14.11.15

te prometo o instante

Dia Branco - Geraldo Azevedo

não aprecio a constância, dama ordinária de perfume barato. constância é esposa do hábito e ambos, criam o tédio e o ranço. uma família a devorar originalidade no café da manhã com mingau de maisena. dessa família que cheira a peixe frito em óleo velho, constância é a que me irrita, pois se impõe a marcar território, chatice com ares sebosos de posse mimosa.
esse casal pratica o sexo enfadonho, óbvio. manjado. e me repugna. o ninho do casal é um micro hospício entre lençóis a fingir, na demência cultivada pela criação do tédio e do ranço, serem o que já não são mais: amantes.
esse casal me convida para suas loucuras, e os recuso por saber ler o que não veio no convite.

constância mata em nome do amor mais pobre existente no mundo. mas não se importa, é sábado à noite, se perfuma para ver o hábito, que surrado em seu traje de passeio, segue o condicionamento se sopa então colher.


mas lisbeth salander, a mulher de asas castanhas me encontrou no metrô, me fez voltar a acreditar nas deusas que zelam pela sanidade das peles aflitas, que ardem arrepiadas.

linha vermelha. centro. ela tem os cabelos curtos. olhos de lago desses raros que sempre fazem querer mergulhar sem temer as pedras. lápis pretos que reforçam as margens de onde desejo me afogar.

lisbeth salander não quer saber de quartos seguros nem de tempo para preliminares. eu não acredito em milagre. "você sabe o que eu quero e eu sei o que você quer. nós queremos. nós podemos." agradeço as deusas pelo aviso de que nem tudo no mundo está perdido em lençóis amarelados, corpos encolhidos pelo susto do mundo ou desprovidos de humanidade.

ela tem uma cicatriz pequena sobre a sobrancelha direita que desejo beijar. age como a passarinha pequena e ligeira que é, sem medos. nem dúvidas. sem meandros ou necessidades. nenhuma aposta. nenhuma escolha. só o instante. a atração e o contato agindo. "eu vejo você". um canto. conto. o silêncio e o tempo de nos virarmos do avesso pelos becos do metrô, invisíveis na cidade que tudo absorve e perdoa. renova e pari. desfaz e alivia.

lisbeth asas de pardal. me da de presente a visão do alto. é dessas singulares gentes que transbordam na raridade das coisas aéreas e me transforma. me deixa uma marca no seio esquerdo e outra no ombro direito. me apaixono. amo. desespero. gozo e o aviso de que o metrô logo irá encerrar suas atividades deveria nos separar. mas ainda não é hora. voltamos pra rua.
ela não pediu whatsapp e facebook. e foi um alívio saber que ela era ela. não fez perguntas pessoais, apenas saber como eu via algumas coisas sobre o mundo, as pessoas e sexo e mais sexo. sua androgenia é a beleza dos enigmas. silêncio sobre si e desprendimento de tolices viramos bebidas, dividimos cigarros, achamos mais uns cantos todos bem distantes de onde o casal constância e hábito foram jantar arranjados no encaixe social. 

Lisbeth é deusa encarnada a me ressuscitar na madrugada quente.
o metrô reabriu. e não demos beijos de despedida. nenhuma promessa.

fazia tempo que eu não desejava ficar para desvendar o suficiente.
te guardo até reaparecer em poesia, lisbeth salander. você foi meu dia branco.


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