19.3.15

hotel barato

foto Ale Safra


ela esperava a chuva passar no bar, mesmo com um café mais aprumado bem ao lado. não precisava ouvir dos homens rudes, de olhares lombriguentos, dando de si o melhor machismo de rebanho uns para os outros, aqueles remoques.

mas ela não se importava. a observei até crescer vontade de cheirar as flores lilases do seu vestido preto. convidei em gestos a estranha molhada para subir. mas deveria? ela era suspeita apesar das coxas grossas. apesar do decote. da cintura frágil. dos olhos baleiros.

“para viver a felicidade é preciso reconhecer o momento, depois é saudade e culpa” - fantasma me incentivando roubar da vida.

não corri do flagrante quando ela me percebeu. cabelos longos. fartos de uma existência que aparentava trinta e poucos anos. castanho ficou meu desejo. olhar descascado, sem brincos. três anéis. pulseira no tornozelo. sem bote na fala, sem rodeios nas ideias, sem fé para correr. ela apenas esperava algo. e seria óbvio demais dizer que era a chuva passar. e fácil demais ela aceitou subir. parecia esperar a oportunidade.

do alto do terceiro andar daquele hotel xexelento ofereci uma graça, ela aceitou. era uma tarde modorrenta com chuva de verão e cheiro de mijo.

o centro de são paulo tem ofertas. eu tenho necessidades. todos parecem acomodados nessa lógica e se posicionam, as vezes consciente outras não. a janela ficou aberta e a chuva, quando muita, entrava suicida.

liguei para a recepção e autorizei a subida da mosca. olhei no espelho e o silêncio interno deixa fluir o que nasci pra ser. a campainha, ela entra e seu perfume de catálogo de revista só faz minha libido aumentar.
ofereço água, mas ela olha para a cerveja. ofereço toalha e ela se tranca por quatro minutos no banheiro. deu tempo para olhar sua bolsa. uma carteira com doze reais, sem documentos e dois cartões de crédito com nome chinês, um canivete suíço, camisinhas, bolsinha com batom e outros trecos, outra bolsinha com objetos que não tive tempo para ver. e um livro. um livro interessante. um livro que se tornou um elogio. uma boa indicação de um amigo.

uma ladra talvez, conclui ao ouvir o trinco da porta do banheiro..

ela sai com os cabelos presos. ofereço o melhor lugar do quarto: de frente para o ventilador. e a cerveja. e um cigarro. e meu corpo.

ela não é prostituta. não esta a procura de quem dê alguma coisa. fala bem. tem ideias oriundas de reflexão que partiram da pele. tudo encantador. vinte e oito anos, sotaque de paulistana da mooca. e aquela minha sensação estranha de que o externo não matrimoniava com o interno. quem era aquela mulher que tentava ser invisível?

ela quis saber de onde eu era, menti. quis saber meu nome, menti. e minha profissão. também menti. queria saber muito, soube tudo, afinal, que importava dizer a verdade ou não? tanto faz, pensei. e de um ser invisível para outro, o que realmente importava aconteceu, conexões. ela adorava falar e as mais inconfessáveis situações de vida brotaram sem nomes e lugares de nossas bocas entre beijos & mordidas. entre tapas e palavrões. entre cigarros & cervejas. entre bucetas sem expectativas. sem espera compartilhamos histórias.

estelionatária. me confessou depois do sexo, dos cigarros e das cervejas. esteve presa por uns anos. seu filho que na época tinha dois anos morreu enquanto ela estava no presídio. contou sem dramas, sem derramar uma lágrima. sem ficar com os olhos no teto. ela ri ao dizer que acabou de concluir ciências contábeis, que o mundo das finanças estava menos seguro e que essa era a proposta. e achei ótimo. e incentivei. uma mulher bonita, inteligente e mal intencionada foder com o sistema era pra brindar. brindamos.

foi sexo. foi humano. foi brisa. roubamos o melhor uma da outra. e fomos boas nisso.

não era uma mosca, era uma raposa castanha. depois que saiu do quarto, ela subiu maliciosa as escadas. arrumei minhas coisas, check out e trinta minutos depois estava em casa. não soube mais daquela estelionatária que me usou para entrar no hotel e nos apaixonamos por 5 horas. espero que esteja bem. conto essa história agora, neste outro quarto nojento do centro, onde mais uma foi embora sem valer um conto.



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