexo. sua androgenia é a beleza dos enigmas. silêncio sobre si e desprendimento de tolices viramos bebidas, dividimos cigarros, achamos mais uns cantos todos bem distantes de onde o casal constância e hábito foram jantar arranjados no encaixe social. 

Lisbeth é deusa encarnada a me ressuscitar na madrugada quente.
o metrô reabriu. e não demos beijos de despedida. nenhuma promessa.

fazia tempo que eu não desejava ficar para desvendar o suficiente.
te guardo até reaparecer em poesia, lisbeth salander. você foi meu dia branco.


3.11.15

o abismo de dona dora

evgen bavcar


pratos plásticos ofertas abrigam
banquete às frustradas formigas
patrulham sem encontrar açúcares
em mesa farta de olhares ocos

balança nos ombros um sonho não vingado
da floresta festim pelúcias amontoadas
simulacro em choro com chupeta embala

antinatural perder uma potencia de vida
c'est la vie? pertence ao mistério?
o que não há respostas azeda
e enreda a queda de dora

alimento petrificado no seio da ira
tal qual a seiva da flor plástica
ao lado do pinguim da geladeira

depois de perder os pais, o filho e o amor
decidiu 1,99 plastificar a casa
e nada mais adoecer, nem se acidentar

mas o choro não abandonava o bebê
e dora em desespero levou ao médico
implorou ajuda. gritou. quebrou. desmaiou

não entendem o abismo de dona dora
que não voltou mais a singular casa plástica
sua dor foi condenada a morte pelo estado
em doses. por pílulas. até ela ser uma boneca





28.10.15

nada, amor

foto ale safra - camburi/sp 

espuma-me maresia
mansa manhã sal
daquele mais merecia
o sol insana horda amante

mela-me onda turva,
que farol ventre amo
na espuma-pedra,
tempestade em balde de brinquedo,
o sol não clama

e se lançar-me teus cantos ondulados
: arranca essa rede dos meus cabelos
jogada para me afogar no asfalto
somos oceano e areia
em todo caso, nenhum se ergue parede

salina-me
mulher renque luamar
melanina aquele mais merecia
o sol na ponta da isca fisgar um mistério
há mais

14.10.15

ocos

dariusz klimcazak


orcas velhas apartadas do negro de si
brancas cinzas navegam desorientes

ratazanas ávidas pelejam em margens excludentes
passantes ignoram restos e realidades

orcas velhas e ratazana ávidas rasgam os dias
insistem resistem na mudez que não muda

inaudíveis náufragos afogam em canteiros plásticos
o amor é um pardal e doa-se às formigas vermelhas

o invisível é das forças mais brutais dos dias normais
e as palavras só dão conta se nada falam

o invisível roubou o negro das orcas velhas
o invisível roubou das ratazanas ávidas o dia

para o náufrago a rosa plástica tem o perfume da posse
mas nada sei sobre o suicídio do pardal



28.9.15

e s p e r a r

Evgen Bavcar

esperar que o vestido desça pelo corpo
e a maquiagem não borre nos olhos
os cabelos obedeçam os dedos
e os sapatos não machuquem

esperar o fim da cirurgia
esperar o pagamento
esperar o tempo do alimento cozinhar

esperar seu olhar encontrar o meu
o beijo arrefecer a ira
dar paz ao desespero do meu corpo

esperar o sim do cliente plástico
o fim do expediente na sexta-cinza
sobreviver a cidade feira

esperar da palavra o não estilete
a furtar furar ou afundar
o pato de borracha da minha existência

esperar não me perder das horas
do calendário ou o assunto da roda
esperar um passo sem obstáculo

esperar os resultados dos exames
da reconciliação. da mensagem
do dia especial me contemplar a sorte

esperar o “tudo ficará bem vai dar tudo certo”,
deus ficar comigo e pensamento positivo
ser concretude neste mar de gente

esperar a insônia passar
a madrugada não libertar fantasmas
a pele deslembrar sua foto

esperar poema chapa
palavra carne manga
brisa cheiro chuva

esperar o amor perdido se perder
o fim das obrigações de uma crença
a caverna do seu quarto me abrigar por uma noite

e s p e r a r a luz não acabar
a água voltar
o mistério não ser revelado

esperar estalactite cardíaca
se romper e cravar meu estômago
perfurar meu intestino
e dormir







19.9.15

tias


Dariusz Klimczak

magras pálidas
olhos palha
velhas ceifeiras
secas capim
acéfalas corujas
beatas ratas
baratas bando
buraco fim






16.9.15

voar parede

Dariusz Klimczak


passarinha cabelos papel
quero renascer do meu ventre
sua alegria nunca vestida de azul

teus ossinhos de grisalho fio
abraçam num esforço já humano
o passo. a caneca. a colher. a filha

bala-me seus olhos verdes
queda-me seu passo tonto
cai em mim aquele tempo

minha fé com osteoporose
não concebe o abismo
da partida do seu cheiro

asa-me, pardal
com seu voal entardecido
em penas graves

26.8.15

a firma agradece a preferência




cara cinza língua asfaltada
marcha o terno asséptico
rumo a empreitada
defender seu assassinato
ao bater o ponto
lá na firma dos desesperados

carros fechados olhos travados
ternos desternurados guiam
sem contato com a rua
para chegar limpinho na firma
ouvindo ladainhas no rádio
de como se comportar no trabalho

o terno e outros ternos em bando
criam os megatrânsitos também nas calçadas
no almoço dos assalariados de luxo
falam todos gravatas. falam todos biscates
um coro protegido a rir igualmente
amarelo cinza medo da rua

o terno é só um terno que viu 
uma menina de bike na rua
e do susto brutal se brutalizou
como pode? grita o terno:
como pode usar a rua do meu carro?
ao terno não cabe coexistir. não cabe existir

o terno escuta o som da rua, mas a tv mandou temer
é da firma-apê. do apê-shopping
do shopping-carro-apê
o terno cinza não sabe o que ser
e rosna com seu carro. rosnam os ternos-carros
rosna para ninguém sair do cabide do armário

13.8.15

punhal de rosa prata




uma flor se abre em
livro exposto ao meio

a
li
nha
va
me

parede. pote. concha. copo
linho. lenço. lanço. me

cos
tu
ra
nos

papel. vento. universo
qual céu abismo

ga
i
vo
ta
se 

caixa torácica sapato
passo pulsa agudos 


6.8.15

bibelô

Foto Ale Safra - Instagram: ale_safra

era para ser a princesinha do papai
mas se tornou o bibelô do tio
e depois virou a cabra negra
e tocou o terror na família

primeiro matou de susto o avô
depois o tio com navalha do pai
e por fim a mãe e a irmã
com tubos de ketchup

do pai desejou viver feliz para sempre
mas ele preferiu a corda 
no tronco da árvore seca

17.6.15

POESIA AGORA - MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA


Um texto meu foi indicado para fazer parte da mostra Poesia Agora, no museu da Língua Portuguesa, pelo gentil e talentoso Frederico Barbosa, e agradeço muito essa consideração.

Estou muito curiosa para saber como ficou sua apresentação ao público.

São muitos os poetas no projeto e quero ver o trabalho de cada um.

27.5.15

retirante de nós

foto Ale Safra


há em você a seca
a nos encharcar de pó
poças trincadas de sol
precipícios abortíferos
num coração de nós

o sol alumia essa bruaca
vazia de seiva e cores
para tudo um não ser

sua casca não abriga insetos
suas raízes estão cristalizadas
em que momento aconteceu 
a poda do seu abraço?

um lenhador rouba frutas de muitos
e a fruta que deixa de ser
mata o sonho de fome







26.5.15

delitos delírios

Alison Scarpulla

não fui uma adolescente com medo de deus. aceitei meu corpo e vivi meus delírios. alguns delitos. mas não delitos do corpo, embora delírios da idade tenham me impedido de ser menos cruel.

acompanhava a vó  na procissão de corpus cristi, um evento social na cidade. quanto mais próximo do padre, mais status para a família. ela preferia ficar no meio para o final. dizia que se podia ver mais assim.  eu a acompanhava com alegria, embora já repelisse o discurso religioso por impor mal estar na vida. o sorvete sentadas no banco da praça para comentar sobre as pessoas. acho que ela ia por isso. via coisas engraçadas nas pessoas. de hipocrisia religiosa das famílias de bem, as dores mais escondidas daquela cidade onde apenas o calor possuía transparência.

era um exercício que ela me convidava. ver a mentira com fé ou o desespero no aperto dos contos do rosário. ela nunca me poupou desses detalhes. me fazer ver as pessoas e as coisas como são. sem julgamentos e expectativas. apenas o mais próximo de suas essências e dos fatos. mas não é sobre essas aulas que quero falar. é sobre a estonteante senhora, doravante a chamarei de borboleta camim, que seguia em nossa frente usando um vestido cinza escuro. justo num corpo firme. cabelos presos num penteado incomum as mulheres da cidade. quem era ela? até a vó elogiou sua beleza e porte. ao seu lado um homem meio careca, meio gordo. meio alto, interessado na reza e sem importância alguma não fosse pela esposa que exibia. ele tinha cinquenta anos de uma cara desprovida de emoção num conjunto sem charme. ela quarenta e dois. pude ver quando se virou para olhar o casal de filhos ao meu lado que seu lábio inferior tinha uma leve saliência. boca escultura. olhos azuis melancólicos. nesse instante senti seu cheiro e me perdi num dos meus delitos juvenis mais perversos. e devo confessar que me orgulho dos meus pequenos crimes de amor e também, esta mulher, tem seu ferrete no meu coração. eu, cria do sol, ao chegar em casa já tinha um caminho vislumbrado até aquela deusa ruiva.

reconheci os filhos lá da mesma escola que eu. a menina fora brutalmente absorvida pela genética do pai, nem com fé se via harmonia. o menino não, era uma versão masculina da mãe. uns dois ou três anos mais novo que eu. seus olhos iluminados pela doçura da segurança e do infinito a sua frente. confiante que só ao explorar o mundo. impaciente com a chatice que o pai obrigava a família. eles não eram da cidade. estavam apenas enquanto o pai, engenheiro, realizava um trabalho.

passei alguns meses entorpecida na sua elegância vermelha. a beleza represada. se ao menos eu soubesse pintar para me aliviar desta tragédia. sufocada pela beleza feminina, nem apenas a dela, mas de outra que nua fumava na janela enquanto o sol iluminava sua pardência. ou outra cujos cabelos enrolados e longos me fizeram sentir o vigor das amazonas. outra de asas castanhas cuja estética dos gestos a fizeram heroína de um romance feminista, e outra. e outra e outra. como me livrar do veneno da beleza delas?

delitos! não os chamo de pecados, prefiro atos, delito só é interessante pelo som de delírio que escafandra. ato. teatro. e a vida é uma peça completa em incontáveis cenas e as protagonistas as vezes dividem momentos comigo e surgem ao lado de tapete colorindo ruas. deveria me arrepender se a família soubesse o que fiz? mas qual família? seria assombroso para os fiés ao livro santo se soubessem que maculei a imagem e semelhança do deus-mãe. mas ninguém soube naquela cidade. apenas a diva carmim tem o poder para compreender o engendramento da trama.

corruptos e corruptíveis se entrosam em diversos níveis. as vezes cientes outra não. seguem na sua procissão irrefletida, no seu ato mal escrito. será que é algo natural em nós desde que a espécie ficou de pé e cercou umas terras. depois, ou antes, algumas pessoas, corromper o próximo para conseguir o que se deseja? neste sentido confesso que sou corrupta, pois corrompi pessoas para elas desejam o mesmo que eu e isso nunca foi difícil. pobre borboleta carmim.

a filha dela não tinha muitas amigas na escola. era sem graça como o pai. sem assunto. dizia que não tinha talento para nada. achava cruel ela ter uma mãe estonteante e ela não ter sido agraciada com nada. sim, me fiz amiga de infância da garota, eu tinha uma cena para estrear. um tapete para estender a sua divina genitora. interesse, mas sempre pago os favores, de modo que descobrimos que a menina era muito boa jogadora de handebol, enfim um talento para ela se orgulhar de si. e assim seguiu agarrada no seu conto de filha do pai.
seu irmão era o contrário dela. toda a escola adorava o moleque, e ele tinha olhos azuis. sardas. cabelos vermelhos. charme e vida. a vida que não se via mais nos olhos da mãe e faziam do menino um astro. parecia impossível imaginar que ela foi um dia mais bela do que era. talvez seu charme hoje seja a melancolia. a inteligencia ao falar de livros que eu não tinha lido.

a mãe deles, depois do sexo, tinha olhos de santa de igreja, melancólicos pelo peso do pecado e isso de olhar baixo, para os cantos, me deixava mais endiabrada, de modo que eu lhe agarrava os cabelos da nuca e esfregava em sua cara meus seios juvenis. meu sexo possuído pelo calor de tardes secretas na beira do rio. aquele desejo nunca mais senti com a mesma gana.

mas ao esquecer da ideia e da sensação de estar contra as normas sociais, das leis de deus, sorria o sorriso das flores recém nascidas. alcançava a graça da natureza ao redor. os passarinhos, a grama, as árvores o rio e as joaninhas pousadas no seu ombro esquerdo atingiam cores sem representação. é inútil tentar descrever a beleza da mulher selvagem, nua rodando na beira do rio. eu ela e o mundo natural eramos as evas no jardim secreto.

depois desta aparição do sagrado para mim, em beleza arrasadora, além de me sufocar fez eu me deparar com a feiura do mundo. a dor quando ela caia no choro. e eu fraca para ajudá-la a não se sentir daquela forma. de uma forma que a fazia sentir vergonha e até ódio de si mesma e de mim. ela me achava uma criança. mas não eramos nossas idades. eramos a verdade dos nossos corpos.

ela repetia que deveria ter resistido. mas corromper é minha arte aprendida muito cedo. a seduzi de muitas maneiras. perdi minha iara dourada por não saber afogar as ideias nela. e tudo voltou a ser uma procissão marcada pelo tapete. pelos passos. pelos ritos sufocantes dos homens crédulos.

e senti um mal estar tamanho pela sua ausência que tive febre. tive soluços sem lágrimas. sobrou pouco dela, e se não era possível estar com a mãe, estive com o filho. saíamos da escola e de mobilete, que também o ensinei a pilotar, corríamos até o rio, no mesmo lugar que ia com sua mãe. fui sua primeira vez. ensinei o máximo que pude. vi seu olhar mudar e ganhar mais graça e confiança. adestrei sua língua. o fiz compreender que precisava dar o máximo e o melhor de si para ganhar o mesmo e com a beleza dele e graça, não haveria deusa que não descesse do altar para estar com ele. acabou quando começou a me dar presentes. não queria seu amor.

continuei amiga da irmã até eles voltarem para a cidade de origem uns meses depois. só não frequentei mais a casa, como havia prometido a mãe. soube que ela cortou os cabelos. isso doeu. foi pelos cabelos dela que eu consegui tocar seu corpo, sua cintura, seus seios e fazer seu corpo falar mais alto que o altar.

as vezes, como agora, penso se o menino contou para a mãe sobre nós, assim, no meio de uma reunião de família quando contamos essas coisas entre xícaras de café com biscoito. e se sim, como ela se sentiu?


A torre de Bebel

Foto Ale Safra



sétimo andar torre da princesa verde incendiária
sétimo céu línguas bailarinas hábeis corpos
cigarros orgânicos sem intermediários

interconectividades na floresta sala de estar
sete toques no interfone. sete toques na porta
repressão não dita dores destes ouvidos laicos

não se cala jake e. lee que veio do crato

a princesa libertária da boca melada
a guitarra do foda-se e um sindico pastor
com seu cinismo de capa preta no sovaco

a liberdade tem cara de louca para os presos
mas libertina & libertária a guitarra geme
rendição diante do templo em pelos
o síndico pastor aponta o livro e diz: vagabunda
entendo bunda vaga e promovo a psicodélica ocupação
do cu cínico delirante pelas cordas orgasmáticas

ele ora em línguas ao suar sua mão direita
a alegria do sétimo céu em notas gemem
diante das portas sagradas para ele fechadas

o pastor é nosso, diz a princesa névoa guitarreante
e apago a ponta no sinceiro de carte encruada
do pastor em delírio com anjos enormes

e jake do crato não para: é isso aí, garoto
logo outros bluseiros ávidos serão ouvidos
na torre névoa do sétimo viés das belas

19.3.15

hotel barato

foto Ale Safra


ela esperava a chuva passar no bar, mesmo com um café mais aprumado bem ao lado. não precisava ouvir dos homens rudes, de olhares lombriguentos, dando de si o melhor machismo de rebanho uns para os outros, aqueles remoques.

mas ela não se importava. a observei até crescer vontade de cheirar as flores lilases do seu vestido preto. convidei em gestos a estranha molhada para subir. mas deveria? ela era suspeita apesar das coxas grossas. apesar do decote. da cintura frágil. dos olhos baleiros.

“para viver a felicidade é preciso reconhecer o momento, depois é saudade e culpa” - fantasma me incentivando roubar da vida.

não corri do flagrante quando ela me percebeu. cabelos longos. fartos de uma existência que aparentava trinta e poucos anos. castanho ficou meu desejo. olhar descascado, sem brincos. três anéis. pulseira no tornozelo. sem bote na fala, sem rodeios nas ideias, sem fé para correr. ela apenas esperava algo. e seria óbvio demais dizer que era a chuva passar. e fácil demais ela aceitou subir. parecia esperar a oportunidade.

do alto do terceiro andar daquele hotel xexelento ofereci uma graça, ela aceitou. era uma tarde modorrenta com chuva de verão e cheiro de mijo.

o centro de são paulo tem ofertas. eu tenho necessidades. todos parecem acomodados nessa lógica e se posicionam, as vezes consciente outras não. a janela ficou aberta e a chuva, quando muita, entrava suicida.

liguei para a recepção e autorizei a subida da mosca. olhei no espelho e o silêncio interno deixa fluir o que nasci pra ser. a campainha, ela entra e seu perfume de catálogo de revista só faz minha libido aumentar.
ofereço água, mas ela olha para a cerveja. ofereço toalha e ela se tranca por quatro minutos no banheiro. deu tempo para olhar sua bolsa. uma carteira com doze reais, sem documentos e dois cartões de crédito com nome chinês, um canivete suíço, camisinhas, bolsinha com batom e outros trecos, outra bolsinha com objetos que não tive tempo para ver. e um livro. um livro interessante. um livro que se tornou um elogio. uma boa indicação de um amigo.

uma ladra talvez, conclui ao ouvir o trinco da porta do banheiro..

ela sai com os cabelos presos. ofereço o melhor lugar do quarto: de frente para o ventilador. e a cerveja. e um cigarro. e meu corpo.

ela não é prostituta. não esta a procura de quem dê alguma coisa. fala bem. tem ideias oriundas de reflexão que partiram da pele. tudo encantador. vinte e oito anos, sotaque de paulistana da mooca. e aquela minha sensação estranha de que o externo não matrimoniava com o interno. quem era aquela mulher que tentava ser invisível?

ela quis saber de onde eu era, menti. quis saber meu nome, menti. e minha profissão. também menti. queria saber muito, soube tudo, afinal, que importava dizer a verdade ou não? tanto faz, pensei. e de um ser invisível para outro, o que realmente importava aconteceu, conexões. ela adorava falar e as mais inconfessáveis situações de vida brotaram sem nomes e lugares de nossas bocas entre beijos & mordidas. entre tapas e palavrões. entre cigarros & cervejas. entre bucetas sem expectativas. sem espera compartilhamos histórias.

estelionatária. me confessou depois do sexo, dos cigarros e das cervejas. esteve presa por uns anos. seu filho que na época tinha dois anos morreu enquanto ela estava no presídio. contou sem dramas, sem derramar uma lágrima. sem ficar com os olhos no teto. ela ri ao dizer que acabou de concluir ciências contábeis, que o mundo das finanças estava menos seguro e que essa era a proposta. e achei ótimo. e incentivei. uma mulher bonita, inteligente e mal intencionada foder com o sistema era pra brindar. brindamos.

foi sexo. foi humano. foi brisa. roubamos o melhor uma da outra. e fomos boas nisso.

não era uma mosca, era uma raposa castanha. depois que saiu do quarto, ela subiu maliciosa as escadas. arrumei minhas coisas, check out e trinta minutos depois estava em casa. não soube mais daquela estelionatária que me usou para entrar no hotel e nos apaixonamos por 5 horas. espero que esteja bem. conto essa história agora, neste outro quarto nojento do centro, onde mais uma foi embora sem valer um conto.



9.2.15

arroz doce

foto Ale Safra




ela faz moqueca depois do sexo
e arroz doce com canela
canta feito a sereia que é
num irresistível cheiro de
peixe fresco e limão cravo


o verão tempera em nós
chuvas especiarias
alucinógena cozinha
equilibrando tempo
no apogeu do ponto




Para "honey baby"

4.2.15

perturbalarintite

foto de Ale Safra




quem afia o poeta ,
esse apontador de coisas óbvias ?
na ponta uma questão: criar x lucrar
quem aponta o poeta ,
esse envaidecido famélico ?
na ponta uma realidade: ar x cair
quem mata o poeta ,
esse cego no aquário ?
na ponta uma verdade : o umbigo

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