27.7.17

azul lâmina


tento ser descente. tento não pisar na goela de ninguém. tento não apontar o dedo para nenhum coração. pisar em nenhum passo. tento. até doer. não interfiro. eu tento! não maltrato. eu tento. deixo a coisa ser. até doer ao extremo. mas liberdade é algo além. algo feito para nós sermos mais. e tento não interferir no que possa ser. a escolha não é minha sobre o que você escolhe. é sua. e doendo ou não eu sempre vou respeitar. e você vai arcar com suas escolhas. simples não fosse tanta mentiras agarradas. mesmo que esse nó insista. não forço. não vou te obrigar a absolutamente nada. mas é verdade que te dou tudo isso para exigir que me de também. espaço. ausência. silêncio. partida. fim.

tudo muda. tudo passa. tudo nasce para ser outras coisas e nunca parar de ser. mesmo que a coisa que vire não seja o tipo de coisa que quero pra mim. mas é preciso respeitar a coisa no que virou e lidar com isso.

não me dou nem o direito a mágoa. seria uma contradição cômica, você não acha? mas tristeza eu posso sentir. mas não é bem tristeza também, é aquela coisa nova que o vazio trás e assusta a gente. esse recomeço de como olhar para isso que era uma coisa e agora é outra? nada que se quebra se refaz. ou lidamos com as fissuras e buscamos nelas sentido ou chega.

e foram tantas fissuras-poréns em domingos fartos e alegres para contrabalançar com outros domingos onde o silêncio aperta a caixa torácica e o fato te dá um soco no estômago e você tosse para vomitar e nada sai. tremedeiras. falta de ar. suo pelos olhos um líquido deprimente e patético como são as relações humanas.

relações de um suposta devoção. de uma suposta cumplicidade. de uma suporta doação. o amor vira esse verme que derruba seu sistema imunológico e te expõe as vespas. as moscas ávidas pelas tragédias na carne alheia. e você descobre por que chorou no instante que nasceu. a maldição de estar só entre todos e saber que sempre quem vai te dar uns tapas é quem te doa a intimidade da sua existência. inequivocamente.

e será que amar o próximo é isso? saber que em algum instante qualquer desta relação o punho fechado chega no seu estômago?

e que parte sou eu que fecha esse punho e o trás para socar em cheio?

"tudo vai ficar bem" ela diz. mas eu sei que só ficará tudo bem [ao menos para esse amontoado de coisa que sou] se eu estiver ausente. quero estar ausente. diante de uma mata fechada ouvindo apenas o som daquelas vidas.

sou um ser líquido que só se faz presente nos fluidos dos corpos. que só existe para o próximo em aranhões dos toques afoitos e o enxerga apenas em tons de vermelho.

mas agora que estamos com nossa pele azul. que meu corpo está frio para você, só consigo pensar como criamos esses punhos serrados e damos o mapa certo da nossa anatomia.

primeiro faltou o ar. depois as vistas suaram quentes. então a garganta e o estômago não entendiam se era tosse ou vômito. e meus pés me levaram de um lado ao outro desta ridícula sala onde oferecemos o melhor de nós.

e me pergunto para que vivemos? para interagir com esse próximo-punho? para entender que tipo de merda nessa bosta de vida pode ser comida?

"respira.

senta.

toma água.

ouça minhas mentiras que elas vão te acalmar."

mas eu gosto de verdades que doem. que fazem a mediocridade das relações se tornarem outras possibilidades. não cozinhe mais suas mentiras e não me force a comê-las nesse faz-de-conta de todos os dias. e se a graça está no caos? mas você não entende. e entendo que não entende. não sei viver essas histórias que você sonha. mas também sei que ninguém sabe e que tantos tontos também sonham. o problema não é estarmos todos perdidos. é a farsa. é a negação. é o medo. é a segurança.

e se insistir em continuar cozinhando meu cérebro, picando meus pés ou refogando meu coração nessa sua receita de vida perfeita, vou te mostrar como sei fazer cicatrizes na minha pele enquanto deixo você brincar assim comigo.

não nasci para ser a atriz do seu banquete.


foto de Mariana Meloni





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