16.8.17

enquanto você não chega

às dezoito e trinta comecei a picar cenouras, mandioquinhas, pimentões, cebolas, alho poró, dentes de alhos, vagens, galhos de cheiro verde e coentro, cará, inhame, batata doce, ralar açafrão da terra fresco, noz-moscadas
às dezoito e quarenta a panela de pressão chiava e especiarias preenchiam o ar até a sala do seu apartamento
cortei os pães, arrumei a mesa, abri o vinho e fui tomar banho

quando você chegou do trabalho às dezenove e quarenta e seis a iluminação da casa era aconchegante, o cheiro de refeição quente ainda seduzia e logo fui te receber, pendurar sua bolsa, tirar seu casaco, te beijar na boca

enquanto você tomava banho e falava do seu trabalho, peguei suas roupas que havia lavado, passado e cheiravam a amaciante. te vesti a blusa depois de secar suas costas e saí do banheiro para que terminasse de se arrumar. terminei de ajeitar a mesa e jantamos. depois te fiz um café e comemos brownie que fiz com castanhas mistas. fomos para o sofá e assistimos uns 3 episódios da nossa série favorita

um ritual que adorei repetir por umas semanas. depois do jantar, do seriado, do chá, do sexo, ouvir você na cama com histórias sobre sua infância, seus medos sobre a velhice, seus sonhos conquistados
me dediquei a esperar. estar. ver. ouvir e cuidar de você por esse tempo. e cuidei de mim com isso
fui sua amante e devota. e agora que à sua casa retornou quem dela tem direito, parti. mas fui imensamente feliz


obrigada

imagem Err

2.8.17

a festa

mais uma festa onde adolescentes confusos bebiam. inseguros e corajosos apesar de todos os medos. uma dessas tantas festas que aconteciam nas casas cujo propósito era beijar. embora fossem beijos melados e desastrosos entre meninos e meninas. depois correr afetados pelos primeiros beijos e contar para seus grupinhos. meninas para meninas e meninos para meninos. ambos os grupos se misturavam apenas para dançar e beijar.

eu beijava os meninos. dos primeiros beijos eu gostava, mas depois tudo ficava azul. eu gostava do azul. mas era apenas azul. gostava mais de conversar com os meninos que de beijar. mas eles queriam apenas beijar e tudo era muito azul para eu querer apenas beijar. 

certa festa, aos 12 anos que me corriam pelos olho, vendo apenas o azul e já sentido a estranheza da empolgação das outras meninas, desconectada da festa, da farra, daquela vida monocromática, perdida sob um caramanchão olhando os casaizinhos se apertando contra paredes eu ouvi: "garota, não é assim que se fuma um cigarro."

e na minha frente ela sentou, calça jeans, camiseta e jaqueta preta. batom vermelho, cabelos curtos e uma franja longa que lhe caia tão perfeitamente. ela pegou meu cigarro e me explicou e mostrou como tragar. mas eu não quis aprender. a verdade é que eu havia tentado antes e tossi ao ponto de ficar roxa e não queria repetir aquele vexame no momento. preferi deixar o cigarro com ela e olhar como ela o pegava e como seus lábios o apertavam e depois soltava a fumaça.
ela tagarelava e ria, eu me afundava na covinha do seu sorriso. garotos chegavam convidando para dançar e nós só balançávamos negativamente a cabeça. as músicas tiveram outro ritmo e fiquei confusa sem saber exatamente o que me acontecia. só sabia que queria ficar ali com ela. conversando sobre qualquer coisa. mas a insistência dos garotos nos fez sair da festa.

ela era prima de alguém. era de longe. vinda de um universo paralelo para me mostrar as cores. para me ensinar a tragar a vida. para tremer e rir como minhas amigas. eram as férias de julho, uma semana beijando, tocando pequenos seios e queimando como se o vento tivesse arrancado minha espinha para brincar de espanar estrelas. uma semana que aprendi a ver as cores, assim como minhas amigas apaixonadas se comportavam, mas eu não tinha amigas para contar tudo aquilo que me acontecia. e eram tantas coisas para perguntar se elas também sentiam.
a semana se foi com a fumaça de cigarro que ela soltava tentando fazer círculos no ar. e eu era outra. e isso de ser outra sempre me causou espanto. como pessoas chegam e mudam perspectivas e sensações sobre o mundo? eu era outra. e gostava de quem eu era. mas não poder falar me adoeceu.

 a vó me levou ao médico. e diante do meu silêncio o médico pediu para ficar sozinho comigo pois fisicamente eu estava bem. mas como contar para ele que a beleza de uma semana estava me torturando?
como dizer para ele que conheci a temperatura, os sons, o cheiro e o gosto das cores encarnadas? "a vida me sufoca de tão boa que as vezes é", respondi finalmente. mas parei aí. então ele tirou da gaveta um caderno e uma caneta e me prescreveu o remédio que até hoje faço uso: escrever.

Laura Makabresku



 
 


1.8.17

ossos

lobo e velha. quem espera,
o coração fechado: uma mulher escrita,
de rugas cravadas em livros, decalcada.
“e quem, aqui
deseja ficar?”.

paredes botas, uma terra marchada. podemos?
mulher sombra. urna de palavras.
silencio, estranhado de
caras viradas, entardecer
abismo. à madrugada humana,
a morte imposta no café da manhã.
vejo o uivo cinza



Laura Makabresku

ladylike junkie



conheci uma Bárbara. um tipo meio ladylike alcoólatra com sombras borradas. fantástica. melancolicamente elétrica. loucamente meiga. barbaramente sarcástica. e me apaixonei pelo tempo de um porre.
jurei amor eterno aos gritos, da janela do sétimo andar às 2 da manhã ao som do velho e afetado the doors.
Bárbara termina suas frases em inglês. as vezes fala tudo em inglês. não entendo nada. mas acho seus cabelos alaranjados excitantes como sua maquiagem decaída e a rosa na coxa direita. também as flores em aquarela nos braços ligadas em ramos pelas costas. ou os flocos de neve sobre o coração da pele tropical. ela bebe pra caralho e me deixa exausta. fala. fala. falta um tempo pra ouvir as poesias clichês que faria com seu nome. me droguei de Bárbara até a overdose. sem chance. e o amor finou.

Bárbara, Bárbara
como arde. tudo é demais
óh, não chame no telegram
deixe a gente pra lá, Bárbara


Takato Yamamoto

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