28.7.17



a loucura me abraçou. de novo. me poluiu. me baixou a imunidade. me deixou por instantes na insana cama dos perturbados. aí meu gosto pelos sádicos iluminados. dessa vez não. dessa vez eu disse não. dessa vez eu disse n ã o!
e parti. com arranhões e fantasmas ressuscitados

perguntas. perguntas. perguntas
a figura paterna dementada
um túmulo gemelar. distorções do tempo
não quero voltar. tomo um café na padaria
deixo o movimento me consumir e ouço as pessoas reclamando do frio. da chuva. da política. dos preços. e me distraio olhando as curvas da trabalhadora virando carne na chapa fumegante

e penso nos seus ombros largos que abandonei no sofá. seu peito onde fico pequena. suada. exausta de amar. de querer. de sonhar. de ser feliz
eu te amo, você me diz
"por que você não me beija mais?" será sua pergunta após essa frase. mas antes de ouvi-la da sua boca te disse não e parti.
rostos se alternam. vozes femininas e masculinas num coro desencontrado ecoam a mesma frase "por que você não me beija mais?"
e sou sequestrada por um verão modorrento onde Alice, deitada no meu colo, as margens das águas turvas do canalão me fez a pergunta pela primeira vez

o sol estava prestes a dar trégua. e o silêncio rompido apenas pelas araras canindé que cruzavam, em pares fiéis, um céu limpo e um gosto de adeus misturado ao cheiro de peixe no ar
não tenho respostas. nunca tive respostas.
sou perguntas. sou perdas. sou precipícios

estou deixando esse homem. mais um sem respostas. ficarei sem esse abraço. sem esse som grave nos meus ouvidos me chamando de fdp enquanto me fode. deixo suas mãos grandes que silenciaram meus gemidos. seus olhos obscuros. suas costas largas, fortes que devorei nas unhas e admirei depois os traços avermelhados
queimo a língua no café sem açúcar para me trazer de volta a padaria
saio à rua sem o casaco para o frio me fazer pedra
atravesso a avenida e só no meio do caminho percebo que o farol está fechado para mim

um anjo me protege
e eu o chamo de Adele
ouço o seu chamado


Laura Makabresku

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