17.10.17

o roubo da voz

não passo
piso o punho
na testa do asfalto
sou mulher
e meu voto foi roubado

agora querem roubar meu sexo
agora querem roubar meu teto
agora roubam meu dinheiro
agora já roubam meus direitos

agora agonia agonia agonia

manifesto
não passo
piso em lida
e junto aos punhados de punhos roubados
meu punho indignado

sublevo em motins e fomento revoltas
enquanto pinto seu rosto com um batom vermelho
e te dou um beijo de amor, camarada

(mudo
não agonizo)

lutemos
o asfalto é vermelho


A Luta Pela Terra: Uma Marcha Final

11.10.17

você me achocolata

você mete. me beija. me chocolate. me chama de princesa e senta em mim na cama para bolar um beck. conversa sobre a novela. fala sobre as pessoas da sua faculdade que nunca vi e dos problemas de relacionamento da sua colega de república que não conheço. tudo que percebo são seios suados. molhados. avermelhados. cabelos embaraçados caídos sobre o seios esquerdo. pintas nos seios direito. fumamos. trepamos no banheiro da sua faculdade. conversamos. dividimos um temaki por que foi tudo de dinheiro que nos sobrou na noite funda. comemos. nos comemos. bebemos. nos bebemos. há fundo nessa noite jovem? você tão vinte e poucos anos. eu já sou tarde. me ignora. cinema. nada de silêncio. você adormece em brasa no meu colo suado e o mundo fica naquele tom entre cinza e laranja das minhas tempestades. tudo é clichê e confortável. eu me pergunto por qual razão concordo em ficar. mais um pouco. só hoje. só essa noite. da mais um beijo. mais um gozo. mais uma palavra. você me sorvete. queria estar na minha casa. na minha cama com o gato ronronando ao lado. no escuro ouvindo no celular sons de chuva e trovões. e mais do mesmo de um eu exaustivo. não durmo. uma bosta não conseguir dormir para acordar com você e continuar nesse clichê reconfortante. nessa peça de Alice renascida. ouço os ruídos do seu apartamento. sua colega no quarto ao lado tosse. você se vira e eu viro para a rua? será que você vai me ligar e me xingar como da última vez? vestida. longe. aceito o risco e não me odeie. não me odeio. deixo um bilhete e cinquenta centavos pelos serviços prestados. sei que vai rir e me chamar de fdp. é o que sou? sonho em ficar para o café da manhã, mas é sempre outra mulher que aparece com a xícara de café. lembra do roteiro de viagem para o vale do paraíba? caralho, como dizer que não vou? você vai me chamar de cuzona e vou concordar com você enquanto olho para o nada. mas sou essa coisa que não gosta de dormir fora mas adoro ver você estudando para suas provas enquanto xinga seus professores. deixa assim. estar com você assim. sem esperar por nada além. sem roteiro. sem depois. sem café da manhã.

foto internet

10.10.17

tempos de besta fera em selfie de cordeiro

o macho de sofá
evoluiu para fiscal de cu

bate uma pra novinha
da tapinhas nas costas do pastor

fiel guardião da moral de facebook
frequentador de pornô gay no x video

o varão da pátria ordeira
é um graveto fincado na lama moralista


intelectualmente entendido de tudo
tem a profundidade de uma prega

empolgado e vislumbrado com sua grande pequenez
o macho de sofá fiscal de cu ainda não percebeu

mas segue marchante, fiel e delirante
palito em lama fascista

imagem de dariusz klimcazak

6.10.17

Poesia Gay Brasileira - Antologia


O projeto
PRIMEIRO LIVRO QUE REÚNE O MAIS REPRESENTATIVO DA POESIA GAY BRASILEIRA
Está na hora de fazer um acerto literário e, por que não, também com a causa LGBTT, lançando a primeira coletânea de poemas assumidamente gays do país.
Depois de uma longa pesquisa acerca da Literatura Gay Brasileira, organizamos o livro que queremos apresentar para vocês. A obra conta com uma seleção de autores brasileiros que desde o século 19 falaram da homossexualidade em suas produções.
Para mostrar a força da Poesia Gay Brasileira, escolhemos 43 autorxs. São elxs: Alessandra Safra, Amador Ribeiro Neto, Angélica Freitas, Antonio Cicero, Aymmar Rodriguéz, Beatriz Regina Guimarães Barboza, Caio Fernando Abreu, Carlos Drummond de Andrade, Cassandra Rios, Diedra Roiz, Elierson Moura, Francisco Bittencourt, Glauco Mattoso, Glória Horta, Herena Reis Barcelos, Hilda Hilst, Horácio Costa, Ítalo Moriconi, Junqueira Freire, Laurindo Rabelo, Lisa Alves, Lúcio Cardoso, Luís França, Luiz Carlos Lacerda, Maria Firmina dos Reis, Marina Moura, Mário de Andrade, Mário Faustino, Neil de Castro, Nívea Sabino, Paula Taitelbaum, Paulo Augusto, Paulo Azevedo Chaves, Renata Pallottini, Roberto Piva, Rodrigo Quimera, Rosane Castro, Rui Mascarenhas, Sérgio Godoy, Simone Teodoro, Vange Leonel, Waldo Motta e Walmir Ayala.

CONTRIBUA COM A LITERATURA E COM A VISIBILIDADE DE POEMAS BRASILEIROS DE TEMÁTICA HOMOSSEXUAL
Contribuindo com o projeto, você estará participando da elaboração de um trabalho inédito na literatura brasileira. Importante para documentação histórica, social, cultural e literária do país, além de auxiliar na divulgação dos poemas brasileiros que falam dessa temática.
fonte: https://www.catarse.me/poesiagaybrasileira



20.9.17

sua fotografia gritou comigo
me pôs suspensa ao saltar
da caixa na gaveta

seu cheiro largado por outra que passa
alheia a mim e a nós
me asfixia

quando não te deixo partir sou eu que fico
apenas eu aqui
aqui no barulho deste silêncio

imagem ale safra

4.9.17

tradução errada


depois do encontro
depois do amor
depois das alegrias
alcançarem as aleluias
a angústia
a dor
a fuga
e fúria
ela sabia se fazer suja ao pegar a bíblia
se abraçar aos prantos ainda nua
e engendrar aquelas demências dos pecados
em vão anunciei seu engano
por se agarrar as folhas secas
de tinta tóxica pela tradução errada
vesti minha roupa limpa
joguei água no meu rosto limpo
peguei minha bolsa e meus sapatos limpos
e ganhei o ar da rua límpido e humano que me faz gente


imagem de katharina jung

16.8.17

enquanto você não chega

às dezoito e trinta comecei a picar cenouras, mandioquinhas, pimentões, cebolas, alho poró, dentes de alhos, vagens, galhos de cheiro verde e coentro, cará, inhame, batata doce, ralar açafrão da terra fresco, noz-moscadas
às dezoito e quarenta a panela de pressão chiava e especiarias preenchiam o ar até a sala do seu apartamento
cortei os pães, arrumei a mesa, abri o vinho e fui tomar banho

quando você chegou do trabalho às dezenove e quarenta e seis a iluminação da casa era aconchegante, o cheiro de refeição quente ainda seduzia e logo fui te receber, pendurar sua bolsa, tirar seu casaco, te beijar na boca

enquanto você tomava banho e falava do seu trabalho, peguei suas roupas que havia lavado, passado e cheiravam a amaciante. te vesti a blusa depois de secar suas costas e saí do banheiro para que terminasse de se arrumar. terminei de ajeitar a mesa e jantamos. depois te fiz um café e comemos brownie que fiz com castanhas mistas. fomos para o sofá e assistimos uns 3 episódios da nossa série favorita

um ritual que adorei repetir por umas semanas. depois do jantar, do seriado, do chá, do sexo, ouvir você na cama com histórias sobre sua infância, seus medos sobre a velhice, seus sonhos conquistados
me dediquei a esperar. estar. ver. ouvir e cuidar de você por esse tempo. e cuidei de mim com isso
fui sua amante e devota. e agora que à sua casa retornou quem dela tem direito, parti. mas fui imensamente feliz


obrigada

imagem Err

2.8.17

a festa

mais uma festa onde adolescentes confusos bebiam. inseguros e corajosos apesar de todos os medos. uma dessas tantas festas que aconteciam nas casas cujo propósito era beijar. embora fossem beijos melados e desastrosos entre meninos e meninas. depois correr afetados pelos primeiros beijos e contar para seus grupinhos. meninas para meninas e meninos para meninos. ambos os grupos se misturavam apenas para dançar e beijar.

eu beijava os meninos. dos primeiros beijos eu gostava, mas depois tudo ficava azul. eu gostava do azul. mas era apenas azul. gostava mais de conversar com os meninos que de beijar. mas eles queriam apenas beijar e tudo era muito azul para eu querer apenas beijar. 

certa festa, aos 12 anos que me corriam pelos olho, vendo apenas o azul e já sentido a estranheza da empolgação das outras meninas, desconectada da festa, da farra, daquela vida monocromática, perdida sob um caramanchão olhando os casaizinhos se apertando contra paredes eu ouvi: "garota, não é assim que se fuma um cigarro."

e na minha frente ela sentou, calça jeans, camiseta e jaqueta preta. batom vermelho, cabelos curtos e uma franja longa que lhe caia tão perfeitamente. ela pegou meu cigarro e me explicou e mostrou como tragar. mas eu não quis aprender. a verdade é que eu havia tentado antes e tossi ao ponto de ficar roxa e não queria repetir aquele vexame no momento. preferi deixar o cigarro com ela e olhar como ela o pegava e como seus lábios o apertavam e depois soltava a fumaça.
ela tagarelava e ria, eu me afundava na covinha do seu sorriso. garotos chegavam convidando para dançar e nós só balançávamos negativamente a cabeça. as músicas tiveram outro ritmo e fiquei confusa sem saber exatamente o que me acontecia. só sabia que queria ficar ali com ela. conversando sobre qualquer coisa. mas a insistência dos garotos nos fez sair da festa.

ela era prima de alguém. era de longe. vinda de um universo paralelo para me mostrar as cores. para me ensinar a tragar a vida. para tremer e rir como minhas amigas. eram as férias de julho, uma semana beijando, tocando pequenos seios e queimando como se o vento tivesse arrancado minha espinha para brincar de espanar estrelas. uma semana que aprendi a ver as cores, assim como minhas amigas apaixonadas se comportavam, mas eu não tinha amigas para contar tudo aquilo que me acontecia. e eram tantas coisas para perguntar se elas também sentiam.
a semana se foi com a fumaça de cigarro que ela soltava tentando fazer círculos no ar. e eu era outra. e isso de ser outra sempre me causou espanto. como pessoas chegam e mudam perspectivas e sensações sobre o mundo? eu era outra. e gostava de quem eu era. mas não poder falar me adoeceu.

 a vó me levou ao médico. e diante do meu silêncio o médico pediu para ficar sozinho comigo pois fisicamente eu estava bem. mas como contar para ele que a beleza de uma semana estava me torturando?
como dizer para ele que conheci a temperatura, os sons, o cheiro e o gosto das cores encarnadas? "a vida me sufoca de tão boa que as vezes é", respondi finalmente. mas parei aí. então ele tirou da gaveta um caderno e uma caneta e me prescreveu o remédio que até hoje faço uso: escrever.

Laura Makabresku



 
 


1.8.17

ossos

lobo e velha. quem espera,
o coração fechado: uma mulher escrita,
de rugas cravadas em livros, decalcada.
“e quem, aqui
deseja ficar?”.

paredes botas, uma terra marchada. podemos?
mulher sombra. urna de palavras.
silencio, estranhado de
caras viradas, entardecer
abismo. à madrugada humana,
a morte imposta no café da manhã.
vejo o uivo cinza



Laura Makabresku

ladylike junkie



conheci uma Bárbara. um tipo meio ladylike alcoólatra com sombras borradas. fantástica. melancolicamente elétrica. loucamente meiga. barbaramente sarcástica. e me apaixonei pelo tempo de um porre.
jurei amor eterno aos gritos, da janela do sétimo andar às 2 da manhã ao som do velho e afetado the doors.
Bárbara termina suas frases em inglês. as vezes fala tudo em inglês. não entendo nada. mas acho seus cabelos alaranjados excitantes como sua maquiagem decaída e a rosa na coxa direita. também as flores em aquarela nos braços ligadas em ramos pelas costas. ou os flocos de neve sobre o coração da pele tropical. ela bebe pra caralho e me deixa exausta. fala. fala. falta um tempo pra ouvir as poesias clichês que faria com seu nome. me droguei de Bárbara até a overdose. sem chance. e o amor finou.

Bárbara, Bárbara
como arde. tudo é demais
óh, não chame no telegram
deixe a gente pra lá, Bárbara


Takato Yamamoto

31.7.17

fachadas

portas de mercados, de restaurantes e bares
fechados
portas de mercados, de restaurantes e bares
famintos olhos aguardam

portas fechadas
olhos fechados
coração fechado

famintos aguardam
fechados

trens, metrôs e ônibus cheios de sonhos
dos vendedores de água. chocolate. chicletes

portas fechadas
olhos fechados
corações fechados

e na pele a secura de vida

o sinal ecoa 
e a direção não muda
pessoas seguem tapadas

Felipe Gorski



28.7.17

suores tristes

os trabalhadores dentro da lata
dentro da lata nos trilhos seguem
seguem os trabalhadores nos trilhos
das massas dentro das latas

os trilhos e seus pedágios
traçam o caminho das latas
para as massas darem

o lucro e voltarem
pobres

e se orgulharem de seus suores tristes

Tatiana Altberg

o coração do sol

não são as paredes
nem as pessoas
ou os dias. o corpo

não é a sociedade
a política ou o sexo
nem o chocolate e a cerca

não são as palavras
nem os gritos e murros
ou a poesia e a filosofia

o dinheiro, a comida
o abrigo ou a companhia
não. não são

é essa singularidade
essa vida na matéria
esse espaço tempo absurdo






felina presença

gatos me ensinam a viver.
independência emocional. amar sem pesos. alongamentos constantes. higiene de si e do ambiente. afeto. chamego. calor. silêncios.
gatos me ensinam a ter o que quero apenas para estar bem e a dizer não aos excessos. mostram a fragilidade da vida e a força que é a vida. garras para enfiar as patas nas querências. ser feliz com uma bolinha de papel e ser absurdamente feliz com um carinho nas orelhas. ronronar em epifania só por estar pertinho de outro corpo quente e querido. parece ser a definição de felicidade de um gato.

eles me ensinam a não me demorar onde não há o bem, e a definição de bem aqui é bastante particular, daí os enganos e a lenda triste de que eles gostam da casa e não das pessoas. as vezes casas são melhores que as pessoas, as vezes é preciso deixar casas e pessoas e buscar o seu bem, o que te faz melhor para estar melhor no mundo. felinos me ensinam a não insistir em enganos. agilidade, mente rápida, matematicamente um pulo. mínimo de riscos. simples assim e seguir adiante na navalha do mundo, com o equilíbrio que for possível alcançar. 

muitas pessoas tem medo de gatos, atribuem aos gatos atitudes humanas, grandes bobagens, humanas, jamais felinas. o medo vem deste mundo particular que o felino, e seus grandes enigmáticos olhos apresentam. e parece que a maioria das pessoas trocam a independência em descobrir/viver o novo, pela segurança do velho conforto. acho que não está errado gostar do antigo. o bom cão de casa, tanto não está que os lares estão apinhados de gatos e cachorros, mas os humanos estão aprendendo com eles? o velho e o novo entre miados e latidos, tentando nem correr demais e nem ficar parado no tempo.

eu gosto de cachorros, mas ando em companhia felina.
os cães, e a segurança do seu amor, fazem também muito bem ao mundo. os cães estão para nos ensinar coisas que eu ainda (acredito) não estou pronta para aprender, porque estou felina, porque estou na busca pela independência (já que liberdade me soa cada dia mais uma grande ilusão). pois me parece que somente independentes podemos escolher onde ficar. somente independentes (ou apesar de e de tudo) podemos amar, somente assim, soltos de obrigações, desejos e crenças, podemos caminhar lado a lado. o cachorro não diz como o dono deve ser para ele poder amá-lo, ele ama. o gato tampouco precisa que o dono seja isso ou aquilo, ele ama, mas ele também se ama. por isso estou na cia felina. amo, mas também me amo. e não posso me demorar onde não há o meu bem.

Henri Matisse


onde a vida esconde a felicidade?



seu grito de guerra nas ruas desertas dessa madrugada de carnes rasgadas
menina do braço erguido de punho cerrado levanta uma nação no cartaz juvenil
suas unhas em febre e olhos espaços onde abriga os sonhos
desta nação em berço adormecida pelas fomes da vida
madrugada e manifesto contra essa ausência
de amor de calor de humor
onde a vida agora dança ciranda e joga amarelinha?
onde a vida esconde as virtudes e a sabedoria?
onde a vida aconchega os gentis?
é madrugada e manifesto contra essa ausência
de amor de calor de humor de alegria
seu grito de guerra nos atos da vida de uma tarde vermelha na avenida paulista
a ciranda das crianças da revolução na rua acreditam que há no amor nossa salvação
mas a tarde é cinza e voa velhaca a ave bicuda na botina passado do cassetete assassino
onde a vida esconde a felicidade agora?
onde a vida esconde o sorriso mais leve?
onde a vida esconde meu amor de unhas vermelhas?
é madrugada e manifesto contra essa ausência
de amor de calor de humor de alegria
seu grito de guerra nos atos da vida de uma tarde vermelha na avenida paulista






onde está o tempo?


queria estudar literatura
estudar filosofia
ler mais. ver mais filmes. fazer novos amigos
caminhar pelas paisagens dessa terra
mergulhar nas cachoeiras, rio, mares e sereias
mas aqui estou. mudando de trabalho
férias sem vista. mais produção. mais esforço
sem o bem mais precioso que existe: o tempo
se tenho tempo, não tenho teto. não tenho comida
se tenho as contas em dia, troco para a cerveja, não tenho tempo
para quem denuncio esse roubo do qual sou cúmplice?
queria aprender para escrever melhor. escrever mais. ler mais
desenvolver ideias. terminar romances. naufragar em lençóis
me dedicar as experiências de um amor. talvez um filh@
mais um gato. ou um cachorro. e para isso tenho dinheiro
mas não tenho tempo. não vou terceirizar para a creche, a baba
a escola a tv um eu desdobrado. não posso deixar o cachorro sem passeio, sem brincar
os gatos sem afagos, a praça sem a cia. a praia sem outros passos
sozinho na cama, no almoço, no jantar um corpo sem carinhos
não posso abandonar eu dos 60, 70 anos sem um teto
é um fardo que não sei resolver: o tempo que não tenho
e entre uma produção e outra: balanço nessas redes
ler poesia apenas para não esquecer de mim
ler política para buscar alternativas
ler filosofia já não faço mais. é dolorido não buscar os laços das ideias
e a palavra dolorido falo mais que colorido
e sinto saudades do silêncio
dever ser um sinal
mas ando sem tempo para entender
e grave falo mais que. - acabou meu tempo
talvez eu termine esse texto um dia

de tempo com silêncio

não estava em casa


há dias experimentei
na rua
o nada das paredes

os olhos carniceiros
cansados
e bafos de palavras
entorpecidas

hás tempos estou fora
da cozinha que serve
bolo e café
cada esquina uma verdade
que não aparece na sala

nem na tv de frente para o sofá
o particular privou o humano
da sua face mais linda

Laura Makabresku



a loucura me abraçou. de novo. me poluiu. me baixou a imunidade. me deixou por instantes na insana cama dos perturbados. aí meu gosto pelos sádicos iluminados. dessa vez não. dessa vez eu disse não. dessa vez eu disse n ã o!
e parti. com arranhões e fantasmas ressuscitados

perguntas. perguntas. perguntas
a figura paterna dementada
um túmulo gemelar. distorções do tempo
não quero voltar. tomo um café na padaria
deixo o movimento me consumir e ouço as pessoas reclamando do frio. da chuva. da política. dos preços. e me distraio olhando as curvas da trabalhadora virando carne na chapa fumegante

e penso nos seus ombros largos que abandonei no sofá. seu peito onde fico pequena. suada. exausta de amar. de querer. de sonhar. de ser feliz
eu te amo, você me diz
"por que você não me beija mais?" será sua pergunta após essa frase. mas antes de ouvi-la da sua boca te disse não e parti.
rostos se alternam. vozes femininas e masculinas num coro desencontrado ecoam a mesma frase "por que você não me beija mais?"
e sou sequestrada por um verão modorrento onde Alice, deitada no meu colo, as margens das águas turvas do canalão me fez a pergunta pela primeira vez

o sol estava prestes a dar trégua. e o silêncio rompido apenas pelas araras canindé que cruzavam, em pares fiéis, um céu limpo e um gosto de adeus misturado ao cheiro de peixe no ar
não tenho respostas. nunca tive respostas.
sou perguntas. sou perdas. sou precipícios

estou deixando esse homem. mais um sem respostas. ficarei sem esse abraço. sem esse som grave nos meus ouvidos me chamando de fdp enquanto me fode. deixo suas mãos grandes que silenciaram meus gemidos. seus olhos obscuros. suas costas largas, fortes que devorei nas unhas e admirei depois os traços avermelhados
queimo a língua no café sem açúcar para me trazer de volta a padaria
saio à rua sem o casaco para o frio me fazer pedra
atravesso a avenida e só no meio do caminho percebo que o farol está fechado para mim

um anjo me protege
e eu o chamo de Adele
ouço o seu chamado


Laura Makabresku

27.7.17

azul lâmina


tento ser descente. tento não pisar na goela de ninguém. tento não apontar o dedo para nenhum coração. pisar em nenhum passo. tento. até doer. não interfiro. eu tento! não maltrato. eu tento. deixo a coisa ser. até doer ao extremo. mas liberdade é algo além. algo feito para nós sermos mais. e tento não interferir no que possa ser. a escolha não é minha sobre o que você escolhe. é sua. e doendo ou não eu sempre vou respeitar. e você vai arcar com suas escolhas. simples não fosse tanta mentiras agarradas. mesmo que esse nó insista. não forço. não vou te obrigar a absolutamente nada. mas é verdade que te dou tudo isso para exigir que me de também. espaço. ausência. silêncio. partida. fim.

tudo muda. tudo passa. tudo nasce para ser outras coisas e nunca parar de ser. mesmo que a coisa que vire não seja o tipo de coisa que quero pra mim. mas é preciso respeitar a coisa no que virou e lidar com isso.

não me dou nem o direito a mágoa. seria uma contradição cômica, você não acha? mas tristeza eu posso sentir. mas não é bem tristeza também, é aquela coisa nova que o vazio trás e assusta a gente. esse recomeço de como olhar para isso que era uma coisa e agora é outra? nada que se quebra se refaz. ou lidamos com as fissuras e buscamos nelas sentido ou chega.

e foram tantas fissuras-poréns em domingos fartos e alegres para contrabalançar com outros domingos onde o silêncio aperta a caixa torácica e o fato te dá um soco no estômago e você tosse para vomitar e nada sai. tremedeiras. falta de ar. suo pelos olhos um líquido deprimente e patético como são as relações humanas.

relações de um suposta devoção. de uma suposta cumplicidade. de uma suporta doação. o amor vira esse verme que derruba seu sistema imunológico e te expõe as vespas. as moscas ávidas pelas tragédias na carne alheia. e você descobre por que chorou no instante que nasceu. a maldição de estar só entre todos e saber que sempre quem vai te dar uns tapas é quem te doa a intimidade da sua existência. inequivocamente.

e será que amar o próximo é isso? saber que em algum instante qualquer desta relação o punho fechado chega no seu estômago?

e que parte sou eu que fecha esse punho e o trás para socar em cheio?

"tudo vai ficar bem" ela diz. mas eu sei que só ficará tudo bem [ao menos para esse amontoado de coisa que sou] se eu estiver ausente. quero estar ausente. diante de uma mata fechada ouvindo apenas o som daquelas vidas.

sou um ser líquido que só se faz presente nos fluidos dos corpos. que só existe para o próximo em aranhões dos toques afoitos e o enxerga apenas em tons de vermelho.

mas agora que estamos com nossa pele azul. que meu corpo está frio para você, só consigo pensar como criamos esses punhos serrados e damos o mapa certo da nossa anatomia.

primeiro faltou o ar. depois as vistas suaram quentes. então a garganta e o estômago não entendiam se era tosse ou vômito. e meus pés me levaram de um lado ao outro desta ridícula sala onde oferecemos o melhor de nós.

e me pergunto para que vivemos? para interagir com esse próximo-punho? para entender que tipo de merda nessa bosta de vida pode ser comida?

"respira.

senta.

toma água.

ouça minhas mentiras que elas vão te acalmar."

mas eu gosto de verdades que doem. que fazem a mediocridade das relações se tornarem outras possibilidades. não cozinhe mais suas mentiras e não me force a comê-las nesse faz-de-conta de todos os dias. e se a graça está no caos? mas você não entende. e entendo que não entende. não sei viver essas histórias que você sonha. mas também sei que ninguém sabe e que tantos tontos também sonham. o problema não é estarmos todos perdidos. é a farsa. é a negação. é o medo. é a segurança.

e se insistir em continuar cozinhando meu cérebro, picando meus pés ou refogando meu coração nessa sua receita de vida perfeita, vou te mostrar como sei fazer cicatrizes na minha pele enquanto deixo você brincar assim comigo.

não nasci para ser a atriz do seu banquete.


foto de Mariana Meloni





e se eu me aninhar no seu abraço e deixar o dia passar?
e se você me contar um poema para eu esquecer?
hoje estou sábado e sinto sede
olho. te abraço e suplico 
foda-me com amor
e você mente tão bem para mim
e fico contente
de novo
foto ale safra

vulva-se

já vai além os olhos da mulher
num mar de embaraços e fios
vai além os fios da mulher
num manto ancestral ecoa
uma canção ouvida por todas
além no fio vai a mulher
seus olhos cantam o mar
e o desembaraço ancestral
num manto sagrado de sangue
a tinta gota a gota fia
num mar de palavras ecoa
e todas se ouvem além
vulva-se
vulva-se
vulva-se


a lógica sentimental dos números

quand0 a roda esnoba o movimen7o
o eix8 desesta6iliza e acab2 o n4d4
o fim e o começo
0 temp8 está morto
as coisas fétidas em riscos mofam
agonizantement3 nos olhos sibilantes
um amor nat1morto em um país triste
fitas descol8ridas num dia sem sol
em noite de almas perdidas gritos
a gente costumava parecer
fe1iz às 17 horas
com o nascimentos dos tomates
e o pio de pintinhos ama5elos
e botões de rosas brancas teimo2as
a gente não teve vidas me1hores
nunca fomos descentes
amo3
sempre fomos ma55a num bolo de gigan7es

foto ale safra

corpo aguado

teu corpo aguardo
selvagem
numa tarde papel manteiga
meu dedo nanquim
risco aquele nome segredo
nela casco marfim
onde os olhos não choram?
se a rabisco nessas linhas negras
é culpa sua me arrastar de sede
e ser essa marina
sem mar e de barco boatos

em cada corpo orvalho
oceanos
aqui

foto Ale Safra

sinto saudades de mim e do brasil de pouco tempo antes
antes de queimar minhas papilas e pupilas
antes das aberrações éticas e cognitivas
antes de pessoas virarem martelos

sinto saudades de mim e do brasil de poucos anos antes
antes da ruga que nasceu no meu rosto essa manhã
antes da rusga com o taxista pardo e pobre de direita
antes de sentir a perversidade das mentiras na mídia

sinto saudades de mim e do brasil de poucos dias antes
antes de devolver na prateleira do mercado mais um produto caro
antes de saber que a polícia militar está mais agressiva e ativa
antes de ouvir meu vizinho evangélico gritar com a esposa e usar # bolsomito

sinto saudades de mim e do brasil
não faço ideia de qual voltarei a ver novamente
e se um dia voltaremos, eu e o brasil, ficarmos juntos

sinto tantas saudades de nós

Foto Ale Safra

chamar


afogar em anna
um mar de chamas
se chama anna
ama
chama e amas
na cama anna
ar
no mar de anna
chama em mas
um mas de ares
no mais de anna
clama
calar um mar
de anna chama
sem ar

mais
mais
mais

foto Ale Safra

para marina

"só não rasgo seus livros. mas mordo suas costas, quebro seus pratos, copos e até sua preciosa garrafa de chivas"

ela me disse no whatsapp. e implorei para que quebrasse tudo.
mulher inteligente. esmalte preto lascado, braços tatuados. intensa à insanidade. sexo e batons. sexo e maconha. sexo e tapas. sexo e comédias românticas. sexo e nietzsche, sexo e pipoca com curry, ela tem taras pela mosé e recita de cor o poema sobre o tempo. cabelos de diva. aí esses cabelos vermelhos pesados na minha cara descendo pela minha barriga. aí suas falações apaixonadas sobre matisse. me embriaga e leva meus olhos para onde ela quer, marina dos meus pecados. do meu coração aportado. beijo de amor verdadeiro. minha promessa de maldição quebrada. louca das loucuras mais vívidas dessa terra reprimida. louca das palavras mais sábias desse mar de bosta. louca de uma honestidade avessa aos cusões de terno e minas de cabelos loiros e crachá no pescoço às 12h na faria lima. 

talento para fazer as imagens mais eróticas da minha buceta apaixonada. tão selvagemente apegada aos palavrões disparados pela sua boca de pitanga nordestina.
para você, eu imploro, volta. volta. volta que meu coração tá afundando. volta que meu corpo está febril e em delírio implora pelo seu. volta, fdp, volta e quebra tudo. volta e me bate na cara. volta e me fode com fúria, sua maldita. volta, meu vício, minha graça.


sua

sempre me fiz nua
cada alça caída na cama insone
na madrugada ardida
suada e triste
era por você
me fiz verdade em letra suja
sem saber decorar cartinhas
perfumar intenções como você queria
fui teu brinquedo, não fui,
Perverso
um amor encurralado no deserto da pele azul
onde perdi minha última dose de amor
e morri
fomos o pior de nós
Ale Safra

o caráter de uma nação é o seu destino

jogo cruel de espelhos 
mortandade de direitos
silêncio bestial
do povo
obscenos absurdos
povo roubável povo ladrão
povo manso para o tirano
povo perverso para o irmão
não há vítimas
há desejos
desumanizados
de irmão contra irmão


 ryohei hase

lua-me


quando o mar tocou meus pés
foi delicado. espumante. doce
na sua salgada intenção canibal

o mar de onde vim me reconhece
sente falta da minha metade
deseja em mim ser deserto

em mim o mar caminha
no mar meus medos naufragaram
em seu peito, de tritão, não sonho mais

essa noite de lua calma

e quando a ressaca chegar, o mar, esse mar
cospe meus pesadelos indigestos e volto ser
tempestades

dariusz klimcazak

amar é ato de fé



o amor nunca anda nu
desprovido de destino
sem o peso da maquiagem
sem a mágoa da carne

o amor apertado pelo cinto
adoece os pés num sapato
de roteiro traçado lustrado
o amor sufoca numa echarpe blasé

e não sem sentido, o ato de amar
pede espaço. vento. brisa. infinito
o amor nu com todas as cores
onipresente. onisciente. onipotente
amar é ato de fé

imagem de amy judd

26.4.17

além crime

tem um além ali
que te faz rir
de alegria aqui
um alecrim raiz
em paris adele
acena do cena
e faz biquinhos
aqui, aquém
fotos carry
do seu além
que te faz rir
na raiz azul
do alecrim

anna-me. anna-me
desesperadamente
anna-me
alegria aqui
é annar-me de azul
tocar biquinhos com biquinhos
além aqui aquém aí
e rir de annar-te os ossos
de curry raiz em fotos

um sol paris além
aqui
ale
crim
e

imagem de vincent noir


cu


adorável fdp vcf





vc sempre chega as conclusões erradas

me exclui. ignora. depois aparece querendo um café, um cigarro, um beijo uma história
nega minha voz 
ignora meu passo. desdenha minha língua perde meu mapa sempre
e diz que me ama enlouquecidamente. você está nas estações erradas e nossos trens nunca se cruzam mas estamos online e nos esbarramos. mesmo q não seja das nossas vontades
e todo esse draminha classe média p q você conclui excluindo. e suas conclusões são tão firmes quanto cabo de pirulito mordido fincado em gelatina azul
eu me amo desamando vc todos os dias
nas horas vc sempre diz coisas erradas
brinca. trinca os olhos e descostura corações de pelúcia só para se sentir com esse poder de libertino broxa. somos duas sentenças erradas
mas você é um porre barato pra caralho 
vcf



imagem de laura makabresku

VULVA-SE




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