26.5.15

delitos delírios

Alison Scarpulla

não fui uma adolescente com medo de deus. aceitei meu corpo e vivi meus delírios. alguns delitos. mas não delitos do corpo, embora delírios da idade tenham me impedido de ser menos cruel.

acompanhava a vó  na procissão de corpus cristi, um evento social na cidade. quanto mais próximo do padre, mais status para a família. ela preferia ficar no meio para o final. dizia que se podia ver mais assim.  eu a acompanhava com alegria, embora já repelisse o discurso religioso por impor mal estar na vida. o sorvete sentadas no banco da praça para comentar sobre as pessoas. acho que ela ia por isso. via coisas engraçadas nas pessoas. de hipocrisia religiosa das famílias de bem, as dores mais escondidas daquela cidade onde apenas o calor possuía transparência.

era um exercício que ela me convidava. ver a mentira com fé ou o desespero no aperto dos contos do rosário. ela nunca me poupou desses detalhes. me fazer ver as pessoas e as coisas como são. sem julgamentos e expectativas. apenas o mais próximo de suas essências e dos fatos. mas não é sobre essas aulas que quero falar. é sobre a estonteante senhora, doravante a chamarei de borboleta camim, que seguia em nossa frente usando um vestido cinza escuro. justo num corpo firme. cabelos presos num penteado incomum as mulheres da cidade. quem era ela? até a vó elogiou sua beleza e porte. ao seu lado um homem meio careca, meio gordo. meio alto, interessado na reza e sem importância alguma não fosse pela esposa que exibia. ele tinha cinquenta anos de uma cara desprovida de emoção num conjunto sem charme. ela quarenta e dois. pude ver quando se virou para olhar o casal de filhos ao meu lado que seu lábio inferior tinha uma leve saliência. boca escultura. olhos azuis melancólicos. nesse instante senti seu cheiro e me perdi num dos meus delitos juvenis mais perversos. e devo confessar que me orgulho dos meus pequenos crimes de amor e também, esta mulher, tem seu ferrete no meu coração. eu, cria do sol, ao chegar em casa já tinha um caminho vislumbrado até aquela deusa ruiva.

reconheci os filhos lá da mesma escola que eu. a menina fora brutalmente absorvida pela genética do pai, nem com fé se via harmonia. o menino não, era uma versão masculina da mãe. uns dois ou três anos mais novo que eu. seus olhos iluminados pela doçura da segurança e do infinito a sua frente. confiante que só ao explorar o mundo. impaciente com a chatice que o pai obrigava a família. eles não eram da cidade. estavam apenas enquanto o pai, engenheiro, realizava um trabalho.

passei alguns meses entorpecida na sua elegância vermelha. a beleza represada. se ao menos eu soubesse pintar para me aliviar desta tragédia. sufocada pela beleza feminina, nem apenas a dela, mas de outra que nua fumava na janela enquanto o sol iluminava sua pardência. ou outra cujos cabelos enrolados e longos me fizeram sentir o vigor das amazonas. outra de asas castanhas cuja estética dos gestos a fizeram heroína de um romance feminista, e outra. e outra e outra. como me livrar do veneno da beleza delas?

delitos! não os chamo de pecados, prefiro atos, delito só é interessante pelo som de delírio que escafandra. ato. teatro. e a vida é uma peça completa em incontáveis cenas e as protagonistas as vezes dividem momentos comigo e surgem ao lado de tapete colorindo ruas. deveria me arrepender se a família soubesse o que fiz? mas qual família? seria assombroso para os fiés ao livro santo se soubessem que maculei a imagem e semelhança do deus-mãe. mas ninguém soube naquela cidade. apenas a diva carmim tem o poder para compreender o engendramento da trama.

corruptos e corruptíveis se entrosam em diversos níveis. as vezes cientes outra não. seguem na sua procissão irrefletida, no seu ato mal escrito. será que é algo natural em nós desde que a espécie ficou de pé e cercou umas terras. depois, ou antes, algumas pessoas, corromper o próximo para conseguir o que se deseja? neste sentido confesso que sou corrupta, pois corrompi pessoas para elas desejam o mesmo que eu e isso nunca foi difícil. pobre borboleta carmim.

a filha dela não tinha muitas amigas na escola. era sem graça como o pai. sem assunto. dizia que não tinha talento para nada. achava cruel ela ter uma mãe estonteante e ela não ter sido agraciada com nada. sim, me fiz amiga de infância da garota, eu tinha uma cena para estrear. um tapete para estender a sua divina genitora. interesse, mas sempre pago os favores, de modo que descobrimos que a menina era muito boa jogadora de handebol, enfim um talento para ela se orgulhar de si. e assim seguiu agarrada no seu conto de filha do pai.
seu irmão era o contrário dela. toda a escola adorava o moleque, e ele tinha olhos azuis. sardas. cabelos vermelhos. charme e vida. a vida que não se via mais nos olhos da mãe e faziam do menino um astro. parecia impossível imaginar que ela foi um dia mais bela do que era. talvez seu charme hoje seja a melancolia. a inteligencia ao falar de livros que eu não tinha lido.

a mãe deles, depois do sexo, tinha olhos de santa de igreja, melancólicos pelo peso do pecado e isso de olhar baixo, para os cantos, me deixava mais endiabrada, de modo que eu lhe agarrava os cabelos da nuca e esfregava em sua cara meus seios juvenis. meu sexo possuído pelo calor de tardes secretas na beira do rio. aquele desejo nunca mais senti com a mesma gana.

mas ao esquecer da ideia e da sensação de estar contra as normas sociais, das leis de deus, sorria o sorriso das flores recém nascidas. alcançava a graça da natureza ao redor. os passarinhos, a grama, as árvores o rio e as joaninhas pousadas no seu ombro esquerdo atingiam cores sem representação. é inútil tentar descrever a beleza da mulher selvagem, nua rodando na beira do rio. eu ela e o mundo natural eramos as evas no jardim secreto.

depois desta aparição do sagrado para mim, em beleza arrasadora, além de me sufocar fez eu me deparar com a feiura do mundo. a dor quando ela caia no choro. e eu fraca para ajudá-la a não se sentir daquela forma. de uma forma que a fazia sentir vergonha e até ódio de si mesma e de mim. ela me achava uma criança. mas não eramos nossas idades. eramos a verdade dos nossos corpos.

ela repetia que deveria ter resistido. mas corromper é minha arte aprendida muito cedo. a seduzi de muitas maneiras. perdi minha iara dourada por não saber afogar as ideias nela. e tudo voltou a ser uma procissão marcada pelo tapete. pelos passos. pelos ritos sufocantes dos homens crédulos.

e senti um mal estar tamanho pela sua ausência que tive febre. tive soluços sem lágrimas. sobrou pouco dela, e se não era possível estar com a mãe, estive com o filho. saíamos da escola e de mobilete, que também o ensinei a pilotar, corríamos até o rio, no mesmo lugar que ia com sua mãe. fui sua primeira vez. ensinei o máximo que pude. vi seu olhar mudar e ganhar mais graça e confiança. adestrei sua língua. o fiz compreender que precisava dar o máximo e o melhor de si para ganhar o mesmo e com a beleza dele e graça, não haveria deusa que não descesse do altar para estar com ele. acabou quando começou a me dar presentes. não queria seu amor.

continuei amiga da irmã até eles voltarem para a cidade de origem uns meses depois. só não frequentei mais a casa, como havia prometido a mãe. soube que ela cortou os cabelos. isso doeu. foi pelos cabelos dela que eu consegui tocar seu corpo, sua cintura, seus seios e fazer seu corpo falar mais alto que o altar.

as vezes, como agora, penso se o menino contou para a mãe sobre nós, assim, no meio de uma reunião de família quando contamos essas coisas entre xícaras de café com biscoito. e se sim, como ela se sentiu?


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